Nem Te Conto

'Temos uma geração de negros incríveis', diz Olivia Araujo, de 'O tempo não para'

Atriz enxerga avanços de representatividade na TV

Agência O Globo

Uma voz a serviço da igualdade racial, a atriz Olivia Araujo, de “O tempo não para”, vê na arte um motivo para comemorar o Dia da Consciência Negra. Na data que simboliza a luta contra o racismo, a intérprete da ex-escrava Cesária, que conquistou a independência financeira com a venda das suas joias de crioula, celebra a oportunidade de integrar o elenco de uma novela que conta com nomes consagrados, como o do veterano Milton Gonçalves, além de talentos jovens, como Aline Dias e David Junior.

Foto: Divulgação

— O cenário é positivo. “O tempo não para” tem um elenco representativo. As coisas estão indo. Com certeza, não na velocidade de que gostaríamos, mas estão caminhando. Temos uma geração de negros incríveis — frisa a artista de 46 anos, para destacar: — A gente vive situações de racismo diariamente desde que o primeiro negro escravizado pisou por aqui

Sobre o atual cenário político, ela prefere ser prática:

— Resistimos há mais de três séculos e vamos continuar resistindo. O momento político não vai fazer diferença porque racismo sempre existiu no Brasil.

Nem mesmo a internet, instrumento muito usado em ataques racistas, ela enxerga como vilã:

— As redes sociais deram voz para todos, democratizaram o direito à opinião. O problema é que as pessoas se escondem atrás de um apelido para demonstrar o que realmente pensam. Lamento que usem as redes para ofender por uma questão racial.

Para Olivia, a maior conquista, sem dúvida, é a liberdade de ser o que é:

— A população negra reconheceu sua beleza e sua potencialidade. Hoje, as pessoas ficam mais à vontade para usar o cabelo crespo, liso, com tranças... Enfim, como quiserem. Cesária, por exemplo, valoriza a sua beleza e não abre mão das joias e das tranças. No século 19, ela não tinha acesso à estética como a gente tem hoje. Mas, ainda assim, estava sempre com um adorno.

Com o mesmo olhar otimista, mas crítico, ela olha para a indústria de cosméticos voltada para os negros.

— Reconheço os avanços. Somos um mercado que consome estética, moda, e que precisa de representatividade, então a indústria nos olha como consumidores. Não é uma questão de consciência, é uma questão comercial — observa ela, completando: — Nos 130 anos de abolição, a população negra se alfabetizou e ascendeu socialmente. Mas parte da sociedade é contra essa realidade. Por isso, é preciso lembrar que o Brasil viveu às custas de uma triste moeda chamada escravidão.