Kannário revela planos para 2016 e mantém suspense sobre Carnaval


Se antes de arrastar um mar de gente no Carnaval do ano passado, Igor Kannário, 31 anos, era visto como um problema, agora ele é a bola da vez no pagode baiano. Cantou com O Rappa, Wesley Safadão, Aviões do Forró… E ainda recebeu Claudia Leitte, Xanddy, do Harmonia do Samba, e Dan Miranda, ex-Filhos de Jorge, na gravação do novo disco #ÉNÓSDENOVO, que lançou no Natal e já alcançou mais de meio milhão de downloads. A aceitação não foi repentina. Com o apoio do público, Kannário precisou chegar com o pé na porta para conseguir desfilar na pipoca que atraiu mais de 580 mil pessoas no Campo Grande. O prefeito interveio, Caetano Veloso se manifestou e o Príncipe do Gueto foi coroado ao som de Tudo Nosso, Nada Deles. Ele não levou o prêmio de música do Carnaval, mas foi o cantor revelação da festa.

Foto: Arisson Marinho/CORREIO

Agora, mais famoso, Kannário preferiu mudar o vocabulário para ser entendido pela elite que o excluía, traduzindo o ‘favelês’ para o português. Ele mantém em sigilo sua programação para a folia deste ano, e só vai anunciar em uma coletiva no fim do mês. Em entrevista exclusiva ao CORREIO, o artista fala da nova linguagem em suas músicas e do novo álbum. Aborda a expectativa para a festa momesca deste ano, e lembra o início da carreira. 
O que você preparou para 2016?
Muitas novidades. De início tem o novo disco, com 21 faixas, todo autoral. E com isso, também estamos lançando a nossa proposta para o Carnaval, o hit Depois de Nós É Nós de Novo. Porque fomos vice- campeões no ano passado, então a gente quer concorrer e trazer esse troféu este ano. 
Nesse disco, além de cantar e compor, você também assina a produção. Foi a primeira vez que se arriscou nessa função?
Eu sempre produzi, só que no começo eu não sabia essas partes burocráticas, e que eu podia assinar como produtor. Hoje, eu conheço mais e percebi que é importante produzir e assinar meus singles. Só que tenho parceiros como Rafinha, que toca com Léo Santana, Leonardo Reis, que toca com Ana Carolina, que chamo pra me ajudar a fazer um arranjozinho, uma participação em alguma coisa, mas sempre sou eu quem produzo. 
O disco novo traz nomes de peso da música baiana. Como se deram essas parcerias?
A Claudia é doida! Ali foi uma pessoa que tive o prazer de conhecer, mas fui pensando que seria um desprazer. Acho que só eu tenho coragem de falar isso, mas eu fui conhecer com um pé atrás. Tipo: será que o jeito dela é de verdade? Será que vai ser uma energia legal? Mas bateu. A música, a energia… A personalidade dela é muito verdadeira, é a verdadeira patricinha do gueto. Então, tudo casou. Já Xandão, pô, é professor. Tchan e Xandão são os professores, tem que bater continência e tirar o chapéu pros caras. Era um sonho de garoto cantar com ele e olhar para o lado e ver o cara comigo me deixou muito feliz. E Dan eu sou fã, ele me lembra Steve Wonder, o Steve Wonder brasileiro. Aquele grave hipnotiza e eu queria ter ele no meu disco.

Foto: Reprodução

Xeque Mate é um dos destaques do disco, com uma letra muito atual, feita por Edu Krieger, que tem composições gravadas por nomes como Maria Rita, Ana Carolina e Maria Gadú. Como você recebeu essa canção?
Eu tive a oportunidade de conhecer ele através de Leonardo Reis, que toca na banda do programa do Faustão. Ele mandou primeiro a música Desostenta, que gravei no disco passado, e foi a única que regravei nesse disco. Quando ele viu a interpretação de Desostenta, adorou. Então ele falou: “Kannário, tô te mandando uma música que chama Xeque Mate”. Ela relata a história de uma mãe que tentou abortar e não conseguiu, e o menino cresce rejeitado pela família e pela sociedade. Ele acaba entrando no mundo do crime e, no meio dessa caminhada, acaba trocando tiro com a polícia. Antes de dar o último suspiro, a mãe aparece e ele diz que preferia não ter nascido. E é uma história real, de um adolescente do Rio de Janeiro, que ele presenciou e transformou em música. 
Você acha importante abordar esses temas em suas músicas?
Eu sempre abordei esses assuntos. Mas as minhas músicas nunca foram tão maquiadas como estão sendo agora. Porque existe o favelês e existe o português. Então, era isso que estava faltando nas minhas músicas: transformar do favelês pro português pra poder passar a mensagem desse povo daqui para o povo de lá. 
Ano passado seu Carnaval foi memorável. Está sentindo pressão para superá-lo?
Ano passado não foi um ano bom, Deus que fez a diferença. O ano veio todo torto, mas em um dia ele fez valer o ano todo. Então a pressão é boa. A diferença do ano passado para este ano é que, antes, as pessoas aqui em Salvador e no interior da Bahia já me conheciam, mas no resto do Brasil era assim: ‘Quem é esse cara ai?’ . Então, Deus nos apresentou para a sociedade, tipo: porra, olha direito pra esses meninos porque eles só querem trabalhar.
Qual foi a sensação quando você subiu no trio ano passado?
Na verdade, eu não pensei com ódio, nem rancor, mas eu merecia pensar assim naquele momento: ‘Tá vendo aí?’. Eu só pensei nas pessoas que diziam que eu era um marginal, que eu era um drogado, um mau exemplo, sendo que, quando eu cheguei, já estava tudo aí, tudo já estava errado quando eu nasci. 

Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO

Você acha que o pagode ainda sofre preconceito?
Antigamente sofria mais. Agora, aparecem as barreiras e a gente já está maduro o suficiente para ir de encontro a elas, bem mais sossegado e mais calmo. Hoje eu não preciso mais xingar pra resolver e solucionar problemas.
Ter o aval de Caetano Veloso foi importante?
Com certeza, não é? Caetano é Caetano. Isso resume.
Tudo Nosso, Nada Deles ficou em segundo lugar na disputa pela música mais tocada no Carnaval 2015. O que você achou?
Eu acho que se ela não tocasse no Carnaval ia bombar do mesmo jeito. De primeira mão eu pensei o que foi que aconteceu? Mas, depois eu pensei direito e não posso reclamar de Deus, não posso pedir mais nada a ele não, pô. Se não foi campeão ano passado é porque nesse a gente seria bi (risos). Deus falou: ‘Não vou dar tudo de uma vez pra ele não se sentir demais, vou dar só um pouquinho pra ele ralar no ano que vem’ (risos).
Como e quando você começou a cantar? E de onde surgiu o nome Igor Kannário, já que seu nome de batismo é Anderson Machado de Jesus?
Na verdade, eu pensava em ser jogador de futebol. Joguei muita bola, era atacante, joguei muito. Cantei pela primeira vez com 9  anos. Eu ouvia muita rádio e não podia ir aos shows, aí eu fugia, juntava o dinheiro do transporte da escola para comprar o ingresso e ia. Comecei a abrir festas de bairro e  certa vez, quando tinha 13 anos, tinha um olheiro de uma banda, Coisa do Samba, que me chamou para gravar. E foi assim que começou, depois eu fui passando por várias bandas, aprendendo e quebrando a cara pra caramba. Já o nome foi ideia de Belo. Eu cantei na Patrulha do Samba e tive a oportunidade de conhecer Belo. Ele olhou pra mim e perguntou se eu cantava mesmo. Eu disse que sim. Aí, um dia, fomos a uma rádio e comecei a cantar e ele disse: “Pô, é um pássaro. Como é seu nome?”. Eu disse que era Igor, aí ele falou: “Bote Igor Kannário, porra, porque você é um canário”. 
Você imaginava que sua carreira ia ter esta repercussão?
A gente sonha, mas não imagina. Não tem como prever. Mas fico tranquilo pra poder não ficar maluco com tudo isso, sempre com o pé no chão, sabendo de onde eu vim. 
O sucesso te permitiu sair da favela para ir morar na orla de Piatã. Qual a sua relação com a comunidade? Alguém achou que você abandonou as origens?
Quem me botou pra morar lá foi o povo. Sete horas da manhã tinha gente na porta da casa da coroa gritando: “Kannário!”. Aí eu disse: “Pô mãe, barriou, não vai dar pra ficar”. Mas é uma coisa que faz parte de mim, eu não posso ficar sem ir na quebrada. Antigamente eu ia mais, mas a favela sou eu e eu sou a favela. E quando é de verdade não tem porque duvidarem de você. Então, meu povo, favela de verdade, não tem dúvida nenhuma sobre mim. Quem tem dúvida é quem não conhece. 
Você gosta da ostentação? 
Ostentação é moda. Normal, igual a short, sunga. Não existe ostentação pra mim, existem coisas supérfluas, que a gente morre e fica tudo aí. Eu acho que a ostentação é momento.
O que você ainda sonha em conquistar?
A casa da minha mãe, a minha, meu estúdio, que cada um da minha banda compre a sua casa e a das mães e que façam dessa empresa, que temos aqui hoje, a sua sobrevivência.  

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