Nem Te Conto

Fernanda Souza explica ano sabático: 'Não vi meu pai morrer'

Atriz revelou ter feito concessões e vivido perdas na vida pessoal, que pesaram na hora de tomar a decisão de dar um tempo

Agência O Globo
Fernanda Souza viu a hora de trabalhar chegar cedo: com 4 para 5 anos, já era garota-propaganda de produtos alimentícios e de brinquedos. Fotografar e atuar na frente das câmeras era mais uma brincadeira. E nada disso assustava a espoleta. A naturalidade com cenários e sets era tanta que nos estúdios das agências a criança prodígio chegava a se confundir, agitada:
— Meu pai falava: “Senta para decorar o texto!”. E eu gritava, animada, como se fosse um jogo: “Já decorei!” (a atriz bate palmas como uma menina esperando o próximo desafio). E saía correndo com mais 40 crianças que também estavam esperando para fazer o teste. Depois, entrava para gravar com a bochecha vermelha e cabelo para cima de tanto brincar — recorda, aos 34 anos.
Foto: Reprodução
Fernanda se diverte como nas primeiras vezes na hora de fazer o ensaio para jornal Extra: corre desengonçada para trocar de roupa, joga-se no chão para alguns cliques, gargalha ao constatar que uma pose não deu certo... No “valeindo!” — bordão de seu canal no YouTube —, ela se transforma.
— Na foto, eu posso “fazer a sensual”. Coloca um fotógrafo, uma câmera e uma luz boa e está tudo certo. Na vida, é diferente: não me levo a sério assim.
A entrega até disfarça o fato de estar ali para cumprir uma agenda de trabalho em pleno ano sabático — Fernanda recentemente anunciou que 2019 será de dedicação à vida pessoal. Mas, ainda assim, o telespectador poderá vê-la na TV no retorno do “Vai, Fernandinha”, que estreia sua quarta temporada amanhã. A atração, que concorre na categoria Programa no Prêmio Extra de TV, vai mostrar conversas descontraídas e emocionantes com os pais de Sandy e Junior, Xororó e Noely; Baby do Brasil; o marido, Thiaguinho; Belo e Gracyanne e mais 14 convidados. Tudo foi gravado em 2018.
— É importante quando o artista oferece mais do que o entretenimento. Belo contou sobre a depressão e a síndrome do pânico que sofreu de um jeito muito emocionante. Na época (no ano de 2014), ele faltou, por medo de avião, a um show que Thiago (marido de Fernanda) também faria. Eu sei o que é isso. Inclusive, indiquei a neurologista que me tratava com homeopatia — revela.
Anos atrás, Fernanda buscava ajuda médica para controlar alguns de seus medos. Na infância, contrariamente, a garotinha de traços delicados agarrava cheia de coragem os seus sonhos. Aos 12 anos, ao ser selecionada por unanimidade em meio a 1.700 crianças para interpretar a protagonista de “Chiquititas”, Mili, a menina se surpreendeu com o contrato que exigia sua mudança para Buenos Aires, na Argentina, e não hesitou em aceitar a ousada proposta:
— Tinha ido para o teste sem saber que, se passasse, teria que morar lá. Soube pela mãe de uma das meninas! Mas era a oportunidade da minha vida: ia fazer a protagonista de uma atração que tinha feito muito sucesso naquele país, e as chances de ser assim no Brasil eram altas. Meu lado profissional pela primeira vez pesou. “Não posso dispensar”, pensei.
Mili e as “Chiquititas” foram um estouro: viraram bonecas, salgadinhos de pacote, figurinhas... Mas Fernanda só vivenciava esta febre quando deixava o país vizinho, onde era anônima, e aterrissava aqui.
— Uma vez, minha mãe e eu fomos a um shopping em São Paulo comprar um maiô, e começou a entrar gente na loja. Foram entrando, entrando... Até que num momento a vendedora viu a loja lotada de gente, fechou as portas, se desesperou e falou para a minha mãe: “Você pode tirar sua filha daqui, por favor? Está entrando muita gente. Estou com medo!”. Saímos com um segurança, e eu olhava para minha mãe sem entender muito bem: “Como assim? O que aconteceu? Semana passada nada disso acontecia”...
