Nem Te Conto

Angélica, sobre Huck: 'Ser presidente é um projeto dele, não meu'

Longe da TV desde abril , Angélica tem se dedicado aos filhos a si mesma e, sobretudo, à busca de um legado

Marina Caruso, O Globo
- Atualizada em

A lista de ramais telefônicos que conectam os cômodos da casa onde a apresentadora Angélica mora com o marido, Luciano Huck, e os filhos, Joaquim, Benício e Eva, é tão extensa que lembra as de canais de TV em quartos de hotel. Mas Angélica — esvoaçante em um vestido branco comprado “numa lojinha fofa da mulher do Donavon Frankenreiter, em Hanalei, no Havaí” — não tem nada de impessoal. Quebra, em minutos, a formalidade do ambiente, enquanto procura o melhor ângulo para a foto e as palavras certas para traduzir o momento “privilegiado” que está vivendo.

Foto: Reprodução

Longe da TV desde abril — quando o programa “Estrelas”, que apresentou por 12 anos, chegou ao fim —, Angélica tem se dedicado aos filhos, a si mesma e, sobretudo, à busca de um legado. “Como posso usar o fato de ser uma pessoa pública para ajudar outras mulheres?”, questiona-se, em entrevista à coluna. 

A seguir, a apresentadora fala também sobre a corrida presidencial nas redes sociais (“Você nunca vai me ver fazendo campanha na internet”) e dentro de casa, onde a eleição virou tema quando Huck pensou em se candidatar à presidência.

1) No filme “De perto ninguém é normal”, que acabou de rodar, sua personagem teve uma mãe ausente. Como foi a sua mãe e como é você com seus filhos?

Por causa da ausência da mãe, a Rebequinha tomou um caminho que não é bacana para mulher nenhuma. Ficou fútil, só pensa em joias, está com o marido por dinheiro. É leve, divertida, mas deixa o filho fazê-la de gato e sapato. Eu sou bem diferente como mãe, superpresente. Com eles, abriu-se um portal, tornei-me uma pessoa melhor.

2) Como assim?

A gente trabalha tanto que esquece coisas essenciais. Com um filho, você volta a brincar, a refletir sobre coisas em que nem pensava mais. Eu, minha irmã (a empresária Marcia Marbá) e meus pais somos muito unidos. Hoje, entendo a importância disso. O Benício, meu filho do meio (de 10 anos), fala “vamos fazer a noite da família?”. Gostamos de jogar juntos, conversar, cuidar um do outro... 

3) Você é mais dura que o Luciano?

Eu fico no dia a dia. Levo no oculista, vou à reunião da escola. Luciano viaja muito. Então eu viro a chata, né? Toda mãe é assim. Quando o assunto é mais sério, uso aquele “vou falar com o seu pai”. E aí ele marca presença. Os três têm o maior respeito pelo pai. Os meninos, entrando na adolescência, cheios de hormônios, precisam de limites.


4)A relação com os três é igual?

O amor. O que é diferente é a identificação. A menor (Eva, de 6 anos) é uma figura, divertida, astral. Eu me vejo na alegria dela. O do meio é “riso frouxo”, como eu. Já passei por situações constrangedoras de acesso de riso. O mais velho é cerebral, observador, precisa de um empurrãozinho, igual a mim. Com cada um, há afinidades e diferenças.

5) O que te irrita?

A falta deles. Às vezes sinto uma irritação e penso:“Nesta semana não consegui buscar os meninos na escola” ou “Luciano está há seis dias viajando”. Ele é parecido comigo. O que nos uniu foi esse senso de família. Tenho certeza que não casou comigo porque pensou: “Uau, loura de olhos verdes”. E sim porque temos um projeto de vida juntos.


6) Onde foi o primeiro beijo?

Olha (cai na gargalhada)... foi em Fernando de Noronha, alguns anos antes de começarmos a namorar. E foi lá que a gente fez nosso primeiro filho, três anos depois.


7) Como está encarando esse tempo longe da TV?

O break é necessário, e a gente não percebe no dia a dia. Trabalho desde os 4 anos (quando foi eleita a criança mais bonita no concurso do Chacrinha). Só descobri o que era fim de semana aos 28, quando parei com os shows. Não tinha Natal, Páscoa, Réveillon. Precisava disso. Tenho quase 45 anos e uma vida bem estruturada. É hora de me perguntar o que quero daqui para frente. Estou preparada, intelectualmente, para os próximos 40 anos? O que quero da TV? Como posso usar o fato de ser uma pessoa pública para ajudar outras mulheres? Essas reflexões passam pela minha cabeça.

8) Tem resposta para elas?

Na TV essa é a resposta que tenho buscado em reuniões semanais. Fizemos muito brainstorming e agora começamos a formatar ideias para apresentar à direção da Globo no fim do mês. É um privilégio pensar no meu projeto.

9) O Luciano já transformou o carro, a casa e a vida dos telespectadores. Gostaria de ir por esse caminho?

Essa é a marca dele. Estou formatando a minha. Fui picada pelo bicho da generosidade no “Estrelas Solidárias” (quando Angélica e outros famosos faziam trabalho voluntário). Pode ser um caminho..."

10) Levaria o feminismo para a TV?

O “empoderamento” feminino, essa palavrinha feia, mas necessária, está nos planos, não só para a TV, mas para a vida. Quero deixar um legado. Estou estudando filosofia, reforçando a análise que faço há anos e, hoje, terei minha primeira consulta de neurolinguística. Quero me instrumentalizar. A meditação, há dois anos, ajuda no meu processo de autoconhecimento.

11) Há quanto tempo faz análise?

Comecei aos 23, tarde para quem trabalhava desde os 4. Sempre me preocupei em ver os outros felizes: pais, irmã, amigos. Olhava mais para o outro do que para mim. Agora penso: “E eu? O que desejo?”. Quero me cuidar, curtir, ter uma bagagem bacana.


12 Você se vê como primeira-dama? Apoiaria o Huck se ele se candidatasse à presidência?

Ser presidente é um projeto de vida muito dele, não meu. Mas ele sabia que eu estava do lado dele. Se tivesse que abrir mão (de algo), abriria. Acho que ia fazer bem feito, me divertir. Faria meu trabalho como primeira-dama muito bem. Mas, no fundo, senti que não era o momento. As coisas estão muito difíceis...

13) Por isso mesmo...

O próximo presidente terá um desafio enorme, e não depende só dele. Se o Luciano quer resolver um problema hoje, ninguém impede. Ele vai e faz. Como presidente é diferente. Tem Congresso, deputado..


14)Nesta eleição em que o Brasil está dividido, você, ao contrário de muitas celebridades, optou por não se manifestar nas redes sociais. Por quê?

Ando muito assustada com essa terra de ninguém que é a internet. As pessoas se agridem, se bloqueiam, sofrem... tem atriz hoje que vai (no Instagram) e fala: “Ai, vocês estão fazendo bullying comigo”. Difícil, né? A gente tem que ter limite. Não podemos sair falando tudo na internet. Não é lugar de terapia. Existem profissionais, bem pagos, que estudaram para isso. As pessoas que te seguem não são suas amigas, não é com elas que você tem que se abrir, desabafar. Você nunca vai me ver fazendo isso, nem campanha. Sei o quanto influencio os outros e não tenho esse direito. Atinjo classes A, B, C, D, E. Não me sinto preparada para ditar regras. E, de verdade, ainda não sei (em quem votar), já mudei três vezes de opinião.