Salvador

Capital terá novos centros de atendimento à mulher

Novos espaços de referência serão criados no Subúrbio e em Cajazeiras

Thais Borges (thais.borges@redebahia.com.br)

As paredes pintadas na cor lilás - símbolo do movimento feminista na luta pela igualdade de gêneros - do Centro de Referência de Atendimento à Mulher Loreta Valadares, nos Barris, são um dos indicadores de que aquele território é só delas.  E o espaço de acolhimento, que recebe vítimas de violência doméstica, vai ganhar companhias: com datas de inauguração previstas para julho e dezembro de 2017, dois novos centros de referência serão instalados no Subúrbio Ferroviário e em Cajazeiras, respectivamente.

De acordo com a superintendente de Políticas para as Mulheres do Município, Mônica Kalile, um dos objetivos da novidade é justamente descentralizar os serviços que, até então, são oferecidos apenas no Loreta. “São casas de suporte para a mulher. O grande problema é o julgamento, quando a mulher é vitimizada. Então, fazemos uma escuta não julgadora em que a mulher se fortalece”, explicou Mônica Kalile.

Homenagens

Assim como na primeira casa, criada há 11 anos, as duas novas unidades vão homenagear mulheres que lutaram contra a violência de gênero ou pelo empoderamento feminino: a professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Ana Alice Alcântara Rocha, uma das fundadoras do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim), falecida em 2014, dará nome ao centro do Subúrbio, enquanto Jardilina Oliveira, alfabetizada aos 50 anos e militante dos direitos das mulheres negras, ficará com o de Cajazeiras.

Ainda não há um local definido, mas a Superintendência de Políticas para as Mulheres (SPM) já analisa imóveis nas duas regiões – no caso do Subúrbio, o ideal é que seja próximo à Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher (Deam) de Periperi. O atendimento, como no Loreta Valadares, vai envolver uma equipe multidisciplinar. Na casa dos Barris, são quatro assistentes sociais, duas psicólogas, uma pedagoga e uma advogada.

Reformada

“Nós (na SPM) nos articulamos propondo políticas para as mulheres, mas também fazemos o trabalho de enfrentamento à violência. Hoje, temos duas salas para empreendedorismo, para trabalhar a autonomia, temos atendimento especializado para idosas, gestantes, cadeirantes...”, listou, referindo-se à reforma pela qual a sede do Loreta passou em 2013.

Antes disso, o espaço funcionava na Federação. De acordo com a SPM, o centro estava a ponto de fechar, uma vez que o proprietário do imóvel tinha solicitado a devolução. Desde a mudança para a nova sede até junho deste ano, foram 7.149 atendimentos, além de 8.862 participantes de atividades de prevenção - palestras, rodas de conversa, seminários.

Não há necessidade de agendar atendimento. Às vezes, diz Mônica, tudo que uma mulher vítima de violência quer é conversar – e ela pode fazer isso até mesmo por telefone, através do número (71) 3235-4268. O local funciona das 8h às 18h, de segunda a sexta-feira.

Acolhimento

Mas a rede de assistência não se resume aos centros de referência – ainda que a maior parte da demanda pelos serviços seja pelos de enfrentamento à violência, segundo a superintendente. “Não teve um minuto de descanso, seja pela restruturação do Loreta, seja pela implantação de um serviço pioneiro, que é a casa de acolhimento”, afirmou.

A casa, batizada em homenagem à beata Irmã Dulce, foi inaugurada em maio e tem vagas para até 30 mulheres, que podem ir acompanhadas de seus filhos com idades até 12 anos. Para lá, são encaminhadas as vítimas de violência familiar ou de tráfico de pessoas. Por segurança, não há nenhuma pista do local e nem pode ser informado quantas mulheres recebem atendimento. 

“É para aquelas mulheres que precisam denunciar e não têm para onde ir. É temporário, porque muitas faziam a solicitação de medida protetiva e tinham que voltar para casa. Depois, fazemos o encaminhamento, por exemplo, se a mulher vai precisar entrar no Provita (programa estadual de proteção à testemunha)”, explicou a superintendente, que  cita ainda políticas sociais e programas como Minha Casa Legal e Morar Melhor, “nos quais as mulheres são as principais beneficiadas”, como exemplos de ações do Município no apoio às vítimas.

Deams da capital

As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams) recebem a maior demanda, entre os serviços oferecidos pela rede de assistência à mulher na Bahia. Em toda o estado, são 15 unidades, duas delas na capital – uma em Brotas, outra em Periperi. Este ano, a delegacia de Periperi já registrou 1.222 ocorrências de violência contra a mulher (594 de lesão corporal). Em Brotas, foram 3.709 casos, totalizando quase 5 mil denúncias no ano.

Para a secretária estadual de Políticas para as Mulheres, Olívia Santana, o desenvolvimento da rede no estado ainda é recente. “Não é só a questão das Deams, mas um conjunto de equipamentos que estão chegando ao estado agora. O primeiro centro de referência (Loreta Valadares) foi em Salvador e tem mais tempo, hoje estamos em cinco (na Bahia)”, diz ela,  citando ainda a Ronda Maria da Penha da PM como um exemplo desse enfrentamento.

Segundo ela, há um planejamento de construção de outras três novas Deams no estado – mas, diante do cenário de crise econômica, o projeto ainda não tem prazo para acontecer. Mesmo assim, a SPM estadual recebeu, este ano, o aporte de R$ 500 mil, em emendas parlamentares, para a capacitação de profissionais da rede – especialmente, no Sul do estado. “Ontem (anteontem), estivemos em Ilhéus apresentando a caravana (Cravos e Rosas) e esse projeto, que pretendemos iniciar em novembro”, afirma. A Caravana Cravos e Rosas, lançada no mês passado, envolve a mobilização de um dia de oficinas, palestras e prestação de serviços.

Correio24horas