Nem Te Conto

Integrantes da equipe de Dilsinho são acusados de estupro em SC

O caso teria acontecido em Chapecó, SC, em 2019. Apesar da denúncia ter ocorrido no dia seguinte, os acusados nunca foram ouvidos.

Redação iBahia

Uma jovem de Santa Catarina acusa dois integrantes da equipe

do cantor Dilsinho de ter estuprado a ela e duas amigas após um show em

Chapecó, no oeste de Santa Catarina em 2019. As três assistiram a apresentação

do artista na grade de proteção do show e teriam sido convidadas ao camarim

para conhecer o cantor e a equipe. As informações e apuração são do portal ND Mais,

de Santa Catarina.

“Quando chegamos na porta do camarim, tinha um segurança

recolhendo todos os celulares. Deixamos tudo ali. Assim que chegamos já fomos

apresentadas ao Dilsinho, conhecemos todo mundo, veio o rapaz da banda e

ofereceu bebida e aceitamos. Estávamos conversando, dançando e eu estava

abraçada no Dilsinho, quando veio o André Bezerra e ofereceu mais bebida. Eu

aceitei e ele fez um gesto que iria pegar meu copo. Eu entreguei e, depois

disso, não lembro de mais nada”, relata. De acordo com ela, as memórias – a partir

deste momento – são apenas flashs.

Imagem: Reproduçaõ TV Record 

André Bezerra, citado, é iluminador da equipe e um dos

autores do estupro. O outro homem acusado é Paulo Xavier, músico de Dilsinho. Atenção:

os relatos abaixo são fortes.

“Quando eu acordo, o primeiro flash que eu lembro, eu estou

deitada na cama, bem onde termina a cama, e estava acontecendo sexo anal com o

André Bezerra. Eu acordo porque estou me afogando, sem conseguir respirar.

Acordo com o pênis do Junior Goulart na minha garganta. Aí eu começo a passar

muito mal. Empurro ele para o lado, viro para o lado da parede e vomito muito. Eu

lembro de deitar de novo e eles continuam. Passo mal de novo porque ele

continua com pênis na minha garganta, vomito mais, passo mal, deito e eles

continuam. Nesse momento, eu começo a gritar ‘para, por favor, por favor

para’”, lembrou a jovem em entrevista a uma rede de televisão no estado.

Ainda no camarim, onde uma das jovens já estava ficando com

um dos integrantes da banda, as três amigas teriam sido convidadas a ir em um

hotel no centro de Chapecó, onde teria acontecido o estupro.

“O que as meninas contaram é que eu estava atrás, sentada no

colo do André Bezerra, e a Giovana (nome fictício) no colo do

Daniel, que é produtor do Dilsinho. Elas contam que eu estava muito eufórica,

gritava, fazia gemidos e elas não sabiam se eu já estava transando com ele

dentro do táxi, mas isso não é do meu feitio. Eu nunca fiquei bêbada, nunca

usei nada. Eu nunca saía, aquela era a primeira vez que nós saíamos juntas,

então não era normal para mim”, relatou.

O que teria feito a jovem começar a lembras de algumas

situações da noite foram áudios enviados pela amiga citada dias depois do

ocorrido. “Tu dava risada, só que amiga, eu não pensei, juro por Deus que se eu

tivesse imaginado outra coisa… Para mim tu estava bêbada e gostando de ficar

com o cara”, disse a garota no áudio.

Ela não se recorda como chegou ao quarto ou saiu do hotel,

mas um ano após o fato, conseguiu ter acesso às imagens de monitoramento que a

mostram saindo do espaço aparentemente desnorteada. As imagens fazem parte de

um inquérito policial, instaurado a partir de boletim de ocorrência, registrado

no dia 4 de novembro de 2019 pela jovem.

As imagens mostram que todos chegaram ao hotel às 2h45.

Pouco mais de duas horas depois, às 4h57, a jovem aparece novamente, com uma

camiseta, uma garrafa de água na mão e caminhando na calçada, do lado de fora

do hotel. Logo em seguida, aparece Paulo Xavier tentando a impedir de seguir andando,

mas ela não o acompanha.

Alguns minutos em seguida, ela aparece novamente, agora com

as amigas e o outro homem. A garota apressada na frente, deixando o casal fica

atrás. É quando o homem tira uma camisa da mochila e a entrega para fazer a

troca. A vítima estava usando uma camisa da produção de Dilsinho. Uma amiga

comentou o fato:

“Tu tirou a camisa ali na frente do hotel, tirou a camiseta,

aquela hora eu pensei que tu estava muito louca. Viemos de boa, conversando,

quando chegou na porta do meu prédio, tu começou a chorar desesperada”, disse. Ela

teria ficado nua na frente do hotel. Após ir embora, a jovem contou para sua

família o ocorrido e se dirigiu do Hospital Regional do Oeste onde ingressou no

protocolo da Lei do Minuto Seguinte, que orienta o atendimento às vítimas de violência

Sexual.

