Nem Te Conto

'Quero muito ser mãe', diz atriz Mariana Ximenes

Prestes a estrear como Adalgisa, uma mulher revolucionária na minissérie ‘Se Eu fechar os olhos agora’, atriz fala sobre trabalho, família e a vontade de ser mãe

Agência O Globo

"Sou movida a música”, avisa Mariana Ximenes, antes de pegar o celular e escolher uma canção para ouvir enquanto é maquiada para a sessão de fotos. A atriz dá play em “Under pressure”, clássico do Queen com David Bowie.

Foto: Reprodução | Instagram

E foi o que fez logo depois, quando tocou “What a feeling”, do filme “Flashdance”, e já estava diante da câmera. Pediu para aumentar o som e dançou, solta, sacudindo os ombros e mostrando-se dona da situação que criava.

Mariana, aliás, adora criar clima. Precisa dele para se inspirar. Foi buscar em ícones femininos dos anos 1960 as referências para viver sua próxima personagem na TV.

Mistura de Sophia Loren, Jeanne Moreau e Claudia Cardinale, Adalgisa, de “Se eu fechar os olhos agora”, minissérie de Ricardo Linhares, ambientada naquela década, que estreia dia 15 na TV (e amanhã, no Globoplay), deve conquistar o público.

— Além delas, me inspirei em Gena Rowland, uma doida boa, com uma loucura interessante — diz.

Assim como sua intérprete, Adalgisa é uma mulher à frente de seu tempo, sensual, ousada ao se vestir e se comportar. Diferentemente dela, vive com uma taça de Dry Martini numa mão e um cigarro na outra (“naquele tempo, fumar era cool; hoje, cool é não fumar”, diz Mariana). É autora de tiradas bem-humoradas (“preferia ter um fígado no lugar do coração, assim eu poderia beber mais e sentir menos”, diz, em uma das cenas), mas, no fundo sofre. É reprimida, infeliz no casamento (com o personagem de Gabriel Braga Nunes) e tomada por um tremendo vazio. Vazio que tenta preencher, por exemplo, tendo um caso com uma mulher, por quem acaba se apaixonando.

— Ela é livre, vive seus instintos e prazeres. Se envolve com outra mulher e se liberta mais ainda — adianta Mariana, ávida por liberdade. — Acredito que o amor não deve ter barreiras. O que importa é o que se sente em relação à pessoa com quem nos encantamos, seja qual for o gênero. Adorei viver mulheres livres no cinema, como em “O uivo da gaita” (em que protagoniza cenas quentes com Leandra Leal ) e “Zoom”. Mergulho nessas personagens, pois refletem o meu olhar em relação ao amor.

O perfil de Adalgisa estava descrito no roteiro, mas Mariana precisava ir além, como faz em seus trabalhos. Com a ajuda da psicanalista e preparadora Katia Achcar, ela costuma criar histórias anteriores de vida para suas personagens, que a ajudam a traçar o perfil psicológico delas e, assim justificar, em sua cabeça, as atitudes de cada uma. Mariana decidiu, por exemplo, que Adalgisa é filha de um porteiro de Copacabana, que morava num prédio de frente para o mar, só que nos fundos.

— Gosto de pensar de onde ela veio, porque somos fruto da nossa criação, das nossas referências e isso me ajuda a trazer os ingredientes necessários para eu embarcar na história — narra. — Ela visita aquela realidade, que ajuda a explicar um pouco porque preferiu abandonar a carreira de miss e se casar com um homem poderoso, tudo para manter um status social.

Recentemente, a atriz ouviu uma frase de um amigo, que, em sua opinião, resume bem o processo do qual fala.

— A gente é um laboratório, vai pegando um monte de substância, tudo que lê, assiste, escuta e observa. Aí, digere, recicla e entrega.

E Mariana se entrega. O anel com a palavra “oui” usado pela atriz no dedo médio da mão esquerda diz bastante sobre sua personalidade. Ela vive dizendo muito mais sim do que não — seja para esse ensaio de fotos, em que aceitou de cara todas as ideias propostas pela equipe de produção durante quase oito horas, seja para apoiar os amigos, como a ex-sogra, que decidiu fazer uma tatuagem aos 78 anos e pediu que Mariana a acompanhasse.

— Mas é sim só para o que eu quero, hein? — apressa-se em dizer a atriz, que, às vésperas de completar 38 anos (dia 26 de abril), e somando mais de 20 de carreira, ainda quer muita coisa.

No campo pessoal, Mari experimenta uma vida a dois com o músico Felipe Fernandes (“estamos ensaiando morar juntos e já acordo com música, piano, violão”), com quem namora há um ano e meio. Diz que, ao contrário de antigamente, hoje, pensa em se casar. Até mandou bordar seu nome na barra do vestido de noiva de Claudia Raia.

— Tenho ido a tantos casamentos lindos. Fiz a cerimônia de uma amiga e foi especial, deu um gostinho. Hoje em dia, penso em celebrar, sim. É um ato de comunhão muito bonito.

