Salvador

'A cultura da Bahia é rica e é o que prevalece em tempos de caos', diz Pedro Tourinho

Empresário soteropolitano de mais de 40 artistas, dentre eles Anitta e Regina Casé, ressaltou a força cultural da Bahia e de como ela dialoga com o mundo

Isadora Sodré (isadora.sodre@redebahia.com.br)
- Atualizada em

"A minha casa é a Bahia, mas o mundo é o meu lugar": os versos da música 'Voz Guia', de Roberto Mendes e Jorge Portugal, podem descrever com poucas palavras a trajetória do empresário soteropolitano Pedro Tourinho. Hoje ele está à frente de duas empresas do ramo do entretenimento Soko e MAP Brasil, que agenciam mais de 40 artistas, dentre eles Anitta, Regina Casé e Silva.

Tourinho passou por agências de publicidade, dirigiu programas de TV, produziu festivais de música e lançou carreiras de artistas nacionalmente e internacionalmente. Mas, na pandemia, decidiu voltar para a sua casa, em Salvador, onde também irá inaugurar um escritório. "A Bahia é o que me dá caminho para eu seguir pelo mundo", disse.

Foto: Divulgação
A ligação do empresário com a Bahia pode ser vista nos clipes dos cantores Anitta e Silva e no dia a dia que compartilha nas redes sociais. Além disso, as suas empresas estão à frente de projetos dos artistas baianos Danilo Ferreira, Danilo Mesquita, Batkoo e Rafa Dias.

Em entrevista ao portal iBahia, Pedro ressaltou a força da cultura baiana, de como as pautas identitárias globais colocam a Bahia em evidência e de como o talento dos artistas baianos se propaga em diversos países.

Pedro Tourinho é um dos palestrantes do Scream Festival que será realizado de forma digital nos dias 4 e 5 de dezembro. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas através do site.

Portal iBahia:O que o trabalho significa pra você? Você separa a sua vida pessoal da sua carreira?
Pedro Tourinho: Não separo, pra mim é a mesma coisa. Eu acho que a gente tem uma existência única e esta separação não faz muito sentido pra mim.

No início, quando foi para São Paulo, você sofreu muito preconceito por ser baiano?
Existe uma marca grande dos publicitários baianos no mercado. Por um lado é bom, por um lado é ruim. Como eu discordo da maioria das posturas desse publicitários hoje, então eu tentei me distanciar um pouco disso, embora tenha muita comparação com eles. Não vou dizer que atrapalhou nem que ajudou, sabe? Eu acho que a gente entra em uma caixinha, em uma classificação. Acho que todo mundo tem que se tornar independente disso.

E porque você acha que esses episódios de preconceito acontecem tanto assim?

A humanidade compara, não tem uma resposta tão objetiva pra isso. As pessoas comparam, as pessoas agrupam, criam relações pra poder entender melhor. É por isso que acontece. E também porque os publicitários baianos da década de 90 tiveram um papel muito importante na comunicação, no marketing político, no marketing de varejo... Que eu sinceramente procuro me distanciar, porque isso já tem muito tempo.

Há alguns anos atrás, não se ouvia tanto falar sobre a Bahia, podemos até dizer que ela estava 'apagada'. Atualmente, o estado está muito mais valorizado. Foi gravada a novela 'Segundo Sol' em Salvador, Anitta também gravou dois clipes aqui, o número de turistas aumentou... Por que você acha que a Bahia deu essa 'virada'?
Estes dois projetos você citou eu estou envolvido. Além dos clipes, eu trouxe aqui o autor do novela para conhecer o Santo Antônio Além do Carmo, ele já queria fazer a novela em Salvador, mas eu dei uma base pra ele. A cultura popular da Bahia é muito rica e é o que prevalece em tempos de caos, de extremismo político, de econômica difícil. Durante um tempo a gente teve uma cultura popular muito oprimida pela cultura de massa, a cidade também teve gestões anteriores complicados. Eu acho que veio um gestão positiva, tanto no governo, quanto na cidade, com políticos que trabalham. A gente vê muitas realizações na cidade, isso ajuda com o que o estado caminhe e vá pra frente.

A cultura popular da Bahia sempre se manteve viva e hoje ela, ao meu ver, se conecta com algumas narrativas globais ligadas à cultura diaspórica da África. Eu acho que as narrativas da Bahia se conectam com outras narrativas que ganharam muita relevância globalmente, graças a Deus.

O trap, que é uma música forte aqui na Bahia emergente, se conecta com o trap do mundo. O afrobeat, o pagodão que a gente vê no 'Me Gusta', uma coisa que eu sempre acreditei, que dialoga com outros ritmos do mundo, mais do que o axé music, inclusive.

Acho que a gente está chegando no momento de integração da cultura da Bahia com essas narrativas globais que eu acredito que um tempo atrás não era possível, por não existirem essas narrativas globais com tanta força. Isso também aconteceu porque a música na Bahia ficou restrita a um pedaço da indústria só.

Essa força das pautas culturais e identitárias valorizam ainda mais a cultura baiana?
Totalmente. Salvador é uma das cidades referência da cultura negra no mundo, então ela se conecta com uma outra rede, para além do geográfico. O Batkoo que surgiu aqui no Nordeste de Amaralina, já tocou no Brooklyn (EUA), na África do Sul. Larissa Luz toca na França,  BaianaSystem toca em Moscou (Rússia), no Japão.


