Nem Te Conto

Grazi abre a intimidade e revela: 'tenho uma família inteira para sustentar'

Atriz falou sobre carreira, fama e vaidade e contou curiosidades de sua vida pessoal

Eduardo Vanini, da Agência O Globo
- Atualizada em

Numa tarde solar em Santa Teresa, a equipe de fotografia se debruçava sobre a tela do computador para conferir os cliques de Grazi Massafera e decidir qual seria a próxima locação. A atriz, então, foi se afastando lentamente. Sem que o grupo percebesse, ela se posicionou diante de uma porta entreaberta, deixando apenas alguns feixes de luz do sol iluminarem seu rosto. E posou.

— A foto é aqui, gente. Não acham? — sugeriu, em atitude de quem ganhou segurança profissional. O resultando está na imagem que abre a fotogaleria abaixo.


Desde que foi alçada à carreira artística, Grazi já experimentou os louros e as dores do ofício. Mesmo querida pelo público, enfrentou muitas críticas em seus primeiros papéis e chegou a pensar em desistir. Estudou, foi indicada a vários prêmios e atualmente é destaque no horário nobre com sua personagem em “O outro lado do paraíso”.

— Fotografar foi uma das primeiras coisas que gostei de fazer. Com os anos, você vai se aprimorando, entendendo um pouco mais o seu próprio ângulo — comenta. — Isso está dentro de um universo muito legal. Às vezes, fico procurando fotos de artistas pelo Instagram. Foto e arte me inspiram muito para cada personagem.

Foi assim quando precisou compor Larissa, a modelo viciada em drogas de “Verdades secretas”. Na ocasião, ela assistiu a uma série de filmes, como “Seven”, de David Fincher. No meio do processo, descobriu que o longa trazia uma inspiração nas obras do artista irlandês Francis Bacon e mergulhou também no trabalho do pintor.

Atriz viveu Larissa, em 'Verdades Secretas'

Os filmes, diga-se de passagem, são uma paixão. A sala de TV de Grazi é munida de uma robusta coleção de DVDs, em que os títulos de terror “bem feitos”, como frisa a atriz, têm lugar cativo. É o caso de “O sexto sentido” e “O iluminado”, que ela já assistiu várias vezes. E daí surge o paradoxo: são obras que trazem algo de desconstrução do belo que a atriz, cuja beleza é exaltada por meio mundo, tem levado para os sets.

— Quando vou fazer uma cena com choro, gosto de que o rímel borre. Se os maquiadores vêm limpar, não deixo — conta. Mas isso não significa que a admiração pela beleza clássica tenha ficado de lado. Nesse caso, as referências vão de revistas de moda aos filmes do cineasta chinês Wong Kar Wai: — É lindo como ele retrata as mulheres de uma maneira exuberante, elevando-as a um outro patamar de estética.

Toda essa bagagem está por trás do sucesso da atriz, cuja grande virada na carreira veio em 2015, com Larissa. A personagem surgiu após ela viver uma imersão de dez dias em Madri com Juan Carlos Corazza, o mesmo coach do casal de atores Javier Bardem e Penélope Cruz. A experiência fez com que Grazi regressasse ao Rio completamente apaixonada por atuar. Deu no que deu: o trabalho rendeu a ela sete premiações e outras duas indicações, incluindo uma para o Emmy Internacional.

Todas essas honrarias, entretanto, não estão expostas de maneira ostensiva na casa da atriz. Foi só quando recebeu a visita de uma especialista em Feng Shui que ela reparou que estava deixando os troféus no chão, num canto. Um comportamento que acabou se mostrando, segundo ela, revelador. — Era como se os deixasse escondidos. Levei isso até para a análise. É claro que não desvalorizo esses prêmios. Mas entendi que o mais importante é que tudo isso esteja guardado dentro de mim na forma de memórias lindas.

Os prêmios acabaram ganhando uma prateleira discreta, na sala de TV aonde praticamente só a atriz vai. Afinal, exibicionismo não é a sua praia: — Na minha casa quase não há fotos minhas. Acho estranhíssimo quando você entra na sala de uma pessoa e tem aqueles retratos enormes.

