Novelas

Armando Babaioff fala sobre poliamor em 'Segundo Sol'

Ator ainda criticou a intolerância e preconceito

Patrícia Kogut, da Agência O Globo
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Nos próximos capítulos de "Segundo Sol", o triângulo amoroso envolvendo Ionan (Armando Babaioff), Maura (Nanda Costa) e Selma (Carol Fazu) ganhará uma nova configuração: os três passarão a morar juntos depois que a policial afirmar que ama os dois. Babaioff afirma que, para o personagem, será uma decisão "inusitada".

- É divertido saber que ele vai topar porque quer estar ao lado da Maura. Ele a ama muito e topa passar por cima da forma como se vê para experimentar essa relação. Isso tudo será apresentado de uma maneira bem-humorada e questionadora. Além disso, serão mostrados os conflitos do personagem. Será um poliamor bem específico porque não são os três se relacionando, e sim o Ionan com a Maura e a Maura com a Selma.


A trama dividiu o público: parte dele torce para que Ionan e Maura terminem juntos e outros acreditam que Maura deveria ficar com Selma para não endossar o discurso da cura gay. Para o ator, qualquer assunto - mesmo os considerados tabus, como o poliamor - tem espaço na televisão.

- Os temas precisam ser tratados e discutidos. No teatro, na televisão e nas outras artes, os personagens passam por situações que parte dos espectadores não vive, viveu ou viverá. Com isso, criamos a chance de as pessoas se colocarem no lugar de outras. Temos a oportunidade de mostrar uma realidade diferente, para que haja um reconhecimento. A ideia é que aquilo vire uma discussão e não apenas um bloqueio: 'eu vejo, não gosto, não entendo e não quero discutir'. Isso está acontecendo hoje e me assusta um pouco. Estamos pouco empáticos, não temos mais tolerância para o diferente.

Babaioff considera que o papel em "Segundo Sol" foi um marco em sua carreira: - A novela foi muito especial. Vou carregar esse trabalho para o resto da minha vida. Meu nome agora virou Ionan, todo mundo que me vê na rua me chama assim. As pessoas passaram a vir falar comigo para discutir a novela e as decisões do personagem, como se ele de fato fosse real.

O ator afirma que ficará feliz com qualquer desfecho da trama: - Não tenho torcida, já estou sofrendo e dividido como ele. Acho que Ionan tem seus motivos para tomar uma decisão, qualquer que seja ela. Sou muito grato e apaixonado pela Roberta Rodrigues e pela Nanda Costa por terem criado essa história junto comigo.

Um dia depois do fim da novela, no próximo dia 9, Babaioff voltará aos palcos com a peça "Tom na fazenda". O espetáculo conta a história de dois homens casados. Um deles morre e o outro, então, descobre que a família do marido nunca soube de sua orientação sexual. - Não desejo parar de apresentar esse espetáculo tão cedo. Ficaremos em cartaz por um período no Imperator, no Rio, e depois devemos viajar, até para fora do país. É muito significativo neste momento em que os artistas estão sendo massacrados e a Lei Rouanet, tão criticada. Fizemos tudo sem patrocínio e sem dinheiro da lei, não porque não fomos aprovados, e sim porque, mesmo inscritos nela, não conseguimos doações - explica.

O ator, que sempre deixa claras suas opiniões políticas nas redes sociais, não tem medo de que isso possa afetar sua carreira: - Antes de ser artista, eu sou cidadão e tenho o direito de me posicionar. Como artista, eu tenho a obrigação de denunciar tudo aquilo em que eu não acredito e que acho que vai interferir na nossa sociedade, principalmente no que diz respeito à censura. Hoje, as pessoas correm o risco de ter sua liberdade atingida sem que ao menos entendam o que está acontecendo. Nós, artistas, precisamos colocar a mão na consciência e refletir sobre como deixamos de atuar junto à sociedade e permitimos que a situação chegasse a esse ponto. As pessoas estão deixando de ir a teatros e as bibliotecas e livrarias estão fechando. Existe uma completa desconexão do público com as artes. Não tenho medo de censura e de retaliação. Sou um operário no trabalho e não me exergo como celebridade. Não estou inserido nesse culto aos artistas por parte do público.