Mariana e Felipe se conheceram há mais de dez anos nos famosos jantares na casa do jornalista Jorge Bastos Moreno, amigo em comum, que morreu em 2017.

— Fiquei muito amiga da mãe dele ( Sandra Fernandes ). Nós dois já tínhamos conversado alguma vezes, mas quando o Moreno morreu, a gente se aproximou para tentar suprir a dor — lembra. — Foi quando vi que ele era um ser humano supersensível e bacana, com caráter. Aí rolou, que paixão!

Ela acha que formam um casal engraçado. Mariana é mignon, mede 1,65m; Felipe, 1,95m.

— Vi uma foto nossa em que ele saiu sem cabeça, sou eu e um corpo — diverte-se ela, citando em seguida, um ponto alto da relação. — Ele é tranquilo, eu sou pilhada, a gente se equilibra.

Ter filhos também está nos planos da atriz, que é tia de Valentina, de 1 ano e meio (filha de seu irmão, o médico Rafael, de 36 anos), madrinha dedicada de cinco crianças e conhecida pelo cuidado com as pessoas que a cercam. Enquanto posava para as fotos, por exemplo, providenciava o café da manhã que colocaria na mesa para uma hóspede em sua casa, e foi graças à insistência de Mariana, que Jorge Bastos Moreno resolveu cuidar melhor da saúde.

— É da minha natureza cuidar. Amo. Respeito quem não quer ter filhos, mas eu quero muito viver essa experiência.

E quando chegar a hora, ela sabe o caminho que deseja seguir: o do diálogo aberto. Sabe também que “é duro educar” e acha a questão do limite uma das mais difíceis — essa, aliás, vem trabalhando diariamente com a gatinha que ganhou do namorado e batizou de Doroteia em homenagem à avó paterna, que morreu em dezembro. A amiga Camila Pitanga é citada como referência de educadora.

— Fomos à passeata de 8 de março ( Dia Internacional da Mulher ), e Camila levou Antonia ( sua filha de 10 anos ). Achei tão bonito. Admiro a consciência que ela passa para a filha. Acredito nisso — afirma. — Ensinar a ser livre, no sentido de poder usar a roupa que quiser, ser quem se é, gostar de quem quiser. Acho legal falar sobre tudo, menino com menino, menina com menina, é de pequeno que se acostuma.

Alimentação saudável e sustentabilidade são outras noções que acha importante passar ao filho que um dia quer ter, assim como o contato com a natureza, acrescenta a atriz, que já comemorou um aniversário na cachoeira do Horto e tem uma campanha para que a tragédia de Mariana não seja esquecida. Ela fala com empolgação, mas assim que termina de enumerar os pontos acima, para, coloca o dedo indicador na testa como se tivesse uma iluminação. Em seguida, esclarece que não, não está dizendo como as pessoas devem educar os filhos.

— Quem sou eu para falar de educação se não sou mãe? — pergunta, mostrando que está atenta ao mundo em que estamos vivendo e a conceitos como lugar de fala. — Tenho estudado muito essas questões. Leio Angela Davis, Chimamanda ( Ngozi Adichie, autora de “Como educar crianças feministas”), Djamila Ribeiro.

Atenta aos conceitos, mas também para não cair em armadilhas modernas, como a obsessão digital. Mariana, inclusive, é conhecida por demorar a responder mensagens de WhatsApp. Ela precisa é estar conectada consigo mesma.

— Se estou aqui com você, quero estar inteira, vivendo o presente, não consigo estar no celular. Em cena, é a mesma coisa. Apuro os instintos para receber a emoção, trocar com outros atores — detalha. — Todo mundo fica escrevendo “responde, por favor”, mas não consigo. Quando demoro muito, meu pai digita “MMM”, que quer dizer “Mari Minhoca Muda” — conta ela, revelando seu apelido de família.

Nada a ver com a cintura fininha (61cm) da atriz — que também tem pé pequeno (“33/34, por isso, caio muito”). É que, quando era bebê, ela não chegou a engatinhar. Se arrastava pela casa (daí “minhoca”). Filha de um advogado e professor e de uma fonoaudióloga, Mariana nasceu em São Paulo e cresceu na Vila Mariana vendo o pai corrigir provas e falar sobre ética e caráter. Da mãe, cearense, ela destaca a força.

— Me ensinou a ser guerreira — diz. — Minha avó teve 15 filhos, no sertão do Ceará, em Sobral. Minha mãe, a 11ª, foi escolhida para viver com os tios no Rio. Veio para cá aos 7 anos, separada da família, mas teve oportunidades.

Fez faculdade, se formou. Conheceu meu pai, casou e foi para São Paulo. Quando eu vim para o Rio, aos 17, ela deixou meu irmão cuidado, fazendo Medicina na Unicamp, e veio comigo. É uma mulher de fibra!