O que ninguém esperava era que, após dois anos na pele de Mili, Fernanda fosse optar por deixá-la para trás e concorrer a outros papéis de novela, agora na Globo.
— Lembro que, ao saber dessa decisão, Silvio (Santos) chamou meu pai para propor que eu fizesse um programa de televisão no SBT — conta ela, que nem podia desconfiar que no futuro se revezaria entre as duas profissões.
Antes da menina órfã de “Chiquititas”, Fernanda já tinha feito participações como atriz no “Você decide” (1992) e na série “Retratos de mulher” (1993), ambos na Globo. Na TV Cultura, teve sua primeira experiência como apresentadora no programa “X-Tudo” (1992-1996). Foi também numa atração de TV que ela conheceu seu então futuro marido, Thiaguinho:
— Nos vimos pela primeira vez no “Sem censura”, da Leda Nagle. Na época, eu até lhe fiz uma pergunta e ele achou que eu tinha olhado diferente. “Não, filho! Sou geminiana, curiosa, apenas”, pensei, recentemente, depois de saber! A gente foi se ver de outro jeito nove anos depois, quando eu soube que sairia um trio elétrico do Exaltasamba em Salvador. Não podia perder o show! Eu sabia todas as letras. Naquele carnaval, ele me encarou no meio do show. No aeroporto de volta para cá, ainda sem termos ficado, ele voltava sozinho e se deparou com uma revista minha sensual. O que ele fez? Comprou. Bãaao! (risos). Nos dias seguintes, trocamos SMS. E nos apaixonamos, em dez dias, por mensagem.
Oito anos se passaram de lá para cá e, junto com eles, cresceu a expectativa dos fãs para que o casal aumente a família:
— Estou sem planos, sem prazo. E acho essa liberdade ótima. Antigamente, assim que as pessoas se casavam, era quase obrigação ter filho. Hoje, a mulher tem autonomia para escolher seu momento. Os companheiros e até as famílias dos casais estão numa onda de menos cobrança. Estou deixando a vida me levar. E não tirei o ano sabático para engravidar, hein, gente!
O momento livre, leve e solto é uma autopermissão para descansar. Sempre a postos desde a infância, o excesso de produtividade a fez repensar a rotina:
— Planejei essa pausa nos últimos dois anos. Queria encerrar o teatro com cinco anos da peça “Meu passado não me condena”, entregar quatro temporadas do “Vai, Fernandinha”, bater os dois milhões de inscritos no canal do YouTube... Consegui superar as metas e pensei: trabalhar desde muito nova exige uma responsabilidade emocional enorme. É natural que com 34 anos eu olhe para trás, respire e pense com calma no que quero fazer a partir de agora.
Pela profissão, Fernanda também revela ter feito concessões e vivido perdas na vida pessoal, que pesaram na hora de tomar a decisão de dar um tempo:
— Não vi o nascimento da minha sobrinha. Quando cheguei da peça, ela já tinha vindo ao mundo. Também não pude ver meu pai partir (em 2013) porque tinha que gravar e não consegui liberação. Tudo o que aconteceu foi também por uma escolha minha de cumprir o ofício. Não me puno. Só que hoje eu teria outro pensamento. A vida pessoal tem uma importância tão grande quanto a carreira. É bom pensar nisso e colocar um equilíbrio, seja qual for a profissão.
Com um currículo de quase 30 atrações de TV, 12 anos em cartaz no teatro e no posto de uma das personalidades brasileiras com os vídeos mais visualizados do Instagram, Fernanda sente as lágrimas caírem e a voz embargar ao constatar que a posição que ocupa no entretenimento brasileiro é privilegiada, sim:
— Se me dissessem 20 anos atrás que minha vida estaria assim, me surpreenderia. Estou feliz com minhas escolhas, indo para a terapia, cuidando da mente e com a consciência de que nada é meu. Toda glória é graças a Deus. Ele é que me dá o talento para conquistar. A gente vive tempos em que muitas pessoas não te enxergam, apenas te julgam. Vejo acontecer comigo e com zilhões de outros (Fernanda respira fundo). Aí, no fim, você bota a cabeça no travesseiro e tem uma certeza: alguém me conhece de verdade, sabe quem sou e me ama desse jeito. É isso que me faz manter o pé no chão e seguir em frente.