Nem Te Conto

Fiuk lembra conflitos com Fábio Jr.: "Não guardo rancor"

Ele faz questão de trazer a história à tona: por muito tempo, a figura paterna não foi um privilegiado suporte

Agência O Globo

Fiuk não tem riso fácil. Dependendo do assunto, o ator franze a testa e lança respostas pirracentas. Nesta entrevista — um papo de 50 minutos nos Estúdios Globo, onde grava a novela 'A Força do Querer' —, o paulistano de 26 anos balançou a cabeça em gesto negativo pelo menos seis vezes. "Nossa, você quer manchete!?", ironizou, no momento em que a conversa girava em torno de suas ex-madrastas. "Próxima pergunta", pediu, ao ser interpelado sobre traição, um dos temas levantados por Ruy, seu personagem na trama. Quando ouviu o nome de Isabella Scherer, atriz de 'Malhação' com quem supostamente vive um affair, ele encheu a boca com a frase clássica: "Não falo sobre vida pessoal". E repetiu: "Próxima!". Se a questão é vaidade, o discurso é embalado num deboche: “Ah, não saio de casa sem blush e chapinha”. Ao menos aí, deixou escapar um raro sorriso. A postura, a princípio arredia, reflete a trajetória de Filipe Galvão, como fora batizado, numa busca de autoafirmação. Hoje, não volta um passo atrás. É Fiuk. Com ou sem riso.


"Acho que agora me encontrei com força e para sempre", ressalta o filho de Fábio Jr. e Cristina Karthalian, que volta aos folhetins num papel de destaque, após seis anos sem participar de uma novela inteira (a última foi 'Aquele Beijo').

O principal fruto do hiato profissional talvez tenha sido o amadurecimento, ele sugere. Enquanto muitos perdem o sono com a tarefa de encarnar um personagem importante na trama das nove, Fiuk desmitifica a exposição na tela e aponta a leveza. Leveza até mesmo na forma com que lida com críticas negativas.

"Só se assusta quem quer", enuncia, com fôlego: "Estou dando a cara a tapa. Consequência sempre vai ser consequência. O jogo da novela é esse: um gosta, o outro não gosta. Não dá para agradar a todo mundo. O objetivo da vida nem é esse. O objetivo é ser feliz e fazer o que gosto. Atuar nada mais é do que viver a cena, e não há um jeito melhor ou pior para isso. Cada um vive de um jeito! A pessoa que me assiste tem a opção de ver ou julgar. Tenho minha certeza. O resto fica na mão de Deus".

Bem resolvido, o artista evita acompanhar, com precisão, as sequências em que aparece na tela. Para ele, nunca haverá erros a serem descobertos. A atitude reforça a busca — e a aprovação — da própria identidade: "A melhor coisa que fiz na minha vida foi aceitar o que sou. Nunca estarei 100% pronto. E esse é o barato da vida. É bonito não ser perfeito".

O caminho da autenticidade também faz seu elo com a música. Antes de fazer teste para a obra de Glória Perez, o ator-cantor se obrigou a viver uma fase sem muitos compromissos. O período sabático de três anos — “uma viagem astral”, como classifica, pincelada por participações em dois filmes e uma série — aconteceu após um desentendimento com o empresário musical (“A gravadora queria me impor o estilo do momento”, explica) e conflitos com a família (“Não vou dar nomes aos bois”, avisa).

"Aproveitei esse momento para me pegar no colo, sabe? Transformei lágrimas numa grande obra. Para além de ser bom ou ruim, prefiro perder pela verdade do que ganhar pela mentira", afirma ele, que cancelou contratos e escreveu, sem interferências mercadológicas, composições para dois CDs, que serão lançados após o trabalho na TV.

O pai incentivou cada escolha. Nem sempre foi assim, porém. Nesse ponto, Fiuk não desconversa. Resolvidas as controvérsias no lar, ele faz questão de trazer a história à tona: por muito tempo, a figura paterna não foi um privilegiado suporte. Ao contrário. A relação saudável entre Fiuk e Fábio Jr., hoje com 63 anos, começou a se desenhar apenas no fim de 2009, quando o jovem entoou a emblemática canção 'Pai' numa homenagem surpresa durante o 'Domingão do Faustão'. Na intimidade, os dois protagonizavam discussões homéricas. De um lado, o filho reclamava da ausência de Fábio. Do outro, o pai cobrava mais dedicação do rapaz ao trabalho, criticando o jeitão informal de ser.

