Nem Te Conto

Bruna Surfistinha diz que contará às filhas sobre seu passado

'O que aprendi na dor, quero que elas aprendam com amor', conta Raquel Pacheco

Agência O Globo

Bruna Surfistinha agora é garota do Rio. Após 36 anos vivendo em São Paulo, ela escolheu a Cidade Maravilhosa para começar uma nova fase e realizar, como ela mesma diz, sua "missão de vida": ser mãe. Grávida de quase 6 meses das gêmeas Maria e Elis (uma homenagem à cantora Elis Regina, que morreu em 1982), Raquel Pacheco diz que se transforma a cada dia com a maternidade e que deseja ser para as meninas a mãe que ela não teve:

Foto: Reprodução

"Esse vínculo maternal eu não tive com a minha mãe. E tudo isso que eu senti falta, quero que as minhas filhas tenham de mim. Estou usando essa minha dor da ausência da minha mãe como uma força para ser mãe de duas agora. Tudo que eu aprendi na dor, quero que elas aprendam com amor".

Choque ao descobrir gravidez de gêmeas

As bebês são frutos do relacionamento com o ator e artista plástico Xico Santos, de 31 anos, que ela conheceu em setembro, durante uma gravação em São Paulo, após um ano e meio solteira. Eles se apaixonaram, e quatro meses depois estavam "grávidos". "A gente conversava em construir uma família, mas não esperava que seria tão rápido. E foi um susto grande quando descobrimos que seriam duas meninas. Ficamos em choque por um tempo até processar a informação", confessa.

A decisão de mudar para o Rio se deu porque o noivo é carioca. "É uma fase de recomeço da minha vida. Decidimos vir para o Rio em busca do apoio familiar que eu não tenho, e para que as crianças cresçam perto da praia, com uma qualidade de vida melhor", explica Raquel.

'Elas vão saber o que eu fiz'

O anúncio da gravidez foi feito há duas semanas, nas redes sociais de Bruna Surfistinha, nome que Raquel segue usando e que pretende, ela mesma, apresentar às filhas quando as meninas tiveram um entendimento.

"Não tem nem como esconder. Não escondi quem eu sou para o mundo, não faz sentido em esconder para as minhas filhas. Elas vão saber, sim, quem eu sou, o que eu fiz da minha vida dos 17 aos 20 anos, o que aconteceu, mas não vou focar apenas na prostituição. Também vou dar muita ênfase na mulher que eu me tornei e o quanto eu aprendi com a minha própria vida. Quero que elas cresçam já sabendo. Vou ter a intuição materna de contar para elas, da maneira mais leve a mais calma, para que elas entendam".

'Se eu não tivesse capacidade de ser mãe por ter sido garota de programa, Deus não teria me dado duas filhas de uma vez'

A gravidez de Raquel gerou uma onda de amor vindo de pessoas que sempre souberam do sonho dela em se tornar mãe. Mas também tiveram alguns ataques machistas e preconceituosos. "Que me ataquem como Raquel ou Bruna, não me importo. O que me incomoda é quando falam das minhas filhas, que elas não têm culpa nenhuma do que eu fui. Teve uma mensagem que eu recebi no direct de um homem falando: 'chega de vadia no nosso país'. E eu me incomodei, sim. Acho um absurdo esse ataque à mulher pegando do filhos com palavras de preconceito e machismo.

Bruna lembra que que época da prostituição conviveu com muitas garotas de programa que eram mães: "Elas tinham uma relação com as filhas que eram lindas, que eu invejava até. Era relação de muito amor e proteção. E essas coisas que as pessoas dizem, como se eu não pudesse ser digna de ser mãe porque eu fui prostituta por um período na minha vida, isso não faz nenhum sentido. Pelas garotas de programas que eram mães e que eu conheci, acabam sendo uma mãe melhor do que muitas que não se prostituíram e que não são boas mães".

"Recebo mensagens pesadas, de gente dizendo que Deus nunca ia me permitir ser mãe. Parecia que estavam me jogando uma praga gigante. E hoje, mais do que nunca, eu sei que se eu fosse tudo isso, se eu não tivesse capacidade de ser mãe por ter sido garota de programa, Deus não teria me dado duas filhas de uma vez", desabafa. E que mundo Raquel Pacheco sonha em criar as filhas? "Um mundo que eu tenho a consciência que, infelizmente, elas não vão viver. Gostaria que elas crescessem numa sociedade com humanos mais humanos, com mais respeito e que as pessoas possam ser o que elas quiserem ser, sem preconceitos, sem machismo, sem patriarcado e feminicídio, e com mais empatia. Queria também uma sociedade com um governo melhor e que tivesse uma decência na nossa política".