Nem Te Conto

'Se não ajudo, criticam. Se ajudo, quero aparecer', desabafa Xuxa

Apresentadora doou R$ 1 milhão para o combate à pandemia de Covid-19

Gilberto Júnior, da Agência O Globo

Domingo, 14h18, dispara uma mensagem no WhatsApp. É Xuxa Meneghel avisando que acordou tem mais ou menos meia horinha, vai comer alguma coisa e me liga em breve para conversarmos. “Passei a madrugada fazendo maratona na TV. Assisti ao filme ‘Minha mãe é uma peça 3’. Adorei. Mas não me identifiquei em momento algum. Dona Hermínia (personagem de Paulo Gustavo) é doidinha, exagerada demais”, diz a apresentadora, assim que o papo começa.

A vida, segundo a estrela da televisão, mudou pouco desde que entrou em quarentena para conter o avanço do novo coronavírus. “Não gosto de sair de casa nem nas férias. A única questão ruim são os pensamentos. Não dá para ficar imune quando tem gente morrendo”, comenta. Em seu isolamento (privilegiado, ela sabe), numa mansão num condomínio na Barra da Tijuca, Xuxa está com a filha, a modelo Sasha Meneghel, o namorado, o ator Junno Andrade, uma funcionária que quis ficar por se sentir mais segura, um casal de amigas com uma bebê recém-nascida, além de Maria, a quem chama carinhosamente de segunda mãe.


Em meio à pandemia, Xuxa completou 57 anos, na sexta-feira. “Mas não tinha clima para comemorações”, observa a loura, que doou R$ 1 milhão ao Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de sua empresa de depilação, a Espaçolaser, para ajudar no combate à Covid-19. Foi a primeira celebridade brasileira a fazer algo do tipo — pelo menos publicamente, seguindo os passos de Blake Lively e Rihanna, que lá fora doaram, respectivamente, US$ 1 milhão e US$ 5 milhões.

Em pouco mais de uma hora de entrevista por telefone, a apresentadora reflete sobre a crise de saúde, defende o veganismo e se mantém em cima do muro ao falar sobre política.

O GLOBO: Você doou R$ 1 milhão ao SUS por meio da empresa de depilação da qual é sócia. O que queria mostrar com isso?

XUXA: A ideia não era mostrar nada. Quis só ajudar mesmo. O ponto não é dar dinheiro, é doar sem esperar receber nada em troca, sem interesses. Com a empresa Baruel, que licencia os produtos da Xuxinha, consegui 300 mil sabonetes; a metade foi para São Paulo e a outra parte foi distribuída nas favelas cariocas. Minha intenção é simplesmente fazer.

O que é bom para sua imagem também.

Decidi ser uma pessoa pública aos 16 anos e sou criticada desde então. Se não ajudo, criticam. Se ajudo, quero aparecer. É bastante difícil viver nesse mundo sem ter uma resposta positiva. É uma pena. Estamos muito negativos.

O que tem achado das ações do poder público diante dessa pandemia?

Ouço o governador do Rio (Wilson Witzel) falando algumas coisas; nosso presidente (Jair Bolsonaro), outras, que a gente gostaria que ele não tivesse dito. Uns dizem que é só uma “gripezinha”, outros que não devemos tratar a Covid-19 como tal. Estão circulando muitas informações por aí, e qualquer posicionamento que eu venha ter agora pode soar leviano ou injusto. Só acho que os políticos deveriam estar mais preparados para se comunicar com o público.

Está acompanhando shows e lives que os artistas têm transmitido pelas redes sociais para entreter o público durante a quarentena?

Tem muita gente com boa intenção, e tem uma galera querendo aparecer. Cada um acha que sua opinião é mais importante do que a do outro. Não sei se estou um pouco descrente dos seres humanos... Mas se vejo alguém falando algo sério e pertinente, compartilho. Aliás, temos que bater muita palma para os profissionais de saúde que estão na linha de frente. Já escutei médicos e enfermeiros dizendo que estariam nessa missão ainda que não fosse obrigação.

Está conseguindo manter uma rotina de trabalho?