Um dos episódios de bate-boca se cristalizou na memória. Numa reação a uma das revoltas de Fiuk, Fábio Jr. vociferou: "Moleque, olha aqui a casa onde você mora e tudo o que você tem. Eu não tinha nada quando comecei". A resposta do garoto não foi provocativa.

"Lembro que eu disse: 'Pode deixar que eu me viro'. E saí. Foi assim que meu pai me ensinou, sem me ajudar. E dane-se! Não guardo rancor. Foi duro na época, mas hoje em dia é gratificante ver que a intenção era ótima", justifica.

Os enfrentamentos se estendiam também às divergências no comportamento. Aos 11 anos, na primeira vez em que se apresentou nos palcos, com uma banda de punk rock, ouviu censuras rasgadas do pai. O cabelo bagunçado (e pintado) e a roupa colorida eram os principais alvos da crítica.

"Na hora em que me olhou, ele falou: “Deus me livre, o que é isso?”. Para ser supostamente legal, teria que ter o cabelinho para trás, usar terno e cantar música romântica. Mas eu fazia tudo diferente do que ele queria. Imagina alguém que canta “Alma gêmea” vendo o filho numa guitarrada, fazendo o maior barulho?", rememora, numa volta ao assunto inicial deste texto: "Pensava: “Será que sigo minha intuição e dane-se o mundo ou será que corro atrás da admiração do meu pai e me esqueço?”. Foi um dilema. Preferi ser feliz a estar pela metade, a troco de um gosto".

Hoje, para o espanto paterno, o visual do rapaz é constantemente enaltecido. Entre os colegas de “A força do querer”, assim que surge nos sets com os fios desgrenhados e uma camiseta despojada, recebe elogios. Ele estranha.

"Passo a toalha e pronto. É mágico! Alguns atores já me perguntaram se eu acordo com um stylist. Acho engraçado. Sou fiel a minhas poucas roupas até elas rasgarem", pondera.

A entrevista flui sem sobressaltos, e uma piada pula dos lábios quando o assunto são os sete casamentos do pai: “Peraí, deixa eu contar”, brinca. Gracinhas à parte, Fiuk até compreende o número alto de matrimônios e separações. Essa parte jamais entrou em polêmica.

"Não acredito que a gente tenha só um amor. Tá! (pausa). Lá no fundo, existe, sim, alguém especial e tal... Todo ser humano deseja encontrar uma pessoa bacana, né? Se falarem que não, é mentira. No meu caso, não sei se eu casaria na igreja. Mas talvez numa praia paradisíaca".

Sobre namoradas, ficantes e afins, as colocações são vagas. Ou não. Ao fim deste papo, após a sessão de fotos, Fiuk abre o verbo, por descuido. Há sempre algo a mais a ser dito, afinal. Com sorriso.

"Não é nada pessoal o modo como falo", justifica-se com o repórter: "Mas é o momento de me impor. Não quero colocar meus relacionamentos como se fossem minha carreira. Um dia estou com uma, outro dia estou com outra, e isso não tem que ser falado. Com todo respeito, né? Não sei se um dia vou casar e ficar só com uma... Enfim, é isso. Desculpe qualquer resposta que dei".

Fiuk profissionaliza novo esporte no Brasil
Colecionador de miniaturas de carros desde criança, Fiuk é responsável por criar uma federação de um novíssimo esporte sobre rodas no Brasil, batizado de drift. A mais recente paixão do ator foi descoberta por ele em 2006, ao assistir ao filme “Velozes e furiosos: desafio em Tóquio”. Técnica japonesa de direção de veículos que consiste em derrapar nas curvas, a modalidade se popularizou com a profusão de jogos eletrônicos relacionados ao tema. Por aqui, Fiuk negocia um evento em setembro: a ideia é transformar o Sambódromo num circuito de corrida radical. Enquanto isso não sai do papel, ele dirige por autódromos e cartódromos. “É adrenalina pura. Tive que gravar um vídeo de regata, com meu braço tatuado sobre o volante”, brinca.