Nem Te Conto

Gleici descarta carreira na política e diz que não pôde salvar o pai das drogas

"O que eu estou vivendo parece mesmo um conto de fadas", diz a vencedora do BBB18

Michael Sá, da Agência O Globo

Era uma vez uma menina pobre da periferia de Rio Branco, no Acre, determinada a mudar sua realidade e o seu destino. Filha de uma empregada doméstica, viu os pais se separando quando tinha 7 anos, passou fome, começou a trabalhar aos 8 vendendo doces na rua, teve pai - viciado em bebidas e drogas - assassinado pelo tráfico dentro de casa e a mãe enfrentando um câncer. O grande sonho dela era só entrar na faculdade, ser alguém na vida e dar uma condição melhor para a família. Ela acreditou, e hoje tem R$ 1,5 milhão na conta, um carro, fama e milhares de fãs.

(Foto: Bárbara Lopes)
A descrição acima seria apenas a de mais um conto de fadas se não tivesse acontecido de verdade na vida da estudante de Psicologia Gleici Damasceno, de 23 anos e vencedora do “BBB 18”. Com direito a uma história de amor no final.

'Eu e o Wagner ficaríamos juntos mesmo se eu não tivesse ganhado R$ 1,5 milhão'

“O que eu estou vivendo parece mesmo um conto de fadas”, diz a vencedora, ainda processando as conquistas. Que não foram poucas. Entre elas, o seu primeiro namorado, Wagner, com quem iniciou um romance no confinamento.

“A gente ficaria junto mesmo se eu não tivesse ganhado R$ 1,5 milhão”, afirma ela, assumidamente apaixonada. O romance será determinante nas próximas decisões que a sister precisará tomar, como escolher onde morar, por exemplo, já que o artista visual é de Curitiba. O casal não descarta a possibilidade de se mudar para Rio. Mas, antes, Gleici precisa definir seu rumo no Acre.

“Vou fazer uma casa confortável para as minhas duas avós, uma para o meu avô, e outra para minha mãe, e talvez alugar uma outra casa lá mesmo para morar com a minha família, com um quarto só pra mim, que sempre foi o meu sonho", planeja.

"Também quero investir na educação da minha sobrinha (de 3 anos). Não quero que as coisas sejam difíceis para ela como foram para nós”, diz, relembrando o sacrifício diário que era caminhar 1h30 até a escola, debaixo de um sol forte e muitas vezes sem comer. “Chegava a ter alucinações na sala de aula de fome. Às vezes, o pouco que tinha em casa, eu preferia deixar para os meus irmãos (Agleuson, de 24 anos, e Gleiciely, de 19)”.

'Queria ter ajudado o meu pai'

Gleici passou a infância e a adolescência trabalhando. Foi babá, atendente numa financeira e teve dois cargos comissionados no Governo do estado. O último, ganhando líquidos R$ 1,3 mil, que iam todos para as despesas de casa. Foi num dos primeiros trabalhos que a campeã recebeu um dos maiores conselhos da sua vida: “A avó de um bebê que eu cuidava me disse: 'Você quer mudar de vida? Então estude'. Eu gravei isso. Sempre me senti segura na escola, era onde eu não pensava nos problemas na minha casa”, conta.

O maior deles, com o pai. Gleici chora ao lembrar. "Quando ele se separou da minha mãe, começou a entrar numa vida totalmente errada de álcool e drogas. Ele foi assassinado dentro de casa na frente da esposa e da filha por uma adolescente de 16 anos. Era uma pessoa que eu gostaria de ajudar, mas não está mais aqui", lamenta, emocionada.

'Ser candidata é muita responsabilidade'

O drama familiar fez Gleici ter ainda mais força para lutar por uma realidade melhor para ela e para as pessoas ao seu redor. A acriana perde a contas de quantas vezes tirou o pouco de comida que tinha em casa para ajudar os outros. Agora, quer usar a fama que ganhou para seguir sua militância.

"Acredito que é possível a gente fazer a nossa parte e acreditar que um dia vai conseguir mudar. Sei que é uma utopia, mas eu prefiro ser assim e ter isso para viver", diz, descartando, por enquanto, uma carreira na política. "Ser candidata é uma responsabilidade muito grande, primeiro eu tenho que me formar".

Como a maioria dos ex-BBBs, ela cogita uma carreira artística, mas quer mesmo aproveitar os holofotes para seguir inspirando vidas.

"Vim de uma realidade que não é diferente de muitos no Brasil, por isso é legal as pessoas me enxergarem. Tenho orgulho da minha história e por eu conseguir mudar a minha realidade. Antes do 'BBB', eu já tinha conseguido entrar na faculdade, e isso já era o meu maior orgulho. Tive uma trajetória tão ruim, mas consegui vencer. Nunca me acomodei. E tenho certeza que eu mudaria a minha realidade mesmo se não tivesse entrado no 'BBB'".