Nem Te Conto

‘Profissionalmente é a única coisa que me arrependo’, diz Luciano sobre briga com Zezé

Reconhecida como uma das maiores duplas sertanejas do país, Zezé Di Camargo e Luciano completaram 30 anos de carreira em abril

Malu Vieira* (redacao@portalibahia.com.br)
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Quem nunca sofreu ao som de “É o Amor” que atire a primeira pedra. A música lançada em 1991 marcou a vida dos irmãos Zezé Di Camargo e Luciano, que se lançaram como dupla sertaneja exatamente com essa faixa. 30 anos depois, os goianos comemoram o sucesso da carreira com mais de 40 milhões de discos vendidos e fãs espalhados por todo Brasil. 

Capa do álbum "É o Amor", que laçou a dupla na carreira musical | Reprodução: Instagram

Não tem como negar que a dupla ajudou a consolidar o sertanejo no país e abriu porta para vários artistas que vieram depois. Em comemoração às três décadas nos palcos, o iBahia conversou com Luciano Camargo sobre carreira, polêmica de separação da dupla, loucuras de fãs e quarentena a lá Rodrigo Hilbert. Confira a entrevista: 

Em 1991, ao lançar o disco “É o Amor”, vocês já imaginavam que Zezé Di Camargo e Luciano seria esse sucesso? 

Luciano: Bom, para mim são dois olhares. Antes de começar a cantar eu falava para minha mãe que seria famoso. Claro, eu não tinha a dimensão do que era “ser famoso”, mas eu falava: “sabe mãe, um dia você vai ver as pessoas me pedindo autógrafo, vou dar entrevista”.  

Quando eu e Zezé terminamos de gravar o disco, ele falou para mim: “se Deus quiser, nós vamos vender 50 mil cópias desse disco, no segundo nós vamos vender 100 mil e vamos crescendo”. Eu olhei para ele e disse: “não, nós vamos vender 1 milhão de cópias”.  

Naquela época, quem fazia muito sucesso era Leandro e Leonardo e Chitãozinho e Xororó. Eu lembro de falar: “nós vamos vender um milhão de cópias e fazer sucesso que nem o Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo”. E foi exatamente isso que aconteceu, naquele ano nós vendemos um milhão de cópias de “É o Amor”.  

Eu não tinha dimensão disso tudo na época e jamais imaginaria que iríamos chegar aos 30 anos de carreira com uma história tão bonita. Só tenho a agradecer! 

A música “É o Amor” se tornou um hino do sertanejo. Mesmo após 30 anos, ela continua sendo sucesso e parece passar de geração para geração. Para você, o que torna a canção tão especial? 

Luciano: Zezé foi muito feliz ao fazer uma letra sobre esse sentimento universal que é o amor. A música não é uma declaração para uma única pessoa, todos podem falar “eu não vou negar que sou louco por você”. É uma linguagem direta para qualquer pessoa. 

“É o Amor” nasceu com a minha presença. Normalmente, o compositor gosta de escrever as canções sozinho, e o Zezé fazia muito isso. Mas no dia que ele escreveu essa música eu estava sentado ao seu lado. Deus quis que eu estivesse com ele para termos essa imagem do dia que a música nasceu.  

O filme “Dois Filhos de Francisco”, de 2005, mostra a campanha feita por seu pai para que a música “É o Amor” tocasse na rádio. Você acha que isso contribuiu para o sucesso da faixa? 

Luciano: O que é mostrado no filme de fato aconteceu. Meu pai envolveu todo mundo para que a música estourasse. Eu penso assim: será que apenas essa iniciativa de meu pai faria com que a música fosse sucesso? Acho que não.  

Zezé com o pai, Francisco, que faleceu em novembro de 2020 | Reprodução: Instagram

Eu acredito que “É o Amor” é uma composição que começou a ser escrita lá atrás, quando meus pais se casaram. Na época, ele disse: “vou ter dois filhos para fazer dupla sertaneja”. Meu pai não sonhou em ter apenas um filho cantando, ele queria uma dupla. Infelizmente, esse sono do meu pai foi interrompido quando meu irmão Zezé tinha 12 anos*. Era para esse sonho ter acabado ali, mas após 10 anos eu comecei a cantar e pude realizá-lo. Era para ser os dois filhos de Francisco cantando. 