Antes de partir para os sets de gravação, Grazi gosta de se debruçar sobre o lado humano dos papéis. Ela monta playlists especiais, cria memórias afetivas em cima das sinopses e escreve sobre isso, para que eles soem ainda mais verdadeiros. A julgar pela recepção do público, parece estar no caminho certo.

Grazi e Carrasco
— Por mais que minhas personagens tenham alguns desvios, as pessoas me param na rua e dizem que estão torcendo por elas — conta. Autor de “Verdades secretas” e “O outro lado do paraíso”, Walcyr Carrasco reconhece e valoriza o empenho da atriz, considerada por ele “uma das melhores de sua geração”. — Em “Verdades secretas”, ela teve uma atuação brilhante e agora novamente brilha como Lívia, insegura, má e boa ao mesmo tempo — diz ele.

Feliz com o desempenho do folhetim, Grazi destaca o prazer de viver grandes parcerias nos bastidores. Marieta Severo, com quem também já havia trabalhado na trama de 2015, é um dos pontos altos.

— Sou muito alimentada por ela. Nem sei como vou viver sem essa companhia tão especial e engraçada. Às vezes, temos crises de riso no meio das gravações. Aprendo muito com ela dentro e fora do set — desmancha-se Grazi. A admiração é prontamente correspondida pela parceira de cena que, desta vez, interpreta a sua inescrupulosa mãe. — Além do prazer que tenho em encontrá-la todo dia no estúdio, adoro contracenar com ela, pelo seu talento, inteligência cênica e maturidade como atriz — elogia Marieta.

A personagem vivida por Grazi toca em assuntos caros à pauta feminina contemporânea, como o caso de um aborto clandestino feito por Lívia no passado, história que fez a atriz refletir um pouco mais sobre o tema. — Não sou contra nem a favor do aborto, mas sou a favor da liberdade sobre o corpo da mulher.

No começo da trama, a personagem também vivia os conflitos de preencher seus vazios existenciais por meio do sexo com vários parceiros. Mais um desafio enfrentado pela atriz, em função da sua própria criação. Grazi lembra que, quando era mais nova, não se falava sobre sexo em casa. Por causa disso, se sentia “um pouco castrada” quando precisava tocar no assunto.

Com Sofia, sua filha de 5 anos, ela quer fazer diferente. Quando reflete sobre a educação da menina, uma de suas preocupações é saber quando e como conversar sobre o assunto com ela. — Não quero que o sexo seja banalizado, mas também não espero que seja um tabu entre nós — vislumbra, comentando que também quer mostrar uma outra visão sobre o que é ser mulher para a garota. — Tive uma criação muito machista. Só eu podia fazer as tarefas domésticas, e meu irmão não lavava louça nem varria casa. Meu pai não deixava minha mãe trabalhar. Mas, quando ele saiu de casa, vi a transformação da minha mãe. Ela virou praticamente uma feminista ao ir à luta.

Grazi e a filha Sofia, fruto do casamento com Cauã Reymond

Grazi diz entender hoje que, naquele momento, aprendeu com a mãe sobre a importância de batalhar pelos seus sonhos. Valores que pretende levar a Sofia e quem mais estiver por vir, na mesma proporção. — Se eu tiver um menino, os dois serão tratados da mesma forma em casa, dividindo as tarefas e obrigações — planeja.

Os momentos para conversar com Sofia sobre essas questões, aliás, devem ficar mais frequentes com o fim da novela. Depois de emendar uma sequência de três produções nos últimos anos, a atriz planeja tirar um período de folga de, pelo menos, um ano. Se tudo der certo, retorna à atuação com um trabalho no cinema, cujos detalhes ainda não pode revelar. Neste meio tempo, só não vai abrir mão dos mais de dez contratos publicitários: — Tenho uma família inteira para sustentar. Hoje sou a tia que paga faculdade dos sobrinhos e do meu irmão. Também pago colégio para uma turminha. E ainda estou fazendo um pé de meia para ter uma aposentadoria digna.