Nem Te Conto

Após 20 anos, Danton Mello quer voltar ao local onde sofreu acidente de helicóptero

Ator ficou preso pelo cinto do lado de fora da aeronave e sofreu uma hemorragia interna no abdômen e escoriações no rosto

Hellen Guimarães, da Agência O Globo
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Muita gente que vê o ator Danton Mello no programa "Tá no ar" ou no quadro "Dança dos Famosos", no "Domingão do Faustão", não imagina o quão perto da morte ele já esteve. Há 20 anos, o artista sobreviveu a um acidente aéreo no Norte do Brasil. Ele era apresentador do programa de TV "Globo Ecologia" e faria uma gravação no Monte Roraima, mas o helicóptero que levava a equipe caiu durante o pouso. Mello passou mais de 30 horas à espera de resgate, a 2.734 metros de altitude. Sem água ou comida, encarou sol, chuva e temperatura de zero grau na madrugada. O resgate só foi possível quando um índio avistou a aeronave e informou seu paradeiro a um posto da Funai. Cinco pessoas sobreviveram, mas um membro da equipe morreu no local.

Na última sexta-feira, Danton fez um post em seu Instagram para lembrar o acidente, que recebeu destaque na primeira página do GLOBO do dia 16 de setembro de 1998. Em entrevista ao blog do Acervo, o ator lembrou detalhes do acidente e revelou que pretende voltar ao Monte Roraima, que fica na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Mas, desta vez, não vai ser de helicóptero.

Danton Mello chega a Boa Vista após o resgate no Monte Roraima | Foto de Gabriel de Paiva / Reprodução TV Globo

- Quando sobrevoamos o monte, o horizonte era verde aonde quer que eu olhasse. A Floresta Amazônica é impressionante, gigantesca. Eu estava na janela do lado direito atrás do piloto, Almir, e me lembro muito bem da gente caindo e vendo o chão se aproximar, da pancada. O rotor traseiro do helicóptero quebrou e ele ficou desgovernado, parecia um liquidificador. Com a pressão desse giro, eu desmaiei - contou Danton, que ficou preso pelo cinto do lado de fora da aeronave e sofreu uma hemorragia interna no abdômen e escoriações no rosto.

Além do ator e do piloto Almir Bezerra, estavam no helicóptero o repórter Fernando Parracho, o diretor Cláudio Savaget, o cinegrafista Sérgio Vertis e o operador de áudio Ricardo Cardoso, conhecido como Cuca, que morreu no local. Eles saíram da capital Boa Vista num domingo, mas o mau tempo obrigou-os a passar a noite em Uiramutã. Por volta das 9h de segunda-feira, dia 14 de setembro, a tripulação partiu em direção ao monte, a 80 km e 25 minutos de distância. O intuito era retornar no início da tarde. Entretanto, a chuva, o vento forte e a baixa pressão causaram uma pane, derrubando o helicóptero, que foi dado como desaparecido às 16h.

Danton Mello em cena do Globo Ecologia gravada no dia do acidente, em 1998 | Foto de Luís Alvarenga / Jornal Extra

- Acordei não sei quanto tempo depois com o Almir me ajudando. Ele já havia desmontado o helicóptero e improvisado alguma proteção para nós com o que sobrou. A espera foi desesperadora, angustiante. Eu dormia ou desmaiava de dor - conta o ator, que, apesar de tudo, permaneceu confiante. - Lembro de dizer ao Fernando que a gente sairia dali nem que fosse a pé, e ele me disse que o lugar mais próximo estava a quatro dias de caminhada, descendo pela Venezuela. Mas isso não me abalou.

Não bastasse o isolamento, o Monte Roraima é um planalto bem extenso, o que dificulta o resgate. O topo do relevo tem o formato de uma mesa e cerca de 55 quilômetros quadrados de área. O primeiro helicóptero de resgate a sobrevoar o local do acidente, na manhã de terça-feira (15), não encontrou a equipe. No início da tarde, uma nova esperança frustrada: um avião do governo de Roraima passou pela região, sem sinalizar se havia visto os tripulantes.

- Tentamos de tudo para que o helicóptero nos notasse, mas ele realmente não viu a gente. Mais tarde, quando o avião foi embora, eu deitei, e ali realmente foi meu último momento de força. Falei para eles: “não sei se aguento ficar aqui mais uma noite”.

