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Em feito inédito, peixe engravida e tem parto por cesariana

Esta é a terceira vez que cientistas descobrem um peixe cujos ovos com embriões se desenvolvem dentro da barriga da mãe, segundo pesquisadores

Agência O Globo
Um pequeno peixe fêmea de uma espécie popularmente conhecida como esgana-gato (Gasterosteus aculeatus) parece ter burlado as regras reprodutivas da árvore da vida. As fêmeas desse peixe, como a maioria, colocam ovos não fertilizados que os machos fertilizam no ninho. Mas Mary — como essa fêmea foi apelidada pelos pesquisadores — de alguma forma engravidou, fazendo com que seus filhotes se desenvolvessem dentro de sua barriga. Eles sobreviveram ao parto graças a uma cesárea.
Um dos filhotes do peixe batizado de Mary Foto: Divulgação/Laura Dean
Esta é a terceira vez que cientistas descobrem um peixe cujos ovos com embriões se desenvolvem dentro da barriga da mãe, relataram os pesquisadores em um artigo publicado em 20 de fevereiro na revista "Nature Scientific Reports". No entanto, há algo de inédito nessa descoberta: é a primeira vez que filhotes sobrevivem ao parto e chegam de forma saudável à fase adulta.
"A maioria dos animais põe ovos, mas alguns (incluindo quase todos os mamíferos, mas poucos peixes) retêm seus ovos dentro da barriga e dão à luz. Embora isso pareça ser algo difícil de alcançar na evolução, este peixinho parece ter chegado lá quase sozinho", escreveu, em um comunicado, Andrew MacColl, biólogo evolucionista que faz parte da equipe que fez a descoberta pela Universidade de Nottingham, na Inglaterra.
"Embora esse achado quase acidental tenha revelado um fenômeno extremamente raro, pode nos ajudar a entender uma mudança realmente importante que aconteceu em toda a árvore da vida", acrescentou MacColl.
Os embriões extraídos de Mary foram fotografados pouco antes da eclosão Foto: Divulgação/Laura Dean
Enigma: como a gravidez aconteceu?
Os pesquisadores ainda não sabem exatamente como Mary, que agora está morta, ficou grávida, já que os peixes de sua espécie não fazem sexo uns com os outros.
Uma hipótese com a qual os cientistas trabalharam de início era de que ela era hermafrodita e, assim, teria fertilizado seus próprios óvulos. No entanto, uma análise genética revelou que seus bebês tinham herança genética de dois peixes.
Então, a hipótese que ganhou mais força é de que Mary entrou em um ninho onde um macho tinha recentemente despejado vários espermatozoides para fertilizar ovos normais, soltos, que já estavam lá. De alguma forma, alguns desses espermatozoides devem ter subido até o óvulo de Mary, dessa forma, seus ovos teriam sido fertilizados, ainda dentro dela.
Consequências desastrosas para Mary
Embora os embriões resultantes tenham se mostrado saudáveis, provavelmente esta não foi uma experiência boa para Mary. Quando os pesquisadores a encontraram, na Escócia, ela estava tão inchada com seus filhotes dentro da barriga que estava "quase morta", relataram os cientistas.
Os pesquisadores, então, sacrificaram Mary usando medicamentos, seguindo a regulamentação do país sobre bem-estar animal. Em seguida, eles a abriram e extraíram seus ovos, com uma cesariana. Do total de filhotes, 56 sobreviveram até a idade adulta em um aquário de laboratório.