Nem Te Conto

Flávia Alessandra comemora 30 anos de carreira e fala sobre casamento

Atriz está no ar como Rita de Cássia, na novela "O Sétimo Guardião"

Agência O Globo

Janeiro de 2019 no Rio. A temperatura passa dos 40º em Vargem Grande, onde se situa o Haras Pégasus, locação escolhida para o ensaio de Flávia Alessandra. Ao longo de quase seis horas de foto, a atriz mantém o sorriso largo no rosto. O sol inclemente não dá trégua. Nem o bom humor de Flávia, que, entre um clique e outro, fala com as filhas ao telefone, administra a casa e programa o longo dia que ainda tem pela frente, incluindo aí uma gravação noturna.

Foto: Reprodução | Instagram

Essa atitude positiva e determinada diante da vida é uma marca da nossa estrela da capa, nascida em Arraial do Cabo (RJ). Aos 44 anos e completando três décadas de carreira, a mãe de Giulia, de 18 anos, fruto de seu relacionamento com o diretor Marcos Paulo (1951-2012), e de Olívia, de 8, do casamento com o apresentador Otaviano Costa, brilha na pele de Rita de Cássia, a dona de casa fogosa da novela “O sétimo guardião”.

Na trama, ela vive um casamento apimentado por um hábito pouco usual do marido, o delegado da fictícia cidade de Serro Azul, Joubert Machado (Milhem Cortaz). Ele gosta de usar lingerie, ela aceita o fetiche do parceiro, e as calcinhas rendadas passam a fazer parte do jogo erótico do casal. Rita, por sua vez, precisa vencer a resistência do companheiro a que ela saia do anonimato e realize seu desejo: tornar-se atriz.

— O que os une é a cumplicidade. O fundamental numa relação é não ter segredos, poder dividir com o outro os desejos mais estranhos e ser apoiada. Cada um é um. A mensagem que eles passam é a importância de aceitar o ser amado, essa é a base de um relacionamento — analisa Flávia.

Se Rita entende com relativa facilidade a fantasia do marido, o mesmo não aconteceu com o delegado, que expôs seu machismo ao deparar com o sonho da mulher. Ciente da responsabilidade em tocar em questões como essa na TV, Flávia lembra que estamos vivendo uma epidemia de violência contra as mulheres.

— Sempre existiu essa quantidade de feminicídios, mas agora há um número maior de mecanismos para denunciá-los. Estamos tendo mais voz. E as novelas são uma das ferramentas que retratam isso. O movimento do personagem do Milhem revela a reação instantânea de grande parte dos homens brasileiros. Ele é reativo, diz “mulher minha não”, mas depois se convence e cede. Vale ressaltar que o Milhem fez um caminho muito lindo, o texto veio muito “machão”, mas ele o abrandou, colocou sofrimento. Nunca convivi com esse tipo de comportamento masculino. Os homens da minha família assumem casa e filhas, lavam, cozinham e fazem supermercado.

Milhem retribui o carinho da parceira de cena.

— Nosso encontro não poderia ter sido melhor. A Flávia é companheira, cúmplice, generosa e amiga. Muito do sucesso do casal vem da potência que ela tem ao fazer TV. Flávia nasceu para ser estrela.

Se na novela Rita e Machado vivem um para o outro numa cidade perdida no tempo na vida na vida real Flávia Alessandra é craque em equilibrar o casamento com Otaviano Costa com a atribulada rotina profissional dos dois. Segundo a atriz, o casal, junto desde 2006, também já colocou em prática diversas fantasias.

— Todo casal as tem, eróticas ou não. Realizei algumas, como casar fora do Brasil. Eu e Otaviano celebramos nosso casamento em Las Vegas, em 2017, e na Tailândia, em 2018. Em Vegas, foi uma farra e teve a participação das meninas. Como tenho relação forte com o mar, sempre quis me casar na praia. No momento em que a gente estava indo se casar na Tailândia, ao lado das minhas filhas e dos meus pais, deu uma chuviscada e, em seguida, abriu um arco-íris. Pensei: “se isso não é Deus nos abençoando...”

Para manter a chama acesa, ela diz seguir alguns rituais.

— É preciso tomar cuidado e preservar um tempo para a gente namorar e não ficar só de pai e mãe. Nós buscamos isso, mesmo que seja em casa. Mais de uma vez por semana, a gente faz questão de abrir um vinho, come um queijinho, assiste a um filme ou a uma série no quarto, coloca o papo em dia e se curte.