Segundo O GLOBO relatou à época, o piloto do avião, Raimundo Nonato, não conseguiu pousar e chamou o piloto Márcio Miller, que estava com um helicóptero da FAB numa aldeia próxima. Foi ele quem conseguiu se aproximar dos seis tripulantes, às 17h10, quando Mello e Parracho foram levados a Boa Vista. A essa altura, o operador de áudio Ricardo Cardoso, de 34 anos, já estava sem vida. Ele sofreu uma hemorragia interna, assim como Danton.

Com escoriações no rosto e hemorragia interna, Danton Mello é levado ao hospital em Boa Vista | Foto de Gabriel de Paiva / Reprodução TV Globo

- O Cuca ainda estava vivo quando passou o primeiro helicóptero, mas não resistiu até o da tarde chegar - emocionou-se o ator, que só foi informado da morte de Ricardo no Rio. - Não sei se o Parracho já sabia ou se quiseram me poupar. Fiquei muito abalado e muito triste, ele era um grande amigo da equipe toda, um grande parceiro. Ele era jovem, um cara muito alegre e feliz.

As nuvens pesavam e o tempo tornava a fechar quando Danton e Parracho foram levados ao hospital. A operação teve de ser interrompida por conta do mau tempo e o resgate só foi finalizado 52 horas após o acidente. Bezerra, Savaget e Vertis passaram a noite em observação e chegaram à capital por volta das 14h do dia 16.

Apesar de as viagens de avião serem rotina em sua carreira (ele viaja a Miami este mês para representar o filme "Antes que eu me esqueça" no Festival de Cinema Brasileiro), o ator contou ao Blog do Acervo que ficou 13 anos sem entrar em um helicóptero. Quando ele e um grupo de atores participavam de uma reportagem de revista em Ushuaia, na parte argentina da Cordilheira dos Andes, Mello viu no helicóptero que os fotografava uma oportunidade. Cientes de sua história, os editores relutaram, mas ele insistiu em sobrevoar a região. Após se certificar de seu bem-estar, o piloto decolou. O ator chorava durante todo o percurso.

- Não sei se foram cinco minutos, quinze, uma hora. Eu só coloquei tudo pra fora, algo que eu guardei por tanto tempo, aquele sofrimento e angústia. Quando pousou, foi uma sensação de alívio, eu pensei: 'finalmente consegui virar essa página'. O que eu passei só confirmou um pensamento que eu sempre tive, que a gente tem que aproveitar a vida. Não sabemos o dia de amanhã, então temos que fazer o melhor que podemos nós mesmos e as pessoas que amamos.

Vinte anos depois do acidente, o ator sonha em retornar ao Monte Roraima. O plano é ir não de helicóptero, mas pela trilha de quatro dias que sai da Venezuela - a mesma que ele, no desespero, pensou em encarar para sobreviver a queda. Segundo Danton, Vertis e Savaget disseram não ter condições, mas ele e Parracho quase fizeram a viagem no mês passado. Sua agenda atribulada, porém, obrigou-o a adiar o projeto. Nesta sexta, ele lembrou do acidente em sua conta no Instagram.

De outubro a janeiro, o atual líder da Dança dos Famosos gravará a sexta temporada de “Tá no Ar”, série humorística de Marcelo Adnet e Marcius Melhem. Nos últimos meses, ele interpretou Gregório na novela "Deus Salve o Rei" e terminou as gravações do filme “Hebe”, ainda sem data de estreia, que também dará origem a uma série de 10 episódios na TV Globo. A rotina de nove horas de ensaio e um ritmo novo por semana são um verdadeiro desafio para ele, que tem hipertensão e diabetes e se considera sedentário. Surpreso com o bom desempenho na competição, Danton vê na experiência uma oportunidade de crescer como artista.

- Uma prova de dança é algo que sai totalmente da minha zona de conforto e estou amando mesmo. Não tenho a pretensão de ganhar nada, só espero conseguir ficar até dezembro para quero aprender o maior número de ritmos possível! Quero dançar com alegria e fazer a melhor apresentação que puder para o público. O resto é consequência.