Novelas

Minissérie 'Justiça' aposta em formato inovador e em histórias trágicas

Produção é bem diferente das obras ficcionais geralmente exibidas na TV, conforme adianta a autora

Agência O Globo
Sabe aquele tipo de história que você não pode dar uma piscada ou perde o fio da meada? Quando a minissérie “Justiça” estrear, no próximo mês, o público vai ter que ficar de olhos bem abertos para entender as instigantes tramas criadas por Manuela Dias, que têm direção de Luiz Villamarim. Com formato inovador, a produção é bem diferente das obras ficcionais geralmente exibidas na TV, conforme adianta a autora.
"Nós vamos contar quatro histórias independentes, porém, interligadas. Funciona quase como uma lasanha: dá para comer só uma camada de queijo e sentir o gosto, mas é comendo tudo junto que se tem a experiência do todo", compara Manuela. O trunfo para prender a atenção do telespectador pode estar justamente nessa inovação de modelo. Ao mesmo tempo em que as narrativas são avulsas, os personagens de uma trama estão ligados aos personagens das outras três. Em comum, todos enfrentam tragédias, que os fazem buscar justiça — ou seria vingança?
A linha tênue entre esses dois sentimentos é o que permeia o comportamento dos diversos protagonistas, que são colocadas em situações-limite. Sendo assim, uma atitude reprovável poderia ser justificada? "Acredito que todos nós somos capazes de tudo, de matar a perdoar", defende a autora. Cauã Reymond, ator principal de um dos dramas, endossa o discurso: "A minissérie nos convida a pensar sobre questões que envolvem ética, vingança, sentimentos tão humanos e controversos. As energias ficam mais carregadas quando se vive conflitos como esses na ficção. Mas chego em casa, vejo o sorriso da minha filha (Sofia, de 4 anos) e é o suficiente para me renovar", garante o ator, que dá vida a Maurício, advogado que pratica eutanásia na mulher. Sobre o tema, Cauã é direto: "a eutanásia é ilegal no Brasil e sou a favor de seguir a lei, sempre".
Manuela conta que a chama de “Justiça” acendeu dentro dela a partir de um caso verídico. "A moça que trabalhava na minha casa me pediu ajuda porque o marido estava preso por ter matado o cachorro do vizinho. Aquilo me deu um estalo sobre a vida particular das pessoas em relação às leis e punições. Ver aquela mulher à beira da devastação me mobilizou", recorda a autora, que colocou na minissérie essa catástrofe real. Quem protagoniza essa trama, aliás, é Adriana Esteves, na pele da doméstica Fátima. Apesar do caminho pesado que teve que trilhar para o trabalho, a atriz está inspirada pela personagem: "Mesmo vivendo uma desgraça, vejo Fátima como uma criatura cheia de amor e ética. Isso tem me feito bem".
As quatro histórias de “Justiça”, que serão contadas em 20 capítulos, vão ao ar às segundas, terças, quintas e sextas-feiras. Em cada dia será exibido o desenrolar de uma trama. "A gente nunca fez uma minissérie que termina na segunda-feira e só na outra segunda é que vamos saber o que acontecerá. O brasileiro está acostumado a ver amanhã os desdobramentos do capítulo de hoje", constata Villamarim, que confessa ter ficado preocupado com o entendimento do público: "mas, hoje, a gente achou um tom. A ideia é que o telespectador sinta que está descobrindo conosco esses acontecimentos".
Villamarim, que dirigiu “Amores roubados’’ com Pernambuco como cenário, mais uma vez, leva sua produção para o Nordeste — as cenas foram rodadas no Recife. "A gente precisa sair do eixo Rio-São Paulo, e o Nordeste tem uma brasilidade, resume tudo de bom e de ruim do Brasil. Recife é um lugar que tem muita horizontalidade, é espaçosa, dá uma solidão... Existe uma dramaticidade ali", justifica o diretor. Drama é o que não vai faltar. Debora Bloch, que vive Elisa, mulher arrasada pelo assassinato da filha, passa a minissérie mergulhada no peso dessa ausência. E na gana de se vingar.
"Está sendo bastante difícil lidar com esse sentimento. É uma personagem que me obriga a estar em contato com uma dor e um sofrimento muito profundos. Para mim, parece impossível perdoar o assassino de um filho". Nessa teia repleta de dores, conduzindo ao mesmo tempo tantos relatos densos, Villamarim acha difícil apontar qual deles seria o mais doloroso de encarar na realidade: "Essa obra é uma evidência de que a gente não controla nossa vida. Você acha que está no controle de tudo, até tomar uma rasteira... O destino dá uma virada que pode ser justa ou injusta. Para descobrir como aqueles personagens lidarão com essas situações, só assistindo à minissérie mesmo", provoca.