Moda e Beleza

Neutralidade corporal ganha cada vez mais adeptos; entenda

Corrente foi criada para atender a pessoas que não conseguem amar o próprio corpo e busca tirar o foco da aparência

Agência O Globo

Quem costuma iniciar o dia distribuindo likes pelo feed do Instagram, certamente se depara com corpos em exposição e rostos sorridentes. Nas redes sociais, não sobra muito espaço para as mazelas cotidianas da vida.

Foto: Divulgação
Uma boa notícia é que, nos últimos anos, a diversidade de personagens que protagonizam essas imagens foi ampliada e impulsionada por movimentos como o body positive (positividade corporal). Mas, se cabeça é feita para pensar e rede social, para problematizar, um novo movimento começa a ganhar cada vez mais adeptas: o body neutrality (neutralidade corporal). Não se trata necessariamente de crítica ou oposição ao primeiro termo, mas um complemento à linha de pensamento que combate a imposição de padrões estéticos. Dessa vez, tirar o foco da aparência, seja ela qual for, é um dos objetivos principais.

O retiro dedicado a tratamentos de compulsão e distúrbios alimentares para mulheres Green Mountain at Fox Run, nos Estados Unidos, foi um dos primeiros difusores do conceito de neutralidade. A assistente social e terapeuta associada do instituto, Lesley Wayler, conta que o grupo começou a observar que a positividade, que estava se tornando cada vez mais popular, mostrava-se inatingível para muitas mulheres, independentemente de suas formas físicas. Então, buscou-se uma via alternativa para afastá-las do que chamam de “negatividade corporal”.

— De um lado, há o ódio à própria aparência, que é o lugar onde muitas mulheres se encontram. No extremo oposto, você tem o amor em excesso. Para quem está no extremo da aversão por vários anos, imaginar-se num lugar de aceitação, de uma hora para outra, parece impossível. Então, é aqui que entra a neutralidade — explica.

Segundo Lesley, o conceito fica bem no meio desse caminho e permite às mulheres avançar em direção à aceitação em seu próprio ritmo. Assim, elas começam a reconhecer o que o seu corpo é, de fato, bem como o que ele pode fazer por elas hoje. Em última análise, funciona como uma abordagem prática para ajudar a reduzir a autoaversão e a autodepreciação.

Desprendida de conceitos, a modelo Fluvia Lacerda enxerga com bons olhos todas as correntes que demonstrem cuidado especial pelas individualidades. Tomada como referência por muitas mulheres que vivem angustias relativas à própria imagem, a modelo plus-size costuma dizer às seguidoras que cada uma terá um caminho próprio para lidar com isso.

— É um processo de despertar. Não é simplesmente acordar de um dia para o outro, olhar no espelho e se achar fantástica. Muitas pessoas precisam de ajuda profissional e de um conjunto de ações para se entender num processo de cura — diz.

No caso da neutralidade, tirar o foco da aparência não significa, de maneira alguma, que a estrutura física é relegada. A graça aqui é entendê-la de uma maneira diferente e menos superficial. E disso, a Fluvia é entusiasta:

— Nunca consegui assimilar a ideia de vencer a guerra consigo mesma por meio da aparência. Sempre entendi o processo de me olhar no espelho como uma maneira de admirar o quão fantástico o nosso corpo é. Ele me leva de um lugar para o outro, me deu dois filhos e nunca me deixou doente.

Essa foi a chave para a aceitação encontrada pela jornalista Mirian Bottan, depois de 13 anos de distúrbios alimentares. Durante todo esse período, ela sofreu com bulimia, anorexia e, por fim, ortorexia, uma obsessão por alimentação saudável. Quando começou a buscar ajuda, esbarrou com o conceito de “positividade”, mas não se identificou, porque não conseguiu amar a própria aparência imediatamente.

— Virar essa moeda de uma hora para a outra deixaria muitas coisas pelo caminho. Perderia muitas etapas para me entender como indivíduo — conta. — A positividade traz a inclusão de todos os corpos, o que é lindo. Mas o movimento cresceu e ganhou vida própria, com muita gente interpretando esse amor pela nossa imagem como uma obrigatoriedade.