Você considera que o baiano precisa enxergar melhor a sua própria cultura?
Eu não gosto de 'cagar' essa regra, sabe? Dizer o que o baiano tem que ver ou o que não tem que ver. Não gosto de falar isso. Eu acho que está aí pra quem quiser ver, quem quiser potencializar, quem quiser aproveitar e trabalhar nisso. Não vou dizer que é fácil, a gente sabe como os artistas independentes na Bahia sofrem, mas eu acredito que estamos em um momento favorável.

O que significa a Bahia para você?
A Bahia pra mim é a minha casa o meu caminho também. As duas coisas estão super interligadas. É de onde eu vim, onde eu moro hoje e é o que me dá caminho pra eu seguir pelo mundo.

Tem algum lugar aqui da Bahia que você gostaria de indicar para que as pessoas possam conhecer?
Eu acho que Cachoeira precisa ter uma atenção, as pessoas precisam conhecer Cachoeira.

Tomando como exemplo os dois clipes de Anitta gravados em Salvador, de que forma você acha que a cultura da Bahia pode agregar para a imagem de um artista?
Seja na autenticidade que a cultura daqui tem, a energia ancestral que tem aqui. É um lugar que tem um axé muito forte e possui muita energia de realização. É uma base de produção cultural que dialoga com o mundo inteiro. A Bahia dialoga mais com o Brooklyn (EUA) do que com São Paulo (SP). Para um artista internacional, a Bahia e o Rio de Janeiro são os dois lugares que conversam com o mundo.

Como é definida a locação de um clipe?
Quem faz a criação da maioria dos clipes é minha sócia, Marina Morena,  que também é baiana. A ideia para clipe de 'Bola Rebola' aconteceu quando a gente estava assistindo um show de Xênia França no Museu de Arte Moderna (MAM). Ela olhou pro lado, para a Gamboa, e disse: 'eu vou fazer o clipe de Anitta ali'. A gente conhece os lugares, a gente tem essas referências.

A gente coloca as coisas na mesa e ela (Anitta) pode gostar ou não. Mas fazer as coisas aqui tem dado muita sorte pra ela. Além dos clipes, fizemos a apresentação dela do Prêmio MTV Miaw no forte São Marcelo.

Além da locação de um clipe, vocês também contratam o trabalho de pessoas que moram na cidade?
A gente sempre busca fazer isso. Às vezes temos mais abertura, às vezes menos. Mas, em geral, sempre trabalhamos com produtores locais no time, integrando com artistas locais, somos preocupados com a narrativa local também. Neste três eventos que citei antes, tem muita coisa da Bahia envolvida, integrada.

Há alguns anos atrás você deu uma entrevista e disse que o Carnaval precisava de algumas mudanças. Hoje você considera que a festa evoluiu? Acha que ainda precisa de alguma outra transformação?
Eu acho que ainda tem muita coisa a ser feita, mas o Carnaval está evoluindo bastante. Não sabemos como vai ser a festa do próximo ano, mas quem sabe será uma oportunidade de experimentar outras coisas. O principal, que era acabar com as cordas dos blocos, o próprio mercado tratou de fazer. Ainda está presente, mas deixou de ser a marca principal do Carnaval.

Tem outros tipos de amarrações que podem ser melhoradas. Eu acho que a ida do Carnaval para Praça Castro Alves de volta para o centro me pareceu um caminho para 2021. Eu acho que agora é muito isso é ainda mais incógnita  devido a pandemia.

O setor do entretenimento foi um dos mais impactos com a pandemia do novo coronavírus. Quais foram as estratégias que vocês usaram e estão  durante este período?
Com os artistas que a gente trabalha nós fortalecemos o modelo de shows online, de lives e de apresentações virtuais. Estabelecemos outros tipos de relações com marcas e empresas publicitárias para garantir engajamento neste período. Priorizamos coisas que dariam receita ao invés de outras. A gente está conseguindo passar por isso, obviamente teve um impacto grande, mas com os artistas que a gente trabalha nós fomos reformulando para conseguir passar por esse ano com um saldo não tão negativo.

Você acha que alguma dessas práticas adotadas durante este período podem ser levadas adiante?

Eu acho que a questão das apresentações digitais monetizadas pode ser continuada e já tem caminho pra isso. Finalizamos a produção da série da Anitta para o Netflix e o disco do Silva de forma completamente remota. Isso é uma coisa que não existia antes. Estamos trabalhando home office e não iremos voltar por agora.

Você acha que o futuro foi  'antecipado' por causa da pandemia?
Eu acho que na pandemia é difícil falar de futuro. Outro dia vi uma matéria interessante falando sobre isso. A gente passou muito tempo falando em futuro, mesmo antes da pandemia. A pandemia fez que o futuro ficasse menos relevante nesse sentido.


SERVIÇO
Scream Festival 2020 – Chega de normal
Quando: 4 e 5 de dezembro, de 9h às 18h.
Onde: transmissão online.
Inscrição: gratuita, via www.screamfestival.com.br.