Novelas

João Emanuel Carneiro adianta detalhes de 'Segundo Sol'; confira

Trama está sendo gravada na Bahia e vai substituir 'O Outro Lado do Paraíso'

Zean Bravo, da Agência O Globo
- Atualizada em

João Emanuel Carneiro era fascinado por bruxas e torcia pelos bandidos das histórias quando pequeno. Criador de duas das maiores vilãs da teledramaturgia, a Flora, de “A favorita” (2008), e a Carminha, de “Avenida Brasil” (2012), o autor, que volta ao horário das 21h da Globo com “Segundo sol”, em maio, explica que suas tramas sempre partem dos personagens malvados. Desta vez, entram em cena as amorais Laureta (Adriana Esteves) e Karola (Deborah Secco), as antagonistas que vão encrencar a vida dos protagonistas Beto Falcão (Emílio Dantas) e Luzia (Giovanna Antonelli).

— Essas vilãs terão uma relação ambígua. Podem ser mãe e filha, irmãs, isso não ficará claro. Será uma relação de dependência — adianta o autor, que prefere não cravar a informação de que as duas personagens seriam amantes. — Pode ser tudo.

Ambientada na Bahia, com direção artística de Dennis Carvalho e direção geral de Maria de Médicis, a novela trata da segunda chance na vida das pessoas. A história começa em 1999, quando o cantor de axé Beto Falcão está em decadência na carreira. Dado como morto num acidente aéreo, o músico testemunha a comoção nacional gerada pela notícia. Certos de que poderão lucrar com o engano, seu irmão, Remy (Vladimir Brichta), e sua namorada, Karola, convencem Beto a sustentar a farsa de que morreu. Ele se esconde numa ilha e se apaixona por Luzia, que desconhece sua verdadeira identidade. É aí que Karola entra mais uma vez em ação e, com a ajuda de Laureta, separa os dois. Após os nove primeiros capítulos, a trama avançará 18 anos e mostrará as consequências desses acontecimentos nos dias atuais.

João Emanuel Carneiro, autor de ‘Segundo sol’, próxima novela das 21h

Nesta entrevista, Carneiro, autor de 46 anos que parte agora para a sua sexta novela, diz que se sente indo para uma guerra ao falar de manter uma boa audiência. E diz que “A regra do jogo” (2015), sua novela mais recente, não chegou a repetir o êxito do fenômeno “Avenida Brasil” por ter sido “muito ambiciosa”.

O que podemos esperar de “Segundo sol”?

Será uma história mais emotiva. O drama familiar será maior do que em qualquer outra novela minha. Parti de dois vértices. O da Luzia, que perde os filhos e lutará para recuperar a família despedaçada. O outro lado será a história de alguém que fica famoso com a morte. Beto se faz de morto e a família lucra com isso. Anos depois, ele estará acomodado nessa mentira, casado com Karola. Mas vai entrar em crise de consciência quando reencontrar a Luzia.

Por que ambientou a novela na Bahia?

Minha mãe (Lélia Coelho Frota) foi presidente do Iphan e eu, filho único, ia muito para a Bahia com ela. Aos 14 anos, li “Capitães de areia” em Salvador. Saía por lá sentindo todo aquele erotismo da Bahia. Salvador me fascina. A Bahia da novela será contemporânea e realista. Terei o terreiro de candomblé, o capoeirista e a elite. Será uma novela agridoce, colorida.

Qual a importância das vilãs nas suas novelas?

O vilão é o coautor das minhas novelas, me ajuda a contar a história. Agora é como se fosse um ser com duas cabeças. Laureta e Karola se complementam. Elas têm um lado de palhaças, por mais que a Laureta seja terrível. É uma pessoa com um sorriso no rosto e um amargor que você não enxerga de cara. Ela é promoter, tem essa coisa da máscara social.

Carminha também tinha duas caras, mas posava de santa. O que difere Carminha da Laureta? Teve pudor ao convidar Adriana Esteves para viver outra vilã após um papel tão emblemático?

