Moda e Beleza

Modelos negros são exemplo para nova geração das passarelas

A representatividade em trabalhos de moda ajudam meninas e meninos a se sentirem bonitas e sonharem mais alto

Daniel Silveira (redacao@correio24horas.com.br)

Quando tinha 16 anos, Priscila Santiago participou de seu primeiro concurso de beleza, o Miss Estudante. Depois, tornou-se Princesa do Carnaval de Salvador, em 2012, e, no ano seguinte, conseguiu a coroa de Miss Bahia 2013, conquistando o terceiro lugar no Miss Brasil. Depois disso, a carreira da estudante de jornalismo deslanchou e, agora aos 24 anos, é cada vez mais comum ver seu rosto nas passarelas.




Modelo há 12 anos, Suellen Massena reclama do preconceito na moda (Foto: Igor Correia/Feira da Cidade/Divulgação)


Se para a ex-miss o caminho foi trilhado gradualmente, com Suellen Massena tudo aconteceu por acaso e muito rápido. Quando tinha 12 anos, ela saiu de uma audição de balé na Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) e foi com uma amiga e a mãe dela em uma agência de modelos. Quem ia se inscrever era a amiga, mas Suellen também saiu de lá com propostas de trabalho. Hoje, aos 24, continua na carreira, enquanto a amiga desistiu. As duas modelos estarão no Afro Fashion Day, uma realização do jornal CORREIO com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador, do Governo do Estado, através da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), e do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial da Bahia (Senac-BA). O evento acontecerá no dia 20 e contará com feira de manufaturas e gastronomia, oficinas e um desfile coletivo. Além de Priscila e Suellen, mais 38 homens e mulheres vão desfilar looks assinados por nomes como Aládio Marques, Carol Barreto, Jeferson Ribeiro, Luciana Galeão, Goya Lopes e outras 21 marcas, todas baianas. O evento, que comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, promete revelar vários talentos. “Vai ser um bom momento para mostrar que existem modelos negros bons e competentes”, opina Suellen. Em uma cidade como Salvador, com mais de 80% da população se declarando negra ou parda, a modelo acredita que ainda há pouco espaço. “Já presenciei desfiles que queriam trocar o casting por estar muito negro”, conta.




"O fato de eu ser negra abriu muitas portas pra mim. Tive uma receptividade muito boa", conta a Miss Bahia 2013, a modelo Priscila Santiago (Foto: Divulgação)


No entanto, o próprio mercado tem percebido que não pode ceder ao preconceito. Clarice Rodrigues, diretora da MC7 Comunicação, que seleciona modelos para ações promocionais, garante que em sua agência a discriminação não tem lugar. “Mesmo que o cliente exija meninas loiras, com olhos claros, a gente coloca negras na seleção”, relata. Segundo ela, é cada vez mais comum que modelos afro estejam entre os pedidos de clientes, principalmente quando são baianos. Mesmo existindo preconceito durante a seleção para alguns trabalhos, não é todo mundo que atua na moda que sofre com isso. Priscila conta que, desde que começou como modelo, nunca passou por nada parecido. “Muito pelo contrário, o fato de eu ser negra abriu muitas portas pra mim. Tive uma receptividade muito boa”, conta. “No Miss Brasil, eu era a única negra. Não só os baianos me abraçaram, mas os negros do Brasil inteiro”, declara. Ela lembra que sua participação no Miss Brasil ajudou outras meninas a desejarem participar do concurso.




Victor Meneses também foi exemplo para amigos
(Foto: Divulgação)


Para Victor Meneses, modelo que também desfilará no Afro Fashion Day, ter sido um dos primeiros em seu bairro a trabalhar com moda também ajudou outros garotos a sonharem com a carreira. “Muita gente seguiu meu exemplo, muitos me perguntavam o que fazer e como fazer”, conta ele, que é morador da Liberdade. Além de serem exemplos na carreira que escolheram, os modelos têm a chance de mostrarem a outros meninos e meninas negras como valorizam a cor de sua pele, seus cabelos crespos, trançados ou alisados. Para Massena, o segredo é se aceitar para vencer qualquer preconceito. “Quando você se conhece, quando se gosta do jeito que você é, ninguém vai dizer o contrário”, finaliza.