Nem Te Conto

Rodrigo Santoro diz que aprendeu russo em um mês e fala da paternidade

'Não sei se sou um pai-coruja', afirmou ator

Gustavo Cunha, da Agência O Globo
- Atualizada em


Rodrigo Santoro não costuma arquitetar muitos planos. Na cabeça do ator, o futuro se desenha de maneira torta, num traço não necessariamente alinhado com raciocínios lógicos. "É tão complicado planejar essa vida, acho melhor não criar expectativas", ele justifica. Algo o impele a seguir por um caminho sem a certeza de tantos destinos.

Foi assim quando aceitou o convite dos diretores canadenses Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso para protagonizar o filme "O tradutor" , cinebiografia de um professor cubano, especialista em Literatura Russa, convocado pelo governo para servir de tradutor entre crianças vítimas do desastre de Chernobyl e médicos cubanos, em 1989 — a história chega às telonas no dia 4 de abril. Num lance surpreendente para ele mesmo, o artista topou a missão: aprendeu russo em quatro semanas e encarou as câmeras. Parecia piada, mas deu certo, o próprio carioca de 43 anos reconhece.

Nesta entrevista, Rodrigo Santoro repassa determinados momentos importantes da carreira, desmente certas informações acerca da vida pessoal ("Diferentemente do que muita gente pensa, não moro nos Estados Unidos") e revela um novo dilema decorrente da "dinâmica de vida com o pé na estrada", como se define: ao lado da mulher — a também atriz Mel Fronckowiak —, começa a amadurecer a ideia de se estabelecer com mais firmeza num só lugar para criar a filha Nina, de 2 anos. Está aí um motivo para um planejamento, enfim? Talvez. "Desde que soube que me tornaria pai, passei a abrir mais o coração e o olhar", ele afirma.

O que mais sobressai da história de "O tradutor"? É um filme que dialoga com questões do presente?
Acho que "O tradutor" se coloca como um filme extremamente atual e urgente. Além de toda temática política que envolve a trama, é uma história que exalta o afeto num momento em que se tenta institucionalizar o ódio. Isso é importante. O filme fala de educação, e essa é a melhor forma de debater política. Por isso, fiz questão de apresentar essa produção em escolas públicas, com debates após as sessões. Já era um desejo antigo, e me pareceu perfeito realizá-lo desta vez. Estudo demais esse tema, ainda mais agora que me tornei pai.

Quando recebeu o convite para protagonizar o filme, não se intimidou com o fato de seu personagem falar espanhol e russo, dois idiomas que não fazem parte do seu dia a dia?

Se quiser alcançar coisas que nunca alcancei, precisarei me arriscar. Com "O tradutor", foi assim. Falar russo? No início, achei que era piada. De fato, é um extremo. O aprendizado foi como uma gincana: diariamente, durante quatro semanas, tive quatro horas de aula de espanhol e quatro horas de aula de russo. Do russo, o que me sobrou foram algumas palavras ou frases. Mas não é que eu até passei a escutar música russa?


Chegou a conclusão de que tem facilidade com idiomas?

Sempre gostei de aprender novas línguas, e isso se tornou uma necessidade para mim. Já fiz trabalhos em inglês, em espanhol, em italiano e agora em russo. É sempre um esforço maior para me expressar com naturalidade, mas o obstáculo está ali para ser enfrentado. Sinceramente, sou até meio cara de pau nesse sentido. Quando comecei a aprender inglês, inventava várias palavras, colocando um  ation  no fim de qualquer termo.

Hoje, o seu lugar é mesmo no exterior?
A dinâmica da minha vida funciona à base do pé na estrada. Cada vez mais, entendo a palavra "casa" como algo fluido. Diferentemente do que muita gente pensa, não moro nos Estados Unidos. Movimento minha moradia de acordo com os trabalhos. Agora mesmo, fiquei um tempo na Espanha. Antes, em Cuba. Em Los Angeles, faço parte do elenco da série "Westworld"  (da HBO) , que acabou de ter a terceira temporada confirmada, e por isso passo bastante tempo por lá. Vou numa estrada com curvas, subidas e descidas.

Mas como fica essa logística de viagens com uma filha pequena?
Tenho conseguido viajar com a família. Procuro estar perto da minha filha o máximo possível. Ficar longe me desagrada demais. Nossa...! Só de pensar na saudade que sinto. Estou daquele jeito, sabe? Às vezes, vou de um lugar para outro nem que seja para ficar uns três ou quatro dias com ela. Isso, para mim, não tem problema. Uma coisa, aliás, eu garanto: aprendi direitinho a fazer mala (risos). Mas normalmente a gente anda como uma unidade. Agora, as coisas devem mudar um pouquinho, já que a Mel vai participar de um quadro no "Domingão do Faustão"  (o reality "Show dos famosos") , e ficará pelo menos três meses no Brasil. Daí, devemos nos dividir.

Você e sua mulher não conversam sobre a possibilidade de se estabelecer num determinado lugar?
Temos uns três anos para definir onde vamos criar nossa filha. Há ideias em amadurecimento. Mas vou como sempre: tocando de ouvido, passo a passo, sentindo o que parece ser o melhor caminho. É tão complicado planejar a vida! Acho melhor não criar expectativas nem fazer planos milimétricos. Eu meio que direciono e sonho. Mas traçar planos, no sentido de pensar "vou fazer isso e depois aquilo por causa disso", não, isso não faz sentido para mim.

