Nem Te Conto

Jesuita Barbosa comenta obsessão por rótulos sobre sexualidade

Ator vai aparecer travestido de ‘Shakira do Sertão’ na supersérie ‘Onde nascem os fortes’

Zean Bravo, da Agência O Globo
Jesuita Barbosa surge irreconhecível usando unhas postiças, maquiagem, peruca, muito brilho — e cantando de verdade uma versão com batidas eletrônicas de “O amor e o poder”, hit na voz de Rosana nos anos 1980 —, em sua primeira cena de “Onde nascem os fortes”, supersérie que estreia nesta segunda, dia 23, às 22h20m, na Globo.
O ator interpreta Ramirinho, personagem que promete surpreender: é o filho de um juiz (Fabio Assunção) e se traveste como Shakira do Sertão para se apresentar no Bodão Night Clube, na cidade fictícia de Sertão, onde se passa a história. Na supersérie, Ramirinho se apresenta na boate às escondidas, e será forçado a aceitar um futuro projetado pelo pai, que quer vê-lo empresário. Escrita por George Moura e Sergio Goldenberg, com direção artística de José Luiz Villamarim, a trama possibilitou ao ator reviver um universo que conhecia dos palcos, no começo de sua carreira.
Aos 26 anos, Jesuita chamou atenção no cinema antes da TV, no papel do soldado envolvido num tórrido relacionamento com o personagem de Irandhir Santos em “Tatuagem” (2013), filme de Hilton Lacerda. Nome requisitado, já atuou em nove longas e será visto em setembro em “O grande circo místico”, de Cacá Diegues. Estuda ainda a possibilidade de fazer a novela “Verão 90 graus”, que irá ao ar às 19h na Globo. Pernambucano de Salgueiro, o ator estreou na TV como o melhor amigo de Cauã Reymond na minissérie “Amores roubados” (2014), do mesmo autor e diretor de “Onde nascem os fortes”. A seguir, ele fala sobre a preparação para o novo personagem, sexualidade, entre outros assuntos.

Ramirinho se apresenta como Shakira numa boate. Como se preparou para o papel?
Vejo Shakira como uma ninfa ou uma deusa grega que está à margem naquele sertão. O personagem leva uma vida dupla por precisar se esconder do pai e da sociedade preconceituosa. E, por mais que saiba que pode ser descoberto, se apresenta como Shakira. Há uma força motriz que o leva para aquele lugar, uma necessidade de investigar sua “travestilidade”. Foi a forma que encontrou para entender sua identidade. Em casa não tem a mesma liberdade.
Você separa o Ramirinho da Shakira?
O personagem tem uma vontade artística. Mais importante do que separar os dois foi pensar num núcleo que os une. A gente nasce e já é encoberto de preceitos e preconceitos, que nos colocam rótulos de gênero, de quem é homem ou mulher. Hoje em dia a gente entende que gênero não tem a ver com o corpo físico. É uma questão de crescer com liberdade de consciência. Ramirinho tenta romper a barreira imposta pela família, uma informação heteronormativa.
Você teve contato com o universo de travestis?
Tenho acessado esse universo queer de forma interessante desde que participei de um grupo em Fortaleza (o coletivo As Travestidas). Tenho muitos amigos nesse grupo e vi uma desconstrução acontecendo na minha frente. O teatro me abriu esse lugar de liberdade. E a Shakira é, antes de tudo, uma artista.

Estamos avançando na discussão de gênero?
As pessoas colocam muito a discussão sexual antes de qualquer coisa e isso é limitador. Em geral, elas ficam presas nesse papo de se é gay, se não é gay... Essa coisa sistêmica do que é ou não é constrange. Vamos tentar quebrar um pouco isso agora com a Shakira.
Você mesmo costuma ser questionado sobre sua sexualidade em entrevistas. Como reage?
Já aconteceu muitas vezes. Há uma ditadura de enquadrar você em certos lugares. As pessoas que me perguntam isso têm a necessidade de rotular. É um lugar desconfortável e pouco inteligente. Elas precisam entender que são perguntas insuportáveis e burras, uma encheção de saco.
Como foi construir o visual da Shakira?
Foi demorado. O mais difícil foi fazer a desconstrução de gênero, ir contra a padronização estética e não cair mais para o lado masculino ou feminino. A intenção foi levar para um lugar mais andrógeno, que achamos mais interessante.
Você atua no clipe de “Flutua”, música interpretada por Johnny Hooker e Liniker. O vídeo denuncia a homofobia e violência. Shakira também pode ajudar a combater o preconceito?
Sim. Estamos num caminho difícil, politicamente falando. Mas Shakira é um ato, um corpo político, uma provocação que nasce com afeto.
Arrisca algum palpite sobre o que fez você se tornar um ator tão requisitado pelo cinema e pela televisão?
As pessoas falam muito sobre sorte, mas não é nada disso. A gente se esforça muito.