Novelas

Por que "A Força do Querer" virou uma paixão nacional?

Trama de Glória Perez registra melhor audiência entre as novelas do horário e vira queridinha entre o público

Naiá Braga (naia.braga@redebahia.com.br)
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Com a melhor audiência entre as novelas do horário das 21h dos últimos quatro anos, "A Força do Querer" se consagra como uma dos maiores sucessos da teledramaturgia nacional. No ar desde o dia 3 de abril, a sucessora de "A Lei do Amor", acumula média de 32.95 pontos de audiência, pelo Ibope, até o centésimo capítulo - que foi exibido no final de julho - valor sete vezes maior do que sua antecessora, que batia 25.72 pontos.

Bibi (Juliana Paes) já se envolveu Caio (Rodrigo Lombardi) antes ficar com Rubinho (Emílio Dantas) Foto:Reprodução/Gshow

Qual o segredo do sucesso da obra de Glória Perez? Para Amanda Aouad, doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, não há uma fórmula mágica, mas sim uma combinação de fatores que vão desde o uso de tecnologia até o merchadising social.

"Glória tem um perfil de buscar assuntos que estão em voga, como ciência e tecnologia ("O Clone", 2002), uso de drogas, psicopatia e, agora a questão da identidade de gênero e a discussão sobre pessoas transgêneros. Em alguns momentos, ela chega a ser didática demais. Sempre traz assuntos que a população quer entender ou discutir mais e não tem medo de usar aquilo que as pessoas chamam de brega. Existe coisa mais universal do que o amor? A novela tem muitos casais, ela não tem medo disso, de trocar, de deixar a coisa dinâmica", reflete. Para os internautas, a velocidade com que os problemas aparecem e se desfazem também configuram outro aspecto contributivo para o sucesso da trama. 


Folclore é representado na trama Foto: Reprodução/Gshow
Questionada por que a costura dos elementos é atraente para o público, Aouad aposta na combinação da realidade com fantasia, além do engajamento da autora nas redes sociais. "Glória usa o jogo do verossímel e do que seria inverossímel e a novela dá essa liberdade porque não é uma trama fechada.  O contrato feito com o telespectador se dá de uma maneira mais suave. O público tende a aceitar mais coisas que parecem impossíveis e ela vai lá e apresenta. Olha aqui a pessoa que é a transgênero ou a mulher que vive um amor bandido, ela existe. Além disso, ela é muito ativa nas redes sociais. Participa de fóruns de discussão, de debates, faz pesquisa, responde fã. Não dá para dizer que existe uma fórmula específica", aponta.
 

A "Força do Querer" traz discussões sociais como a questão da sexualidade através de personagens como Ivana (Carol Duarte),  que se descobre transgênero e as dificuldades vividas por Nonato (Silvero Pereira), ao realizar seu desejo de ser travesti. O amor de Bibi (Juliana Paes) por Rubinho (Emílio Dantas), que ultrapassa barreiras éticas e ganha força na criminalidade, o que provoca identificação também com a população carcerária do país. Em entrevista à Veja, Fabiana Escobar, que inspirou a criação da personagem de Juliana Paes, afirma que a novela é bem assistida entre o público."A cadeia inteira assiste, são todos noveleiros. Depois as mulheres dos presos, a mando dos maridos, me procuram no Facebook pedindo para contar o que vai acontecer no próximo capítulo", disse durante a entrevista à revista. 
Ivana (Carol Duarte) e Nonato (Silvero Pereira) discutem questões de identidade de gênero na trama (Foto:Reprodução/Gshow)
Para a pesquisadora, assim como em "O Clone", 2002,  "A Força do Querer" se destaca na audiência por abordar temas de maior interesse e proximidade com o público brasileiro, além disso, os autores passam por curvas em suas trajetórias profissionais, com momentos ascendentes e outros descendentes. Nesta perspectiva, "Salve Jorge" (2013) não teria alavancado, entre outros elementos, por que o tráfico de mulheres não se configura com um ponto do cotidiano das pessoas que acompanhavam a telenovela. "Acredito que "Salve Jorge" não tinha o apelo do cotidiano das pessoas, do dia a dia, de identificação. Existe a questão da curva, dos momentos em que o autor consegue usar elementos que dão certo de novo, às vezes funciona, em outros não", conclui.