Painel Atitude Digital

'A gente não sabe muito discordar uns dos outros', diz Luciano Andolini, do Papo de Homem

Painel Atitude Digital será realizado entre os dias 17 e 19 de agosto, na Caixa Cultural

David Silva (david.silva@redebahia.com.br)
- Atualizada em

Luciano Andolini é um artista multifacetado: compõe, canta, toca violão, grava vídeos e ainda arranja um tempinho para escrever sobre divagações do cotidiano no 'Papo de Homem'. O site é voltado para debate e dicas não só para o homem contemporâneo (como o nome sugere), mas para quem está aberto à reflexão. Ele conversou com o iBahia sobre carreira, inseguranças e sobre o momento do país. Ele estará presente no painel "Interações Sociais e Comunidades", que será realizado no domingo (19), no Painel Atitude Digital, na Caixa Cultural.

Foto: Reprodução

iBahia: Para você, o que é um "papo de homem"?

Luciano Andolini: Acredito que qualquer papo que uma mulher (cis ou não) ou homem (cis ou não) quiser ter.

Eu acho que vale mencionar que estamos num tempo diferente de quando o PdH surgiu. Na época, ainda fazia sentido em se falar de maneira mais definidora do que achávamos que era o papel de um homem. Quando o "Papo de Homem" começou, o fundador do portal ainda era bem jovem, acho que tinha uns vinte anos e, como é comum da fase, estava tentando entender suas dificuldades emocionais e, sim, tentando se afirmar, encontrando o próprio espaço. Daí, o nome, tendo um pouco essa carga.

Hoje podemos nos livrar dessas amarras e começar a tocar em feridas que aquela figura tradicionalmente reconhecida como  "homem" jamais teria coragem de tocar. Pra mim, isso é um avanço.

iB: Os textos publicados por você às vezes têm uma certa carga de discussão, por vezes positivas. Qual é a importância deles para a sociedade?

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Luciano: Não considero que os meus artigos sejam tão ou mais importantes do que muitos outros que já vi e vejo constantemente pela internet. O mundo não precisa de mim falando. Se eu não falar sobre o que falo, outras pessoas vão falar. De jeitos diferentes, provavelmente, mas ainda assim, vão falar.

Então, importância mesmo, nenhuma. hahaha

Mas de uma certa forma, acho que o meu grãozinho de areia nessa praia imensa é falar sobre a importância da gente se posicionar de forma a gerar benefícios onde quer que a gente esteja. Não numa jornada do herói ou numa cruzada pra salvar o mundo, mas com honestidade consigo próprio, autocuidado e carinho, pra gente seguir fazendo isso o máximo de tempo possível. 

iB: Vivemos um momento de tensão política, onde pessoas perdem amigos por opiniões divergentes. Qual é a importância do diálogo neste momento? Como os blogs podem ajudar em casos assim?

Luciano: Eu acho que é bem problemático o fato de que a gente não sabe muito discordar uns dos outros. Parece que existe em nós um instinto de que aquele que pensa diferente precisa "morrer", ser expurgado como um obstáculo. E não é bem assim.

Muitas vezes, o cara que pensa diferente é a melhor coisa que pode nos acontecer, por que ele é quem nos mostra nossas dificuldades e nos faz aquelas perguntas que quem concorda com a gente muitas vezes sequer é capaz de fazer. E isso é ouro. Permite com que a gente se aprimore, tende responder essas perguntas difíceis e, quem sabe, comece a chegar a lugares que nunca pensamos.

Eu acredito, de verdade, que uma postura não sectária é extremamente importante. Nós precisamos falar sobre isso, sim, mas acima de tudo, precisamos cultivar no nosso cotidiano esses espaços nos quais uma pessoa possa falar o que pensa. Porém, isso carrega um paradoxo o qual eu nem sei se cheguei a resolver em mim, que é: isso não quer dizer que precisamos deixar falar uma pessoa que, por meio da sua fala, destrói o espaço dos outros.