Advogado questiona a investigação

O laudo produzido pelo Instituto Geral de Perícias, em Chapecó,

afirmou que não havia lesões ou vestígios de relação sexual criminosa, mas apresentou

a existência de esperma nas partes íntimas. Também foi realizado exame toxicológico,

que apontou 5,8 decigramas de álcool por litro de sangue, o que – de acordo com

o IGP, não seria suficiente para causar alterações psicoativas ou perda de

consciência. Entretanto, o exame também afirma que por ter sido realizado horas

depois dos fatos, a quantidade detectada pode ser bem inferior àquela de fato

ingerida. Além disso, o laudo apontou a existência de lidocaína, substância

utilizada como anestésico.

Por fim, o Instituto relatou que não tinha equipamento e

tecnologia para aferir o quantitativo de lidocaína que estava presente no

organismo da vítima. Em depoimento, o legista informou que não sabia quais

poderiam ser os efeitos quando a substância era associada ao álcool. Em relatório

complementar, a perícia acrescentou que lidocaína pode ser encontrada em gel

lubrificante ou preservativo e que, por provocar efeitos de excitação, pode deixar

a pessoa “desligada”.

O advogado do caso, Marco Aurélio Marcucci, questiona o

relatório, afirmando terem havido falhas na investigação e falta de

detalhamento da substância encontrada no organismo de Rebeca. “É uma prova que

teria que ser esmiuçada na investigação e não foi, assim como não foram

verificadas as câmeras do corredor (do hotel). Onde o Dilsinho estava? Onde os

indiciados estavam? Quem estava naquele quarto? E o gerente, cadê o gerente?

Tudo isso tem que ser verificado. No meu ponto de vista é uma investigação

completamente falha e falha intencionalmente”, disse em entrevista ao Grupo ND.

Laudo Pericial. Reprodução: Portal ND Mais

Inquérito encerrado sem ouvir os acusados

Após um ano, o inquérito foi encerrado no dia 23 de outubro

de 2020. O delegado Estevão Vieira Diniz Pinto indiciou os dois homens citados

por estupro de vulnerável e encaminhou o caso ao Ministério Público, que acabou

por encerrar o inquérito uma vez que a polícia não ouviu os acusados.

“O que eles alegam no processo é que a carta precatória

demoraria muito, então eles resolveram fazer esse caminho, mas é um puxadinho

que está errado processualmente. Eles tinham que mandar uma precatória para a

delegacia do Rio de Janeiro, para que eles fossem até a residência dos

suspeitos intimá-los para comparecer no processo. Do jeito que está, ele vai

ficar sem comparecimento e o processo vai parar e até prescrever. Acho que essa

é a ideia desde o início”, pontuou o advogado das vitimas.

Em novembro, o MPSC ofereceu denúncia, que foi aceita pela

Justiça, e determinou que os dois acusados se manifestem em um período de 10

dias, para darem início ao processo. No entanto, segundo Marcucci, essa foi a

última movimentação do processo.

Agora, o advogado pede à Justiça a suspensão do processo,

apontando falhas na investigação e alegando que há muitos pontos que não foram

esclarecidos. Além disso, Marcucci pede a quebra do sigilo telefônico dos

policiais que fizeram o relatório e, ainda, a quebra dos sigilos fiscal,

bancário e telefônico dos indiciados e de Dilsinho. De acordo com o advogado, o

pedido é sustentado no tratamento dado pela polícia à jovem durante a

investigação, sempre como “suposta vítima”.

“Questionamos toda a investigação, pedimos a volta para a

delegacia para que tudo seja refeito desde o início. Há muitas diligências

importantes que não foram feitas. Do jeito que o inquérito e o processo estão,

é muito fácil os suspeitos se safarem dessa condenação porque existem dois

suspeitos, dois indiciados, mas no meu ponto de vista tem que ampliar a margem

de investigação. Nós pedimos a prisão dos indiciados e vamos aguardar a

manifestação do juiz lá de Chapecó”, detalha.

O que diz a Justiça

A reportagem do Grupo ND entrou em contato com o IGP,

delegacia de Chapecó, Ministério Público e com o juiz responsável pelo

processo.

O IGP afirmou que só poderia falar sobre laudos periciais

após solicitação de autoridades e que as informações sobre dosagem são

disponibilizadas de acordo com o pedido das autoridades ou setor de medicina

legal. Já o delegado informou que concluiu o inquérito, encaminhou ao

Ministério Público e, portanto, não iria se manifestar.

A promotoria e o juiz disseram não poder manifestar, uma vez

que o processo corre em segredo de Justiça. A assessoria jurídica do cantor

Dilsinho disse que o artista “não foi notificado por qualquer autoridade

pública e que ele não tem ciência dos fatos veiculados” e que os homens associados

ao caso teriam sido afastados de suas funções.