Qual é o seu sonho então?
Meu sonho é continuar fazendo o que amo fazer, com a família junto. Como a gente vai fazer com que isso aconteça? Está aí a mágica. Vai que, daqui a pouco, surge um equipamento que faça a gente virar 3D e eu possa entrar numa tela para abraçar minha filha!? Pode acontecer, mas hoje não dá. E também não seria suficiente. Preciso estar junto. Mesmo.

Considera-se um pai-coruja?
Não sei se sou um pai-coruja. Desde que soube que me tornaria pai, passei a estudar, a conversar e a abrir mais o coração e o olhar. Tento ter menos ideias formadas. É algo curioso: a gente quer educar, mas são as crianças que nos educam. Abro espaço para minha filha me mostrar quem é ela. Quero conhecê-la, e não apenas mostrar o que ela deve ser. Claro que direciono determinados caminhos, mas também fico aberto. Aprendo muito, todos os dias. E estou adorando ela.

Gostaria de aumentar a família?
Ainda não chegamos nesse capítulo. Minha filha vai fazer dois anos. Um passo de cada vez.

Ao olhar para a sua trajetória profissional, sente que o caminho que trilhou fora do Brasil foi pautado por uma pretensão que já existia em você desde jovem?
Em nenhum momento, coloquei minha mochila nas costas e falei: "Vou para os Estados Unidos fazer uma carreira fora". Para mim, nunca existiu essa divisão entre carreira internacional e nacional. Toda a história no exterior começou como consequência dos trabalhos que fiz em "Bicho de sete cabeças" (2000) e "Abril despedaçado" (2001). Ali, comecei a viajar para festivais, a me aproximar de determinadas pessoas e a frequentar  premières . Se eu desejava isso? Provavelmente. Mas estava escondido atrás da cabeça, no inconsciente. Se tivesse feito esse plano, iria rir de mim mesmo. Falaria algo como: "De onde você está tirando essa ideia, Rodrigo?"

Apesar dessa despretensão, há critérios que embasam suas escolhas, certo?
No ano em que fiz o meu primeiro trabalho lá fora  (em 2003) , o mercado era muito mais fechado, e latinos faziam papéis estereotipados. Não que hoje ainda não seja assim, mas está mais aberto. Antes, poucas coisas me interessavam. Não só pelo fato de o personagem que me ofereciam ser latino ou vilão ou traficante de drogas, mas porque eram pouco humanizados. Eram caricaturas mesmo.

Rejeitou muitos trabalhos?
Claro. Já neguei, inclusive, projetos grandes. Numa das vezes, rejeitei uma oportunidade comercial de muita exposição, porque não me interessava pelo personagem nem pela história.  Não vou entrar em questões de misticismo ou falar em voz do coração ou em instinto. Mas sempre fiz escolhas baseado numa escuta interna. O fato de eu usar aqui uma camisa vermelha ou preta, tudo isso é baseado num lado racional que tem a ver com a maneira que me sinto.

Prefere se expressar politicamente nessas sutilezas? Sente receio em tomar partido sobre determinados temas mais abertamente?

O trabalho do artista tem como consequência muita exposição. Lido com isso há algum tempo, e preservo a minha privacidade o quanto posso. Através das escolhas e dos trabalhos que faço, procuro falar dos assuntos que sinto e penso. O fato de levar "O tradutor" para as escolas públicas, não deixa de ser uma forma de promover um encontro com pessoas que provavelmente não conheceria se eu não provocasse essa situação. Acredito muito nisso.

Você se cobra para fazer mais trabalhos no Brasil?
Desde que comecei a fazer trabalhos no exterior  (em 2003) , o máximo de tempo que fiquei sem vir ao Brasil foram três meses. Gosto de trabalhar aqui, e volto sempre, não apenas pelo trabalho. Volto por vontade, por afeto. Imagina! Minha família e meus amigos estão aqui. Adoro a vida daqui. E afirmo isso com zero porcento de demagogia. As pessoas podem até dizer o contrário, que falo isso para ficar bem. Não é mesmo. A questão afetiva é muito importante, e não consigo me afastar disso.

Há projetos à vista por aqui?
Continuo aberto, recebendo roteiros. Não divulgo porque não sei se vai dar certo. Mas estou lendo algumas coisas. O que me restringe é a duração do compromisso. Não dá para fazer nada tão longo, porque a dinâmica da minha vida não permite. Farei a terceira temporada de "Westworld" e, em breve, começo a gravar "Reprisal", da plataforma Hulu. Mas há um convite para uma série da Globo e um filme brasileiro. Estou conversando.

Tem também o filme "Turma da Mônica - Laços", em que você participa como o personagem Louco, né?
Ih, não sei se está na hora de falar disso. O convite para esse trabalho foi um verdadeiro presente, porque o Louco era meu personagem favorito nas histórias da "Turma da Mônica". Quando o diretor Daniel Rezende me ofereceu a ideia, quase não acreditei. Achei que era uma brincadeira. Foi muito louco (risos)! Mergulhei numa espécie de sonho, porque lembro de ler as historinhas e achar o Louco divertidíssimo. A caracterização é a mais próxima possível. As pessoas estão empolgadas.