As duas são muito diferentes. Carminha queria ser santa. Essa aqui é pecadora. Laureta é um ser livre, é promoter mas trabalha como cafetina de luxo. É uma diaba. Adriana poderá exercer um lado dela despudorado. Essa personagem tem uma conduta libertina que choca as pessoas. Fala para os meninos e as meninas que agencia que eles não podem ser tão caretas. E tem essa relação com a Karola, que já trabalhou para ela.

Filmagens da nova novela, com Vladimir Brichta e Deborah Secco - TV Globo/João Cotta / Divulgação

Em geral, seus personagens sempre são contraditórios...

Meus personagens têm essa ambivalência. Quando fiz o roteiro de “Central do Brasil”, Dora escrevia cartas para as pessoas analfabetas e não postava. Foguinho, de “Da cor do pecado”, era o empregado que se fazia passar pelo dono da loja. Em “A regra do jogo”, Romero era um bandido que queria ser um cara bom. Gosto dessa coisa Macunaíma, essa zona cinza da ética brasileira é sempre muito fascinante. Aqui tenho a história de um cara que será celebridade por acidente. Beto está quase no ostracismo, o aviãozinho que ele iria pegar cai, e a notícia da morte dele vira uma comoção. A própria Karola deu um golpe no Beto e vai traí-lo com o irmão dele, o Remy.

A novela vai estrear após “A força do querer” e “O outro lado do paraíso”, dois êxitos de audiência. Isso assusta?

Assusta bastante sim. Acho que posso fazer a melhor novela possível, mas não sei se vai dar 45 pontos de audiência.

“A regra do jogo” veio cercada de expectativa após “Avenida Brasil” e não fez o mesmo sucesso. Que avaliação faz?

Foi bem de audiência, mas não o que era esperado. Era uma novela ambiciosa artisticamente e tinha uma história muito masculina e atípica. Dialogava com a linguagem dos seriados. Tinha facção criminosa, diziam que os temas eram pesados e parecia uma continuação do “Jornal Nacional”. O autor de novela tem que ter uma antena para o seu tempo, mas ali as pessoas já estavam fartas da realidade. Por isso não repetiu o sucesso de “Avenida Brasil”. O momento histórico era outro também. Agora, estou voltando a fazer uma novela mais tradicional, mais feminina. Mas com a minha inquietação, buscando ganchos novos.

Até que ponto se pode contrariar a vontade do público?

Entendo o público querer uma coisa escapista diante de uma realidade tão insuportável. Novela não tem fórmula. Às vezes você tem que ceder e, às vezes, contrariar um pouco o público e matar um personagem que as pessoas amam. A TV não precisa ter um discurso tão direto e pode se aproximar mais do cinema. Para mim, fazer TV baseado em pesquisa de opinião é um caminho errado e perigoso. A TV mexicana, por exemplo, é feita por meio de pesquisa o tempo todo. E é sempre a mesma coisa.

Como lida com a pressão de escrever uma novela para o principal horário da TV?

Acho um milagre conseguir fazer novela. É um trabalho tão longo, tão desumano. Quando falam mal dos autores de novela eu defendo todos. Manter a audiência é uma guerra. O perigo de escrever uma telenovela é você não viver. Você dá mais de um ano da sua vida e pode se acostumar a não ter vida social. Quando faço novela, trabalho 14 horas, sete dias por semana. Você fica lendo só o próprio texto. A tendência é emburrecer.

Você começou como roteirista de cinema. Sente que passou a ter mais liberdade criativa na TV?

A TV estimulou a função do escritor. Sou bem mais crítico quanto ao trabalho com o cinema. Não quero mais escrever roteiro para outros diretores filmarem. O defeito do cinema nacional é não ter estimulado a profissão do roteirista. Aqui, o filme é do diretor, que, em geral, é também o produtor e o dono da bola que manda no jogo e apita. Lá fora, em geral, o produtor estipula os poderes do diretor e do roteirista. Como roteirista me sentia meio empregadinho. Mas tenho muita vontade de fazer um filme autoral, como autor e diretor. Também comecei a escrever um romance. Mas faço uma página por dia e de vez em quando.