Salvador

A Voz dos Bairros: o conflito entre a tranquilidade e a agitação do comércio do Caminho das Árvores

Dividido pelo verde da natureza e as construções comerciais, o bairro tem perdido muitos moradores

Flavia Vasconcelos (redacao@portalibahia.com.br)
- Atualizada em

 

Os anúncios de aluguéis e construções de edifícios podem ser vistos em várias casas e postes, ao longo do bairro

Placas anunciando “Aluga-se” têm dividido espaço com a paisagem bucólica do loteamento Caminho das Árvores, hoje considerado bairro, localizado em região nobre de Salvador. Isso porque a tranquilidade do lugar que abriga casas espaçosas, muito verde, ruas largas e o silêncio deixando espaço para o canto de pássaros, está cada vez mais acuada pela chegada de empreendimentos comerciais e edifícios, como escolas, pequenas empresas e lojas de artigos domiciliares. Com essa mudança, muitos moradores estão se rendendo à especulação imobiliária e deixando suas casas, em busca de mais privacidade.

Para Luciano, o progresso desordenado tem expulsado os moradores

De acordo com o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea), nos últimos dois anos foram registrados 310 novos estabelecimentos comerciais no bairro, dado este que pode ser conferido na prática pelo servidor público, Luciano Teixeira, 51, morador há 15 anos da Rua Guillard Muniz, local onde, segundo ele, tem sido ocupado por casas comerciais de forma desordenada. “Tem dia que não consigo chegar em casa, porque a rua é utilizada como estacionamento. O tal do progresso desordenado está expulsando os moradores.”, afirmou, indignado.



Atrativos do bairro ainda resistem

Moradores usufruem da Praça dos Eucaliptos, para fazer caminhada nos finais de tarde

Embora com muitas queixas, os moradores ainda conseguem aproveitar a boa localização e infraestrutura do bairro, como a Praça dos Eucaliptos, grande atrativo para quem gosta de fazer caminhada. É o caso do aposentado João Moisés Rocha, 65, morador há 12 anos, e frequentador assíduo da praça nos finais de tarde. Para ele, o Caminho das Árvores é um dos melhores lugares para se morar em Salvador, e com a chegada do comércio, a realidade poderá ser outra, bem diferente. “O bairro é próximo de tudo, bom nível de segurança, abastecimento de água satisfatório, fácil acesso ao transporte, mas as lojas estão chegando, e com elas estão vindo o trânsito complicado e insegurança”, conta.

"Tem dia que não consigo chegar em casa", afirma o morador Luciano Teixeira



A natureza, bastante generosa no local, foi homenageada com os nomes dados às 17 alamedas que compõem oficialmente o Caminho das Árvores. Para cada uma, um nome de uma planta, como as alamedas das Espatódeas, Framboesas e Algarobas. A limpeza também é um ponto positivo no bairro, e que pode ser testada na Praça dos Eucaliptos, para onde os moradores costumam levar seus cachorros para que sirvam de companhia durante a caminhada. Não se vê dejetos dos animais no chão, podendo passear, sem se preocupar. As casas, todas juntas, dão o ar de interior, onde todos se conhecem e interagem com seus vizinhos, sem restrições. 

“A essa altura não tem mais como voltar a ser residencial”Enquanto alguns moradores exigem a saída dos empreendimentos comerciais do bairro, há quem lute para que não haja mais limites de construção de prédios e estabelecimentos comerciais na região. A química Iara Vinhais, 58, é uma das moradoras que defendem a abertura. Há 15 anos residindo na Alameda Mulungus, um dos locais não permitidos para construção de estabelecimentos comerciais, ela vem acompanhando de perto a chegada agressiva do comércio  na vizinhança e diz que não acredita que o Caminho das Árvores volte a ser como antes.  "A essa altura não tem mais como voltar a ser residencial, então é melhor que libere logo, porque estamos ilhados! Não tenho mais privacidade na minha casa, com prédios construídos ao redor”, diz a moradora.


Para Iara, a solução está na liberação do bairro para o comércio 

Segundo Iara, a presença dos imóveis no bairro vem desvalorizando as casas, tornando-as quase cinco vezes mais baratas, dando prejuízo aos que se interessam pela venda ou aluguel de suas residências. Munida de fotos, documentos e pesquisas na internet, a química afirma que, em breve, entregará  o material à Superintendência de Ordenamento e Uso do Solo do Município (Sucom), responsável por supervisionar e planejar o cumprimento das normas relativas ao ordenamento do uso e ocupação do solo da cidade. “Vou mostrar para eles que o bairro já deixou de ser residencial”, afirma.A liberação para a construção de prédios e comércio em todo o bairro também é defendida pela turismóloga Júlia Valverde, moradora do bairro há três anos. Segundo ela, a abertura será bem vinda ao bairro, no entanto, deve haver fiscalização efetiva dos órgãos competentes. “Eu sou a favor do progresso bem feito. É só saber administrar que não trará prejuízo para a gente”, afirma.

A origem do conflito

O logradouro foi criado para fim exclusivamente residencial.  Antes, somente a Alameda das Espatódeas, que liga as avenidas Tancredo Neves e Paulo VI, era a única liberada para atividades comerciais, concentrando grande número de lojas de decoração para casas. Um dos pontos mais polêmicos do projeto de revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), aprovado pela Câmara de Vereadores e sancionado pelo prefeito João Henrique em 2008, foi a liberação de “atividades não residenciais” em quatro ruas do Caminho das Árvores: a rua do Timbó, e as alamedas Cajazeiras, Seringueiras e Umbuzeiros, que passaram a ser consideradas como corredor, onde ambos os lados e nas esquinas são permitidas as presenças de estabelecimentos comerciais.

A nova decisão criada pelo PDDU já foi amplamente discutida  e criticada pela Associação dos Moradores do Loteamento Caminho das Árvores (AMLCA), desde 2006, porém, até hoje nada foi modificado.