O conceito de valorizar outros aspectos humanos, passando sobretudo por suas funcionalidades, desatou esse nó na cabeça de Mirian. Ela passou a enxergá-lo como uma “máquina incrível”.

— Quando isso acontece, você entende que está tudo bem se acordar, olhar no espelho e não achar lindo o que vê no reflexo. Mas entende que o seu corpo merece respeito e cuidado. Ou seja, mesmo quando não gosta do que está refletido, consegue seguir em frente. Caso contrário, seria uma angústia a mais — descreve.

Para muitas mulheres, o discurso de amar o próprio corpo a qualquer custo também se torna opressor à medida em que ganha contornos de obrigatoriedade, seguido pela cobrança em relação à aparência, algo muito recorrente na “era da lacração”. A cabeleireira e influenciadora digital Diva Green, de São Paulo, salienta que isso recai ainda com mais intensidade sobre as mulheres que estão fora do dito padrão de beleza. Ela ilustra com uma situação:

— Se você é gorda e vai à padaria, uma pessoa questiona: “vai sair assim? Tem que passar, pelo menos, um batonzinho”. Se é magra, isso já se restringe a, no máximo, “prender o cabelo”.

Entender isso e se desprender das amarras, segundo Diva, foi libertador. Hoje, ela tem se preocupado menos em estar a todo momento com o “cabelo impecável” e uma maquiagem no rosto. Está mais focada em encontrar uma certa “leveza na existência”.

— Comecei a pensar que estava quebrando um tabu, mas, ainda assim, tinha de estar sempre me afirmando de outra maneira, dentro de outro padrão. Até que ponto isso era benéfico?

Para a psicanalista e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio, Joana de Vilhena Novaes, a neutralidade traz uma discussão interessante ao desmistificar a pressão estética sofrida pelas mulheres por meio de uma via de naturalização e não normatização.

— A maioria das pessoas tem uma série de “desvios estéticos” em relação aos padrões e isso não pode ser uma fonte inesgotável de sofrimentos psíquicos, discriminação, vergonha e autoestima — menciona, lembrando que 57% da população brasileira tem sobrepeso. — É ótimo que você diga ao sujeito que o seu corpo tem que ser um companheiro e não um calvário, mas sempre lembrando de que é preciso uma dose de ritual e cuidados para que também não se torne algo mortífero.

Lesley Wayler conta que muitas clientes que chegam ao Green Mountain são céticas e, às vezes, evasivas, na hora de falar sobre o assunto. Isso acontece, de acordo com ela, por se tratar de uma questão profundamente enraizada e que começou a acometer a vida dessas pessoas muito cedo, se tornando uma fonte de tortura ao longo de anos.

Por isso, como ela indica, o primeiro passo dentro da neutralidade é trazer consciência sobre quando e onde esses pensamentos negativos sobre o corpo ocorrem, bem como o que essas ideias estão dizendo. De acordo com Lesley, é comum descobrirmos que, quando nos olhamos no espelho, somos os nossos maiores críticos.

— Esse passo, por si só, pode ser muito difícil, pois muitos desses pensamentos são automáticos e passam despercebidos. A partir daí, o trabalho é desafiar esses pensamentos negativos sobre a aparência, enquanto surgem respostas neutras e críveis. É essa prática que nos ajuda a religar o cérebro e nos mover em direção a um lugar onde podemos, eventualmente, aceitar nosso corpo, independentemente de sua forma, tamanho, cor e habilidade — diz Lesley.

Para seguir:

1. Fluvia Lacerda

A modelo plus-size inspira muitas seguidoras para além da aparência em seu perfil @fluvialacerda

2. Diva Green

A cabeleireira posta fotos em looks cheios de personalidade na conta @adivagreen , mas “lacrar” sempre não é regra

3. Mirian Bottan

Depois de vencer distúrbios alimentares, a jornalista se identificou com a neutralidade. Seu perfil é @mbottan