Novelas

'A dona do pedaço': próxima novela das 21h aposta em Romeu e Julieta no Brasil profundo

Inspirado em Shakespeare e Lorca, Walcyr Carrasco refuta comparações com 'Vale tudo'

Luiza Barros, da Agência O Globo

Uma paixão avassaladora entre dois jovens de famílias inimigas leva à tragédia. O que poderia ser em Verona, na Itália, é transportado para a fictícia Rio Vermelho, no Espírito Santo, em “A dona do pedaço” , nova novela das 21h da Globo, que estreia na próxima segunda-feira. Assumidamente um “Romeu e Julieta”, a história de amor entre Maria da Paz (Juliana Paes) e Amadeu (Marcos Palmeira) é a aposta de Walcyr Carrasco para envolver o público com o melodrama.


Não é a primeira vez que o autor recorre a Shakespeare: em 2000, ele partiu de “A megera domada” para criar um de seus maiores sucessos, “O cravo e a rosa”, ambientada nos ano 1920. Conhecedor da obra do bardo inglês, Carrasco já adaptou para jovens “Sonho de uma noite de verão” e o próprio “Romeu e Julieta”, que lhe rendeu um prêmio Jabuti. Para “Dona do pedaço”, ele ainda diz ter se inspirado em “Bodas de sangue”, peça de 1932 do espanhol Federico García Lorca (1898 -1936).

Embora não se sinta na obrigação de inovar e invista em dramas universais, o autor acredita que a novidade em “A dona do pedaço” está na temática dos justiceiros. Na primeira fase da trama, passada nos anos 1990, a jovem Maria da Paz  pertence a uma família de matadores profissionais, os Ramirez , enquanto Amadeu faz parte do clã rival, os Matheus .

— Eu e a diretora Amora Mautner fomos pessoalmente ao Espírito Santo, onde pudemos conhecer de perto essa realidade, falar com as pessoas, sentir a pulsação. Embora a história seja fictícia, para minha surpresa, descobri que até recentemente existiam na região duas famílias rivais. Várias cenas e falas são documentais, extraídas da realidade. Nesse sentido, tendo como fundo uma história de amor, a novela também mostra um Brasil profundo — afirma Carrasco, por e-mail.


Para retratar esse cenário, o elenco gravou a primeira fase da novela no Rio Grande do Sul, nas cidades de Jaguarão, Nova Esperança do Sul e São Gabriel. Apesar da realidade conturbada, a ideia era que o visual de Rio Vermelho transmitisse o romantismo e a esperança que os protagonistas levam consigo para o resto da vida.

— Eu não podia fazer de Rio Vermelho um lugar desconfortável ao olhar. É um lugar muito suave, com uma imagem humana, uma confort image. Queria que a cidade fosse feliz aos olhos, para que focasse no principal, que é essa mensagem de esperança que os protagonistas levam para a novela — explica a diretora artística Amora Mautner .

Depois de acontecimentos violentos nos anos 1990, Amadeu e Maria da Paz seguem rumos distintos na vida. A maior parte da novela se passa nos tempos atuais, com a protagonista convertida em uma empresária de sucesso.

— Existe na Maria a doçura e a inocência da Julieta, mas talvez a Maria não seja tão resiliente. Ela não aceita o rompimento, a morte do amor. Nesse sentido, ela é uma força desde muito jovem e acredito que seja essa força que a faça criar um império no futuro. Ela já vem com vontade de realizar — afirma Juliana Paes sobre a personagem.

Já Marcos Palmeira diz que o mocinho do século XXI vai “ter que rebolar” para continuar interessante em tempos de empoderamento feminino.

— Ele vai ter que mostrar suas inseguranças, suas crises. Acabou essa figura desse mocinho ideal, que não sofre, que não tem conflitos. É um novo momento mesmo, porque ela vem como a dona do pedaço e ele vem para somar, dividir os espaços — defende.


O reencontro dos apaixonados, claro, não vai ser fácil. Entre os inimigos, está a própria filha do casal, Josiane (Agatha Moreira) . Mau caráter e com vergonha da origem humilde da mãe, ela vai se aliar ao playboy Régis (Reynaldo Gianecchini) para impedir o romance dos pais. A dinâmica entre a mãe batalhadora que sobe na vida por meio do trabalho duro e a filha conspiradora que a despreza gerou comparações com a Raquel Accioli e a Maria de Fátima de “Vale tudo” , de 1988. Algo que Walcyr descarta:

— Sinceramente, não sei de onde tiraram essa semelhança. Me surpreende porque ninguém até agora assistiu “A dona do pedaço” e provavelmente muitas pessoas que fazem essa comparação não viram “Vale tudo”. Mas, em termos dramatúrgicos, relações conflituosas entre mãe e filha são comuns, frequentes nas artes em geral. Acho mais adequado assistirem primeiro a “A dona do pedaço” e só depois refletirem se existe mesmo essa semelhança. Para mim, não há.