Nem Te Conto

Ex-secretário de Direitos Humanos reforça que Maycon e Paula devem ser investigados

O profissional pondera afirmando que, assim como os participantes do "BBB 19", muitas pessoas não se dão conta da gravidade do que estão falando

Agência O Globo
A máxima "tudo que disser pode ser usado contra você" cabe perfeitamente para os participantes do "BBB 19". Principalmente para os que não têm filtro sobre as declarações. Dois dos mais polêmicos confinados, Maycon Santos e Paula von Sperling estão no meio de um um furacão, apesar de não se darem conta, desde que começaram a criticar religiões de matriz africana, que Rodrigo e Gabriela se identificam. Por conta disso, o vereador e ex-secretário estadual de Direitos Humanos, Átila Alexandre Nunes (MDB), vai notificar hoje a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) reforçando a necessidade do inquérito para investigar o caso.
Foto: Reprodução
— Reforço a necessidade de investigação e, se a Decradi não tomar providências, vamos fazer uma representação direta ao Ministério Público — adianta o vereador, reconhecido militante pela tolerância religiosa.
O vereador pondera afirmando que, assim como os participantes do "BBB 19", muitas pessoas não se dão conta da gravidade do que estão falando. Mas, de qualquer maneira, ressalta ele, é preciso esses atos tenham consequências legais.
— Pode ser um simples comentário, mas que perpetua o preconceito. É importante reforçar o papel institucional da Decradi, mas vamos acompanhar o caso. São episódios como esses que dão exemplos de como deve ser tratado esse assunto. É preciso dar um basta nisso. Se começar a denunciar, as pessoas vão praticar menos crimes como esse.
À frente do caso, o delegado da Decradi, Gilbert Stivanello, afirma que, no decorrer da apuração do caso, vê que "muito do dizem sobre essa história, eu não vejo crime".
— Não podemos criminalizar opinião. Não gostar ou discordar não é crime. Estou vendo os vídeos para entender o contexto das conversas, a entonação das falas e a intenção de cada declaração. As pessoas estão num estado de alarmismo que, por qualquer fala, querem fazer disso uma criminalização. A sua argumentação não pode ofender, ter conotação de injúria ou racismo, mas as pessoas podem debater religião, por exemplo. Nem tudo é racismo, preconceito e intolerância. Por isso, estou fazendo uma triagem muito filtrada — ponderou ele.
A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância foi inaugurada em 13 de dezembro de 2018 e, até agora, cerca de 30 registros foram feitos.
— Esse número tem crescido muito rápido porque as pessoas estão se dando conta de que existe uma delegacia específica para registrar este tipo de delito — diz o delegado.
Para o professor de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pastor presbiteriano, Alexandre Marques, os comentários podem ser considerados discriminatórios.
— Qual o significado de Jesus numa fala dessas? Com certeza não é o Jesus bíblico. Não é necessário criar concorrência e muito menos criar demonizações para enaltecer Jesus — afirma o professor e religioso ao O GLOBO, que acrescenta: — São frases racistas. Se eles fossem brancos, de olho claro e adeptos do budismo, que também invoca antepassados, duvido que tivessem feito essa relação.
Rodrigo França, segundo parentes, é budista, mas foi criado em uma família iniciada no candomblé, e costuma explicar a religião de matriz africana a outros participantes. Para o babalaô Ivanir do Santos, esse tipo de episódio não pode ser deixado de lado.
— O fato de estarem participando de um reality show não os isenta de responder por falas racistas. Cabe ao Ministério Público abrir uma ação civil de forma imediata. Tem uma particularidade no Brasil de as pessoas acharem que racismo é brincadeira. Mas não é. É ofensa — critica ele, também em entrevista ao O GLOBO.
Para Sonia Maria Giscomini, professora de Sociologia do Instituto Universitário de Pesquisas do RJ, o preconceito com religiões de matriz africana é histórico:
— Isso se deve ao fato de serem religiões ligadas originalmente aos subordinados, aos pobres, aos destituídos de poder. Esse episódio do programa reflete algo que está fora dele.
A mãe de Maycon, Rozana Santos, defendeu o filho:
— Maycon não quis falar de religião, e sim que Rodrigo e Gabriela passam uma energia que ele não gosta. Ele não é preconceituoso, tanto é, que briga com quem é. Estão o colocando como um monstro. Maycon brinca muito, fala na inocência. Ele tem um coração bom. Ele vai pedir desculpas quando sair da casa.
O perfil oficial de Paula no Twitter se manifestou:
"Gostaríamos de nos desculpar, mais uma vez, pela demonstração de primitivismo da Paula lá dentro. Vocês podem ter certeza, que essa desculpa virá da mesma assim que ela sair! Nós administradores pedimos desculpas se ofendeu particularmente alguém. Quando ela estiver aqui fora teremos uma conversa séria com ela a respeito disso tudo. Não vamos passar a mão na cabeça, ela tem que aprender, sim, com os erros. Agradecemos de coração a todos que continuam conosco", escreveu o perfil.