Penso que o bem comunitário é mais importante que o ganho pessoal. Claro que a gente também precisa criar mecanismos pra que esse bem comunitário  não se transforme em uma padronização doentia e apague as liberdades e caracteres individuais. 

No caso dos blogs, acho que eles podem contribuir sendo eles próprios microuniversos disso. Tendo boa moderação, tão ativa quanto for possível, evitando que discursos e posturas nocivas se proliferem. E, claro, produzindo conteúdo de qualidade, com informação feita para gerar benefícios e não apenas audiência. O que, sim, eu sei, é um paradoxo também bastante difícil de resolver, já que o alcance gera a principal forma de sustento: a publicidade.

iB: Algumas pessoas têm certa preguiça de ler textos e preferem assistir vídeos. Como você faz para que as suas criações sejam interessantes para o internauta?

Luciano: Honestamente, eu não faço nada (risos). Meu foco é justamente gerar bons textos pro cara que quer ler. Eu acho que esse cara sempre vai existir por que a texto escrito e o vídeo são formas extremamente diferentes de se criar e transmitir conhecimento. Tem coisas que o texto escrito faz que o vídeo não consegue fazer e vice-versa. Na minha humilde opinião, cada coisa tem seu lugar.

Eu acho mais positivo a gente produzir algo bom pra quem quer o que a gente tá oferecendo (que não é pouca gente, aliás), do que fazer um texto "ruim" ou descaracterizado pra quem não tá interessado, tentando gritar pra fazer ele notar a gente.

iB: Algum leitor já te procurou para debater sobre algum problema pessoal?

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Luciano: Sim, acontece bastante. Infelizmente, vivemos um tempo no qual as pessoas estão muito sozinhas. Então, quando elas enxergam alguém que está aberto ou que tem um ponto de vista que contribui pra vida delas, elas acabam procurando. Já recebi muita história de gente de todo tipo no meu e-mail. É uma pena que não consigo responder todo mundo.

iB: Você segue a risca todas as dicas que dá? Qual é a maior dificuldade na hora de fazer uma publicação?

Luciano: Eu nem sei se isso é importante! (risos)

Quando eu tô escrevendo um artigo, a responsabilidade não é só comigo, sabe? Claro que eu tento ser o mais fiel possível ao que sou capaz de fazer ou que já experimentei. A maioria gritante dos meus artigos vem de experiências pessoais, até por que, sem isso, é difícil fazer o conteúdo ressoar a nível humano. Não só gerar click e like, mas de gerar um impacto na vida da pessoa mesmo, dela levantar da cadeira e mudar positivamente algo por que viu que você falou sobre. Mas isso não é o Luciano. Não é que eu, como indivíduo, seja tão importante que sou capaz de fazer isso.

A questão é que, como humano, eu sou igualzinho a você. Eu tenho raiva, fico frustrado, acordo desanimado e tenho inúmeras vezes vontade de mandar todo mundo à merda. Então, se eu falo desse lugar, entendendo a minha própria humanidade, consigo posicionar a minha mente de maneira a gerar insights e meios hábeis úteis. Aí eu vou lá, experimento, erro, quebro cabeça e depois volto com experiências sobre as quais eu posso escrever. A questão não é nem se eu mandei a pessoa acordar às 5h da manhã. É mais que eu sei quais os prejuízos de não se fazer isso. Eu sei a dor que é não conseguir. Eu sei como é perder um dia remoendo um monte de pensamentos negativos que me impedem de levantar da cama.

E você também sabe disso! Você se sente como eu me sinto.

Falando desse lugar, a gente se comunica. E, se no meio disso, brota algo, a gente consegue ver se é ou não uma boa ideia, por que a gente tá no mesmo lugar. A conversa flui e a gente se transforma juntos. É mais sobre ir juntos do que sobre eu dar conta de fazer tudo perfeitinho, sem errar e ter a vida perfeita. Aliás, quem diz isso, provavelmente tá mentindo.

O Painel Atitude Digital será realizado entre os dias 17 e 19 de agosto, na Caixa Cultural. Você pode obter mais informações na página do evento.

*Sob a supervisão do repórter Luiz Almeida