*Antes de formar a dupla com Luciano, Zezé cantava com seu irmão Emival, com quem formava a dupla “Camargo e Camarguinho”. Em 1975, Emival faleceu em um acidente de carro e o sonho da dupla foi interrompido.  

Muita gente diz que trabalhar com família é complicado. Como é trabalhar com seu irmão mais velho? 

Luciano: Sempre foi muito tranquilo trabalhar com o Zezé. Eu comecei a cantar com 16 anos e meu irmão é 11 anos mais velho. Ele já cantava, já tinha uma bagagem, então no início eu entendi que ele era o líder. Graças a Deus, são 30 anos de carreira e sempre que tivemos ideias diferentes soubemos lidar, sempre tivemos muito respeito um pelo outro. 

Em 2011, surgiram rumores sobre uma possível separação da dupla. O que aconteceu? 

Luciano: Não, não foram rumores, de fato eu falei aquela besteira! Até hoje a minha cara queima de vergonha. O motivo para eu ter feito aquilo [falar que Zezé seguiria a carreira sozinho durante um show em Curitiba] foi que até aquele dia nós não tínhamos tido uma discussão. Naquele dia, a briga foi mais pelo irmão magoado do que pelo artista. Sabe aquela coisa de irmão? Foi exatamente isso.  

Eu não imaginava a dimensão que isso iria tomar e até hoje sinto muita vergonha. Profissionalmente, foi a única coisa de que me arrependo.  

Quais foram as maiores loucuras que um fã já fez por Zezé Di Camargo e Luciano? 

Luciano: Tiveram muitas atitudes malucas, tipo fã seguir o carro, se hospedar no mesmo hotel... Hoje não vejo tanto isso, porque a internet aproximou os fãs e os artistas.  

Mas me lembro de uma história bem maluca de uma fã que subiu na torre de apoio do telão do show. Ela começou a gritar e disse que iria se jogar, mas conseguimos conversar, ela desceu e nos encontramos no camarim.  

Tiveram outras que foram engraçadas. Lembro de uma menina que fingiu ser repórter e a gente sacou que aquilo estava estranho. Outra menina fingiu ser cadeirante para falar com a gente e quando aparecemos ela não aguentou e se levantou da cadeira, foi hilário.  

Você lançou um projeto Gospel em 2020 e ouvi dizer que ele foi feito a pedido de sua mãe, é verdade? 

Luciano: Tudo começou em 2000. Eu e minha irmã estávamos cantando um louvor na Fazenda e minha mãe chegou e cantou com a gente. Quando terminamos, minha mãe perguntou: “filho, você me dá um presente? Um dia você grava um CD de hinos para mim?”. Eu disse que sim na mesma hora e de fato Deus disse amém para este projeto naquela mesma hora. 

Passaram-se 20 anos e as vezes eu me perguntava o motivo de ainda não ter feito, mas depois que eu vi o trabalho eu entendi. Foi no tempo de Deus. Se eu tivesse feito antes, seria um filho cantor fazendo um trabalho, eu ainda não tinha essa fé que eu tenho hoje. Agora não, estou em um momento de espiritualidade muito forte na minha vida, então foi na hora certa. 

Durante a pandemia você tem passado mais tempo com a família, construiu uma horta e tem quem diga que está se tornando um Rodrigo Hilbert. O que mais mudou na sua rotina durante este período? 

Luciano: Desde que começou a pandemia, eu e minha mulher nos reorganizamos em casa. No início dispensamos os funcionários e começamos a dividir as tarefas de casa e eu me envolvi bastante. Agora, em 2021, minha esposa pediu uma horta e eu inventei de fazer uma horta com três canteiros grandes, estou quebrado! Eu agora vou fazer uma estufa, até falei para ela: “olha, capela eu não sei fazer, mas estufa eu faço com ajuda de uma equipe!”.  

O lado bom está sendo curtir esse momento mais em casa com a minha esposa e minhas filhas, estar mais presente. Fico triste de não poder ver outras pessoas da família, amigos, mas participar da rotina delas todos os dias têm sido ótimo.  

Luciano construiu uma horta durante a pandemia | Reprodução: Instagram

Confira vídeo da entrevista:

*Sob supervisão da repórter Lívia Oliveira