Nem Te Conto

'Não tem como chorar o dia inteiro e transar com o marido', diz Isis Valverde

Aos 32 anos, a atriz se tornou uma mãe dedicada e coruja e revela rotina em em entrevista

Joana Dale, Agência O Globo

Silêncio, Rael está dormindo. Isis Valverde fala baixinho, fica nervosa quando alguém derruba um talher no chão e quase entra em pânico ao ver abelhas rondando a porta do quarto de hotel onde se arruma para as fotos que ilustram estas páginas. Aos 5 meses, o bebê já acompanhou a mãe em alguns trabalhos, mas é a sua primeira vez em um ensaio fotográfico. Quando Rael enfim acorda da soneca no carrinho, a mãe de primeira viagem se apressa em avisar: “Ele precisa mamar, senão vai reclamar”, diz a atriz, que topa numa boa ser fotografada enquanto alimenta o filho. “Amamento em pé, sentada, deitada, de tudo quanto é jeito”.

Aos 32 anos, a atriz de Aiuruoca (cidade de seis mil habitantes no interior de Minas Gerais) se tornou uma mãe dedicada e coruja. “Rael é a minha cara com o corpinho do pai”, diz ela, que é casada com o modelo André Resende. Um mês após o nascimento do primeiro filho, Isis perdeu os 13 quilos que ganhou na gravidez e mais um. “Noites sem dormir me fazem emagrecer com muita facilidade”, justifica, como tentasse se defender da enxurrada de críticas que recebeu quando apareceu plena nas redes sociais. A seguir, Isis fala sobre a sua maternidade particular.

Nasce um neném (e uma mãe): “Do momento em que a minha bolsa estourou ao nascimento do Rael, foram nove horas. Preparei-me muito para o parto. E, mesmo assim, não foi fácil. Foi uma coisa muito de bicho: é preciso não brigar com a dor. A ficha só caiu no dia seguinte, quando cheguei em casa. Minha mãe tirou a roupinha dele, ele começou a chorar de frio e eu comecei a chorar de medo. E se você não tiver condições psicológicas de dar o banho na criança? E se você estiver se sentindo insegura? Tinha medo de ele se afogar na banheira, virar, cair, sei lá. Só consegui dar o primeiro banho no Rael depois que o umbigo dele caiu”.

Fragilidade no puerpério: “A mãe recém-nascida é frágil, insegura, precisa de carinho, de um abraço. Muitas vezes, a depressão pós-parto começa no momento em que só olham para o bebê e a mulher é esquecida em um canto. Nós passamos por essa situação e por esse sentimento. Me senti a mulher mais solitária do mundo no puerpério. Mas tive uma corrente de apoio formada pela minha mãe, pelo meu pai e pelo meu marido”.

Melancolia: “É normal ter baby blues, é hormonal. De repente, cadê aquela serotonina toda? O meu blues ( melancolia, tristeza, apatia ) veio quando o Rael fez dois meses e a minha mãe voltou para Minas. Chorei muito. Ela que dava banho, que fazia ele parar de chorar quando eu entrava em crise histérica. Por cerca de um mês, eu fiquei mais quietinha, mais murcha. Achava que isso não era normal, mas descobri que passar por esses momentos não só é normal, como importante. É nessas horas que você se despe da sua alma antiga e deixa uma nova entrar. E esse processo dói”.

Cobrança social: “Quando o Rael tinha 20 dias, me arrumei toda para ir tomar um açaí com o meu marido na esquina de casa, tirei uma foto no espelho e postei no Instagram. Nesse momento, diante dos comentários que recebi, comecei a perceber que  sociedade impõe uma maternidade de anulação. Se você se arruma e consegue voltar rápido ao corpo pré-gestação por propensão genética, vão dizer que não é uma boa mãe. Isso é muito sério. Imagina uma mulher com depressão pós-parto ouvir esse tipo de comentário? Imagina se essa mulher não tem uma rede de apoio? Ela pode até pensar em se matar. Falta empatia, falta respeito”.


Corpo em movimento: “Exercício para mim é uma questão de bem-estar. Fico chata se não me movimento. Preciso fazer trilha, subir numa prancha de stand-up, praticar ioga. Foi muito difícil ficar 40 dias sem algumas coisas a pedido da minha obstetra. Logo depois, minha médica liberou musculação levíssima. Cada exercício que voltava a fazer era comemorado como uma vitória. É libertador perceber que a sua vida antes do bebê continua ali, só agregou mais coisas”.

Ioga: “A ioga entrou na minha vida por motivos de ansiedade e depois ficou intensa por causa da sereia que eu fiz na novela: permanecia quatro minutos sem respirar embaixo d’água. Para conseguir fazer isso, é necessário um controle emocional muito grande. E hoje Rael adora me ver fazendo as posturas, pois pratiquei com ele na pança até os seis meses de gestação”.

Leoa: “Quando meu filho nasceu, comecei a revirar um baú de sensações, medos, vontades, sonhos. É como se antigos sentimentos pudessem ser retirados para dar espaço a novos. Cansei de ti-ti-ti, mi-mi-mi, ca-ca-ca. Aquela menina que deixava tudo para depois e não queria confusão ficou no passado. Nasceu uma guerreira. Agora, enfrento tudo”.

Amamentação: “Meu sonho era amamentar. E o Rael saiu da sala de parto no meu peito. Coisa mais linda. Nos primeiros dias, porém, tive uma rachadura no bico. Deu uma casquinha nos furículos, mas ela logo caiu. E foi só ( de dificuldade ). Rael mama muito bem, olha só o tamanho dele! Mama tanto que, depois dos três meses e meio, precisei introduzir fórmula. Na mamada das 20h e na das 23h, ele sugava meu peito, igual a um bezerro. Eu não tinha leite o suficiente. Fiquei péssima, principalmente porque no início eu não podia dar pessoalmente a mamadeira, pois eu podia atrapalhar a adaptação dele ao novo bico. Morri de medo de ele largar meu peito. Mas, ufa, ele não largou. Agora eu dou o peito e a mamadeira”.

Filho único: “Eu tinha vontade de ter mais um filho, mas hoje acho que o Rael será filho único, como eu. Quero ser uma mãe presente. Trabalho muito e não quero entregar o meu filho para babá criar, como amigas já fizeram e depois se arrependeram. Minha vida é meio nômade, cada hora estou em um lugar diferente. Se tiver que mudar de cidade, de estado ou de país, é mais fácil levar um”.

André, o pai surfista: “André me surpreendeu muito. Ele sempre foi aquele bicho independente, surfista que, de repente, trocou a prancha por uma criança. Ele é louco pelo Rael. E respeitou toda a minha bipolaridade nos primeiros meses, quando eu começava a chorar, berrava de fome, aliás, como amamentar me deixa faminta! O pai e os irmãos dele também ficaram surpresos com o paizão que ele se tornou. Tenho orgulho. Quando o outro evolui dentro da relação e entra nos ajustes, se torna uma pessoa melhor de forma geral”.

Libido: “Lógico que foi difícil no puerpério. Não tem como você chorar o dia inteiro e dar uma paradinha para transar com o marido. Você está triste. E o homem tem que entender. Mas é preciso cuidar do casamento. Na minha maternidade singular, acho saudável colocar energia na relação. É difícil para caramba cuidar da casa, do bebê e do marido. É um exercício para os dois. A conversa é o princípio e o final de tudo. Ela precisa existir no relacionamento. E eu tenho isso dentro da minha casa”.