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Delegado considera entrar no 'BBB 19' para interrogatório sobre intolerância religiosa

Notificada, a TV Globo enviou os vídeos solicitados para serem analisados, no início da tarde de quinta-feira (14)

Agência O Globo

Depois de receber imagens com falas de participantes do "BBB 19", investigados preliminarmente por intolerância religiosa, o delegado da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) do Rio de Janeiro, Gilbert Stivanello, afirmou que considera entrar na casa para interrogatório.

Foto: Reprodução

— Após ver as imagens com cuidado, se eu tiver alguma dúvida se uma determinada fala foi proferida em tom de opinião ou deboche, posso solicitar o interrogatório. Uma coisa é falar que tem medo de determinada religião, que é uma opinião pessoal, outra é debochar — pondera o delegado.

Notificada, a TV Globo enviou os vídeos solicitados para serem analisados, no início da tarde de quinta-feira (14). À noite, durante o programa ao vivo, Tiago Leifert confirmou a informação.

— O programa ainda vai demorar a terminar, e a delegacia não pode ficar dois meses parada em função da programação. Se a emissora puder nos receber, ótimo. Do contrário, a pessoa tem que atender a justiça e isso poderia provocar a expulsão — antecipa Gilbert Stivanello, que não informou o nome do único investigado, apesar de Paula e Maycon serem os confiandos que mais falam criticamente sobre religiões de matriz africana.

A investigação preliminar na Decradi começou após Paula e Maycon a criticar religiões de matriz africana, que Rodrigo e Gabriela se identificam. Além do procedimento policial, o vereador e ex-secretário estadual de Direitos Humanos, Átila Alexandre Nunes (MDB), notificou a distrital reforçando a necessidade do inquérito para investigar o caso.

— Se a Decradi não tomar providências, vamos fazer uma representação direta ao Ministério Público — adianta o vereador, reconhecido militante pela tolerância religiosa.

O vereador faz uma ponderação e afirma que, assim como os participantes do "BBB 19", muitas pessoas não se dão conta da gravidade do que estão falando. Mas, de qualquer maneira, ressalta ele, é preciso esses atos tenham consequências legais.

— Pode ser um simples comentário, mas que perpetua o preconceito. É importante reforçar o papel institucional da Decradi, mas vamos acompanhar o caso. Se começar a denunciar, as pessoas vão praticar menos crimes como esse.

Para o professor de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pastor presbiteriano, Alexandre Marques, os comentários podem ser considerados discriminatórios.

— Qual o significado de Jesus numa fala dessas? Com certeza não é o Jesus bíblico. Não é necessário criar concorrência e muito menos criar demonizações para enaltecer Jesus — afirma o professor e religioso ao O GLOBO, que acrescenta: — São frases racistas. Se eles fossem brancos, de olho claro e adeptos do budismo, que também invoca antepassados, duvido que tivessem feito essa relação.

Rodrigo França, segundo parentes, é budista, mas foi criado em uma família iniciada no candomblé, e costuma explicar a religião de matriz africana a outros participantes. Para o babalaô Ivanir do Santos, esse tipo de episódio não pode ser deixado de lado.

— O fato de estarem participando de um reality show não os isenta de responder por falas racistas. Cabe ao Ministério Público abrir uma ação civil de forma imediata. Tem uma particularidade no Brasil de as pessoas acharem que racismo é brincadeira. Mas não é. É ofensa — critica ele, também em entrevista ao O GLOBO.

Para Sonia Maria Giscomini, professora de Sociologia do Instituto Universitário de Pesquisas do RJ, o preconceito com religiões de matriz africana é histórico:

— Isso se deve ao fato de serem religiões ligadas originalmente aos subordinados, aos pobres, aos destituídos de poder. Esse episódio do programa reflete algo que está fora dele. Procurada, a TV Globo ainda não se manifestou.