Nem Te Conto

'Uma mulher de 58 anos e uma de 20 podem dar tesão igual', diz Cazarré

Ator falou sobre fidelidade, personagem e violência no Rio de Janeiro

Marina Caruso, da Agência O Globo
- Atualizada em

Espécie de Rodrigo Hilbert com pimenta, o ator Juliano Cazarré também tem 37 anos, dois filhos fofos e um dom para a cozinha. Mas, diferentemente do marido de Fernanda Lima, não tem papas na língua, chora com facilidade e exala testosterona tal qual Mariano, seu personagem em “O outro lado do paraíso”.

No fim da semana passada, o ator recebeu a coluna em sua casa, no Recreio, para falar sobre o sucesso do garimpeiro que vive o triângulo amoroso com as personagens de Marieta Severo e Grazi Massafera, mãe e filha na trama de Walcyr Carrasco. Era final de tarde, e Cazarré, antes de sair para a gravação noturna, media a febre de Vicente, de 8 anos, e esperava o caçula, Inácio, de 5, chegar da escola. “Minha mulher (a bióloga Letícia Cazarré) está em Austin (EUA), e eu, gravando feito louco. Chego em casa moído”, disse. “Mas faço a sopa dos meninos. Escondo um brócolis para garantir as vitaminas”.

Inconformado com a violência da cidade e a “caretice” do Brasil — país que “sai de bunda de fora no carnaval, mas não avança na legalização das drogas” — Cazarré falou sobre temas delicados com uma transparência rara entre galãs da TV. Confira os melhores trechos:


Mariano levará tesouradas de Sophia, personagem de Marieta Severo, em no máximo dez dias. Como será a cena?
Ainda não gravamos. Há um mistério em torno da cena. O personagem cresceu muito, criou vida própria. A novela é viva, tá bem de audiência, e eu tenho o privilégio de contracenar com a Marieta. Ela é uma jovem! Muito interessada, vital. Tem a carreira consolidada e não pendurou as chuteiras, quer sempre mais e melhor.

O personagem se envolve com Sophia e a filha dela. Imagina-se vivendo algo parecido?
Tenho tesão em diferentes tipos de mulheres. Quer dizer, tive. Hoje, só a patroa me dá. Mas uma mulher de 58 anos e uma de 20 podem dar tesão igual, por motivos diferentes. Entendo bem o desejo, mas não me envolveria com mãe e filha.

Você é fiel?
Sou. Cada casal resolve o seu contrato. O meu é de exclusividade. Não é fácil, mas é gostoso.

Me contaram que você cobra que sua mulher diga “eu te amo” sempre. É verdade?
Muito. Já pedi várias vezes, e ela não entende. Diz: “A gente mora junto há um tempão, tem dois filhos, que mais você quer?” Quero que diga “eu te amo”, porra! Não era isso que vocês reclamavam que a gente não fazia? Agora que a gente faz, vocês pararam de fazer! Ô desgraça!

Você vive dizendo que é um homem feminino. De onde vem isso?
Meu pai (o escritor Lourenço Cazarré) trabalhava muito, muito mesmo. Eu vivia grudado na minha mãe, Luíza, que era formada em pedagogia, mas abriu mão pra cuidar dos filhos. Ia ao salão quando ela fazia as unhas e adorava ler revistas femininas: “Mulheres não têm orgasmo, entenda por quê”. Isso me abriu uma porta, aguçou um olhar. É muito mais rico do que só conviver com a turma do futebol, da malhação...

Você chora com facilidade? Quando se emocionou pela última vez?
Na sexta (16), tive um acesso de choro com esse pai que foi assassinado na frente do filho de 5 anos. Foi difícil voltar para a gravação. Isso sem falar da Marielle, que foi morta por defender ideais. Uma brutalidade. Somos bárbaros. Não vejo saída. Para piorar, quem está na criminalidade tem a ideia estapafúrdia de “eu não tenho porque você tem”. Ninguém é pobre porque existe rico. A gente é pobre porque vive num estado podre, cheio de políticos corruptos.

