Nem Te Conto

Deborah Secco diz que já fez vista grossa ao ser assediada e viveu relações abusivas

Atriz vive vilã em 'Segundo sol', novela das 21h que estreia nesta segunda-feira

Zean Bravo, da Agência O Globo

Aos 38 anos, Deborah Secco diz se arrepender de muita coisa e não tem vergonha em se assumir insegura, nas relações pessoais e no trabalho. A partir das 21h desta segunda-feira, ela será a vilã Karola em “Segundo Sol”, nova novela de João Emanuel Carneiro, autor de “Avenida Brasil” (2012). A atriz confessa estar ainda tateando o terreno da ambiciosa ex-garota de programa. Ao lado da amoral Laureta (Adriana Esteves), ela será responsável pelas maiores maldades da história: vai se passar por viúva de um homem que está vivo e irá roubar o filho da rival. Sempre presente nas novelas do autor, o drama familiar terá destaque absoluto na nova trama da Globo (“Será a minha novela mais emotiva”, adianta o autor).

A novela é o primeiro grande trabalho da atriz após o nascimento de Maria Flor, de 2 anos. Conhecida pelos papéis que fez em quase 30 novelas e séries, Deborah diz que bateu na porta dos diretores para atuar no cinema como a prostituta Bruna Surfistinha, do filme homônimo, em 2011, e como a soropositiva Judite de “Boa sorte” (2014).

(Foto: Reprodução/Instagram)

Na entrevista Deborah não foge de nenhum assunto. Conta ter vivido relações abusivas (e superado após anos de análise), comenta as polêmicas em que se envolveu e faz um balanço da carreira. Além da novela, será vista a partir de 21 de junho no longa “Mulheres alteradas”, baseado na obra da cartunista argentina Maitena.

Como é fazer uma vilã?

A Karola é cheia de nuances, exagerada. Parece bobinha, mas engana os outros vilões, Laureta e Remy (Vladimir Brichta). Ela é má. Rouba um bebê e cria como se fosse dela. Tirar o filho de uma mãe é a pior maldade que alguém pode cometer. Após uma passagem de tempo, vira uma supermãe, terá um lado dramático com o filho. Faço cenas chorando de mentira e de verdade. Chega uma hora que nem sei mais se ela está fingindo ou não (risos).

Inspirou-se em alguém?

A postura de dondoca da Karola na segunda fase é da minha irmã, que é advogada. Já o lado dela com o filho copiei da minha sogra, essa coisa de mãe amorosa e dramática. Minha família vai se acabar de rir.

Depois de tantos anos o trabalho fica mais fácil?

Continuo insegura. Vou sempre achar que não sei fazer. Choro, sofro. Começo uma novela sempre tateando. Fiquei anos fazendo uma novela por ano, mas teve uma hora em que passei a fazer meio no automático. Fui atrás de papéis no cinema, que é um mercado preconceituoso com atores de TV. Lá, nunca sou a primeira opção. Busco pelos diretores na cara de pau. Saí do nada, fui protagonista de novela das oito na Globo, não iria conseguir fazer um filme? O diretor de “Bruna Surfistinha” (Marcus Baldini) não me queria, o filme já era comercial, na linha entre o sexy e o pornô. Eu consegui convencê-lo, e fazer aquele trabalho me deixou em estado de êxtase.

Qual seu melhor papel?

A Judite de “Boa sorte”, disparado. Quando soube que Carolina Jabor iria fazer o filme fiquei louca, e a convenci de fazer um teste comigo. Queria um papel em que pudesse ficar feia, desconstruir essa imagem de mulher bonita que criaram para mim. Perdi 11 quilos.

Você estava gravando “Verdades secretas” (2015), como Carolina (papel de Drica Moraes), quando descobriu a gravidez. Como reagiu?

Era um trabalho que adoraria ter feito, mas não rolou frustração. Não imaginava que pudesse engravidar. Ia congelar óvulos. Na minha festa de 35 anos achei que tinha errado as contas. Pensava: “Até arrumar alguém e engravidar...” De repente, grávida! Num susto. Estava no início da relação e conhecia pouco o Hugo (Moura, ator baiano).

O que mudou após o nascimento da sua filha?

Nunca escondi que o meu maior sonho era formar uma família. Lutei com todas as forças, sofri, me machuquei, errei, me expus. Agora entendi como é viver sem ser egoísta. Antes, vivia com o foco máximo em mim. Eu tinha uma necessidade grande de mostrar que era feliz.

Como é criar uma menina num mundo machista? Você se considera feminista?

Eu me considero superfeminista nas escolhas e atitudes. Fiz o que quis, sofri as consequências. Foram muitas. Cometi todos os erros, me arrependi.

Já sofreu assédio?

Não sofri assédio até as últimas consequências. Mas há sempre um certo “vamos ver se cola”. Isso incomoda. Você não pode brigar se é no local de trabalho, fica numa saia justa.

Acha que paga um preço por ser autêntica?

Muito, mas não me incomodo. Já tentei muito fazer a cool, a cult, vários tipos, mas não sou eu. Fica falso e é chato ter que ficar fazendo personagem. Eu já trabalho com isso.

Você declarou que traiu várias vezes e gerou polêmica. Foi uma reação machista?

Fui traída publicamente e nunca virei notícia por ser a corna. Mas a mulher traindo não pode. Não disse que é legal. Olha que triste, uma pessoa como eu, que não tinha força para me livrar de relacionamentos abusivos, que precisava se apaixonar por outra pessoa para terminar o relacionamento e se livrar do abusador. Ou seja, vivi muitos relacionamentos abusivos. E para ter outro alguém precisava trair. Dei essa declaração quase como um serviço social.

Por que não conseguia sair de uma relação ruim?

Eu me sentia acuada, com medo daqueles homens, com medo de apanhar, eles diziam que a minha vida iria acabar se me separasse. Você fica acuada até outra pessoa dizer: “Não é nada disso, vem comigo”. Olha que triste, tive uma vida inteira assim. E que bom que chegou ao fim, vi o quanto estava errada, trabalhei isso na terapia (ela faz análise há 12 anos).

Por que suas declarações costumam causar polêmica?

Me acusaram de ter dito que a mulher é obrigada a transar com o marido mesmo sem vontade, fui chamada de machista. O que falei é que sou preguiçosa para malhar, acordar cedo, levar minha filha ao colégio e até para fazer sexo às vezes. Meu conselho para mulheres casadas e preguiçosas como eu é “faça sexo com seu marido”. Depois que começa fica uma delícia. É só esse start. Tenho pressão baixa e fico prostrada na cama, isso me faz mal. Não só para fazer sexo. Ninguém é obrigada a nada, meu amor. Eu posso ficar lá deitada. Se não está com vontade, está com dor, não precisa fazer sexo. Eu só disse que a minha inércia é ruim para mim. Mas o que digo muitas vezes acaba sendo distorcido.