Nem Te Conto

De volta às novelas, Gianecchini fala sobre carreira e fama

'A Dona do Pedaço' marca o reencontro do ator com Juliana Paes dezenove anos depois da estreia de ambos na Globo, em "Laços de Família"

Patrícia Kogut, de Agência O Globo
"A Dona do Pedaço" marca o reencontro de Reynaldo Gianecchini e Juliana Paes dezenove anos depois da estreia de ambos na Globo, em "Laços de família". Se naquela ocasião a ligação dos personagens Edu e Ritinha não era tão estreita, desta vez, os atores formarão um par romântico. O playboy Régis se casará com a empresária Maria da Paz por interesse, mancomunado com a filha dela, Josiane (Agatha Moreira):
Foto: Divulgação
- Não sei se ele é esse vilão todo, terrível. Régis tem um desvio de caráter, mas parece que existe um coração pulsando ali. Ele se apaixona pela Maria da Paz, a pessoa em quem dá o golpe. É divertido fazer um tipo como esse. O personagem é cara de pau, falso. Posso jogar com um monte de possibilidades. Isso é muito rico para um ator.
Gianecchini estava afastado das novelas desde o fim de "A lei do amor", em 2017. Ele conta que vem buscando períodos mais longos de descanso desde que enfrentou um câncer, em 2011, e se submeteu a um transplante de medula óssea:
- Desde o transplante, resolvi dar uma desacelerada. Sempre trabalhei de domingo a domingo. Acabei ficando com vontade de não fazer nada às vezes. Depois de 'A lei do amor', pedi um tempo. A peça ('Os guardas do Taj', que estrela com Ricardo Tozzi) apareceu durante esse período. Não estava prevista, mas me apaixonei. Topei fazer e interrompi o ano sabático. Quero repetir isso outras vezes, morar fora do país, reciclar as ideias... Um off criativo. Agora me sinto muito bem para voltar, estou descansado e animado. Dei uma boa oxigenada.
O ator afirma que, apesar da fase difícil por causa da doença, evitou ficar permanentemente preocupado com questões de saúde desde então:
- Passei a me cuidar melhor, a me alimentar melhor. Mas sou zero neurótico. A gente não tem controle sobre tudo e precisa entregar um pouco para o universo. Meu processo de entendimento foi muito bonito. Saí um cara mais inteiro e com menos medo. Brigo bastante com esse sentimento, porque ele paralisa.
Na lista dos medos, envelhecer certamente não aparece, garante o ator. Aos 46 anos, ele garante que sua "convivência com o espelho está ótima":
- Está todo mundo se recusando a envelhecer, mas isso nunca me incomodou. Tem gente com 40 anos querendo uma aparência de 20. É um sofrimento. As pessoas têm perdido a noção do que colocam no rosto. Estive na Europa recentemente e percebi como aqui somos reféns do corpo. Queremos estar sarados e jovens. As pessoas lá são belas do jeito que são. Me perguntam: 'Por que você não faz botox?'. Não, eu tenho 46 anos, não quero ser um homem de 30. Você acaba se acostumando com sua nova imagem. Por que tenho que olhar no espelho e ver a cara lá de trás? Eu acho insano. As marcas de expressão que vão surgindo não me incomodam. Pode ser que lá na frente isso mude, mas espero que não.
Além das mudanças físicas, Gianecchini observa que seu olhar para a vida - sobretudo para o ofício - se transformou ao longo dos anos:
- Já faz um tempo que entendi que, nessa profissão, como em todas as outras, você tem que se divertir e viver o processo da melhor forma possível. Sem o peso da responsabilidade, sem querer tanto agradar. Eu vou ao estúdio com a sincera intenção de me relacionar com as pessoas e me jogar. Antigamente eu ia com o peso do mundo nas costas, achando que tinha que acertar pra caramba. É uma frustração quando não se consegue atingir aquilo que se espera. Hoje estou muito mais leve e isso se reflete no meu trabalho. Não penso em ganhar prêmios. Penso no processo, no prazer. O resultado, para mim, não é o ponto mais importante. Não crio expectativas, quero curtir o presente. Nesta novela, vou reencontrar a Ju e trabalhar com outras pessoas que admiro, como Nathália Timberg e Marco Nanini. Estou achando o máximo. Atualmente faço questão de conversar, de olhar nos olhos de cada um, desde a pessoa que serve o café até a diretora-geral. Isso só a maturidade traz. Tudo fica melhor.
Segundo ele, até a relação com a imprensa foi se reconfigurando:
- Está tudo mais tranquilo porque eu mesmo estou mais tranquilo. E a mídia quer os jovens. Quando você é jovem, está na crista da onda. Tem muito barulho em volta. Eu já não sou essa pessoa. A bola foi passada para os novinhos que estão fazendo sucesso. Acho a maturidade algo muito legal. Seria insuportável viver aquela vida para sempre. Faz parte do processo desacelerar e dar uma sumida de tudo. Não tenho paciência nem vontade de ficar exposto. Eu procuro me preservar mais e ir a menos lugares.
O ator conta ainda que aprendeu a lidar melhor com o impacto causado pelas notícias a seu respeito:
- Já falaram tanta besteira a meu respeito. Eu agora dou risada, faço questão de não acompanhar. Não fico lendo. E nem quero que venham me contar. Não desejo dar existência para isso na minha vida. Ninguém vai me ver procurando um veículo para dizer que uma informação é mentirosa. Quero mais é que pensem o que quiserem. Não vou ficar me justificando, desmentindo boato. Senão a vida fica insuportável.
Gianecchini relembra uma publicação que informava que ele teria um filho com uma amiga:
- Falaram que eu ia ser pai, deram até o nome da mãe. Zero de verdade naquilo. Me perguntaram: 'Você não vai desmentir?'. Eu disse: 'Não. Vão ter que arrumar um filho para mim lá na frente'. Se a vida da pessoa está chata e ela está precisando acreditar nessas histórias, então, que acredite.