Como é ser pai nesse contexto da violência?
Meus filhos já têm medo, né? Percebem pelo nosso discurso, pela TV, pelo rádio. Moram num condomínio super seguro, mas têm pesadelos: “Papai, e se o ladrão entrar?”.

Como você fala de drogas com seus filhos?
Com a verdade, sempre a verdade.

Fumaria um baseado com eles?
Acho que sim. Hipocrisia não leva a nada. Quando chegar a hora, vou tratar com naturalidade. O Alexandre de Moraes (ministro do STF) está sentado em cima do processo, pediu vista. Assim não dá. O Uruguai é aqui do lado e é legalizado! A gente tá na contramão da história. O brasileiro acha que é moderninho porque sai de bunda de fora no carnaval, mas não avança na questão das drogas. Em vez de legalizar a maconha, se joga no tarja preta. Sendo que os países estão fazendo dinheiro e gerando impostos com a legalização. Nos EUA, um cara com camisa de botão e crachá te pergunta: “Uso recreativo ou medicinal? Prefere chiclete, cigarro ou biscoito?”. E aqui a gente faz o quê? Sobe o morro, com um bandido de AR-15 lá em cima e um policial com outra AR-15 lá embaixo. A maconha é uma bosta, vem do Paraguai. E tem gente com aquele discurso equivocado do Capitão Nascimento, de que a culpa é do usuário. Fácil, né? Quem não fuma, lava as mãos, mete a culpa no usuário e toma uma caixa de Rivotril. Somos o país no mundo que mais consome tarja preta.

No dia a dia quem cuida dos meninos?
Meus pais moram em Brasília e meus sogros em Cabo Frio. Somos basicamente eu e a Letícia pra tudo. Não temos babá. Nunca fomos da cultura da babá de branco. É uma pessoa a mais na casa. Quero chegar do trabalho, poder falar bobagem e ficar de cueca. Sem babá, sou eu que cuido do almoço e bato um bolo no fim de semana. Letícia não passa nem perto da cozinha. Outro dia meu pai me ligou e cobrou: “Tu não tem que fazer almoço, tchê! Tu é um artista! Tem que estar criando, não fazendo janta de guri” (faz sotaque gaúcho). Pô, sou artista o dia inteiro na TV. O que eu mais quero quando saio de lá é ser pai. Chego moído, mas faço a sopa dos meninos. Dou trato pra ver se dá para esconder um brócolis ou uma cenoura, e garantir uma vitamina a mais.

Você cresceu em Brasília, mas nasceu em Pelotas. Sofreu preconceito por ser gaúcho?
Passei a vida inteira ouvindo que era viado porque nasci em Pelotas. Veja que louco: piada com negro, nordestino e loura não pode. Mas com gaúcho é liberado, né? Por que pode? Fico confuso. Ter preconceito com gente feia, não pode. Mas com gente bonita tudo bem, né? Quem é bonito tem que ser burro e ponto. Paguei isso anos. Quando entrei no Projac, era assim: “Ele tira a camisa e tem gominho na barriga? Então, é burro!” Isso é preconceito.

Você é vaidoso?
Como ator, sou. Minha vaidade é profissional, não pessoal. Posso ficar feio e sujo numa boa. Não fico buscando meu melhor ângulo.

Em “Boi neon”, filme de 2016, você tem uma ereção na cena em que transa com uma mulher grávida. Como foi isso?
O diretor me pediu: “Seria legal se a gente conseguisse um vislumbre de paudurice”. Cinema pernambucano, arte, virilidade. Me concentrei e fui. Meu cérebro sabia que era trabalho, via o barbudo na câmera, o mané no carrinho. Mas eu acho mulher grávida a coisa mais linda. Morria de tesão pela minha quando estava grávida.