A RecordTV cancelou as gravações do programa “The four Brasil”. Não tem como trabalhar normalmente com uma pandemia. Tenho feito reuniões virtuais sobre o filme e o seriado que querem fazer da minha vida. Não assinei nada. São apenas sondagens. Não tenho maiores detalhes.

Antes dessa doação, você manteve a Fundação Xuxa Meneghel por 29 anos (em 2018, a instituição filantrópica foi rebatizada Fundação Angelica Goulart). Por que desistiu?

Nos 15 primeiros anos, mantive tudo sozinha. Depois, vieram parceiros com cursos profissionalizantes e pessoas que apadrinhavam algumas crianças. Ao todo, atendíamos 350. Foi uma decisão financeira. Por ano, eu gastava R$ 1,8 milhão, mas não conseguia fechar essa conta somente com shows e produtos que licenciava. Tinha que tirar do meu bolso R$ 400, R$ 500 mil. Começou a ficar pesado para mim. Deixei de trabalhar na TV Globo, perdi contratos por idade, coisas da vida. Só que eu continuava gastando igual ou mais. Buscava ajuda, mas ninguém me estendia a mão. Fui várias vezes à prefeitura pedir isenção de IPTU e nada, não conseguia diminuir os encargos. Saí da fundação sem me despedir das crianças porque eu não iria aguentar. Só tirei de lá uma imagem de São Judas Tadeu, presente de Glória Severiano Ribeiro, que está aqui na minha casa.

O que podemos aprender com essa crise?

Será muito difícil sairmos dela ilesos, igual éramos. Se a informação chegava para A e B, agora tem que chegar para todos porque as pessoas podem morrer. Mas vou te contar: moro num condomínio de classe AA e, dias atrás, um vizinho fez o maior festão, com vários convidados, música alta e dança. O que eu posso dizer sobre isso? Se a gente não tirar um ensinamento sequer, ficará impossível continuar. Tem que jogar uma bomba no mundo e recomeçar em outro lugar.

Em meio à pandemia, você postou um vídeo sobre veganismo nas redes sociais e foi muito criticada.

Pode parecer papo chato de vegano, mas as pessoas deveriam repensar o que comem. Uma das hipóteses é que esse novo coronavírus tenha vindo do morcego. Já tivemos a doença da vaca louca. Será que não devemos parar e nos questionar se é realmente necessário ingerirmos animais?

Você é vegana há quanto tempo?

Há quase três anos, mas sou vegetariana desde os 13. Comia peixe de vez em quando porque achava que a proteína tinha que entrar no meu organismo de qualquer maneira. E existem outras formas de mantermos uma dieta equilibrada, mas eu não sabia disso. Era pura ignorância. Vejo na internet muita gente culpando os chineses por tudo que vem acontecendo, mas eles não têm culpa. É necessário mudarmos os costumes.

Por falar em costumes, como gosta de comemorar seu aniversário?

Nunca curti muito aniversário. Deve ser reflexo da época do “Xou da Xuxa”. Eram três dias de festa. Já celebrei à beça. E esse ano (27 de março) não tinha clima, né?

O tempo é uma questão? Como você está se preparando para a próxima fase?

Já digo que tenho 60 anos. Estou cuidando um pouco mais da pele, mas não vou entrar naquela paranoia de colocar “boca de peixe”, inflar aqui e ali. Quero fazer uma plástica para tirar as rugas do meu pescoço, que realmente me incomodam. Mas tenho alguns medos. Meu organismo não aceita certas coisas. Mexi no peito cinco vezes porque meu corpo sempre rejeita as próteses de silicone. Enfim, eu estou preparada para me ver na frente das câmeras aos 60. Mas as pessoas estão?

O que deseja para os próximos meses de 2020?

Todos querem a mesma coisa. Que esse novo coronavírus vá embora rapidamente, que desapareça do mundo da mesma forma que surgiu. Parece utopia, mas adoraria que nossa economia melhorasse, pois os mais necessitados estão sofrendo. Que tudo isso passe, pois ninguém merece.