Mãe de duas meninas, ela destaca que a situação da mulher, em alguns quesitos, não evoluiu muito.

— Na década de 1990, pegava a linha 2 do metrô para estudar Direito à noite na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Naquele período, eu tinha um pensamento: jamais usar saia e top. A Giulia é um mulherão e também não vai de short quando pega o metrô. Esse pensamento é antigo, já que a culpa nunca é da mulher, mas segue sendo uma forma de proteção. Não sei se o mesmo vai acontecer quando a Olívia entrar na adolescência. Acredito que essa realidade um dia mude, mas não até lá.

O tempo pode parecer preguiçoso para abrir mentes e desconstruir preconceitos, mas a vida da atriz a vida da atriz é trem-bala.

— Na época dos meus pais, quem chegava aos 40 anos era considerado velho; hoje a expectativa de vida aumentou. O que bate é a rapidez com que o tempo passa. Como diz o meu sogro, “entrei no cinema para assistir a um filme e quando saí já estava com 40 anos” — pondera a atriz, que chama a atenção pela ótima forma e vitalidade. — Pratiquei esporte e mantive uma alimentação balanceada ao longo da vida. Atualmente, tenho um personal e me exercito duas vezes por semana. Procuro sair da rotina, gosto de fazer trilha, cross fit , treino na praia. Também pratico pilates e ioga. Durante a semana, só como grelhados, saladas e legumes. A partir de sexta na hora do almoço, eu me solto. Adoro comida pesada, feijoada, dobradinha, carne-seca com aipim, friturinha e cervejinha. Também amo doce e não posso ver uma lata de leite condensado aberta.

Ela também se relaciona com tranquilidade com o vasto cardápio de procedimentos estéticos existentes no mercado.

— A primeira vez que fiz botox, há cerca de seis anos, foi no pescoço por causa de uma hérnia cervical, para diminuir as dores. De lá para cá, coloquei toxina botulínica em alguns pontos do rosto. Nunca fiz cirurgia plástica, mas como boa geminiana, posso resolver operar. Não quero ditar padrões, cada pessoa deve descobrir como se sente bem.

Flávia, que estreou na TV na novela “Top model”, em 1989, depois de ter participado do concurso “Melhor de três” do “Domingão do Faustão”, diz sentir-se feliz com a trajetória percorrida, mas quer muito mais.

— Consegui transitar por mundos diferentes de que eu tanto gosto. O bacana é ser de tudo um pouco, mocinha e vilã, fazer drama e comédia. Acho bom quando a personagem exige um caminho diferente do meu. Tenho vontade de fazer uma vilã mais pesada. Com a Cristina, de “Alma gêmea”, existia uma limitação por causa do horário das seis. Quero poder me deliciar com uma vilã das nove ou das onze, fazer absurdos e até matar — diz a atriz, que mantém ótima relação com seus pares amorosos da TV, como Du Moscovis, Rodrigo Lombardi, Malvino Salvador e Mateus Solano. — São grandes amigos. O Otaviano acaba os conhecendo e vira tudo uma grande amizade. Também tenho um vínculo muito especial com os atores que me pegaram no colo quando estava começando na TV, como a Ana Lúcia Torre e o Ary Fontoura. A Renata Sorrah é uma pessoa que tenho na vida, e a Mariana ( filha de Renata com Marcos Paulo ) vai ser sempre a minha filhota.

Inquieta, ela também vem explorando outras facetas de sua personalidade. Em 2015, tornou-se embaixadora da Brazil Foundation, exercendo sua verve filantropa.

— Hoje existem quase 200 projetos sob o guarda-chuva da Brazil Foundation. Iniciamos recentemente uma campanha chamada “Abrace Minas”, para Brumadinho. Foi aberto

um edital, e serão eleitos seis projetos de relevância para ajudar a reestruturar a região.

Como empreendedora, ela também vai muito bem, obrigada. No fim do ano passado, associou-se ao cabeleireiro Marcos Proença para abrir um salão de beleza eco-friendly em São Paulo; ao lado da família, administra duas pousadas e um hostel em Arraial do Cabo. A cidade em que nasceu, por sinal, é responsável pela grande conexão que ela tem com o oceano, para onde retorna quando precisa se reenergizar. 

— Meu avô era do mar, meu pai também é. Cresci numa casa em formato de navio construída por ele. Quando estou mexida, é lá que encontro a paz e o equilíbrio.