Salvador

Comprar pela internet vai ficar mais caro a partir de terça-feira

Correios anunciaram reajuste de frete; aumento chega a 31,49% na Bahia

Donaldson Gomes e Gil Santos, do Correio 24h
- Atualizada em

Toda vez que precisa comprar um sapato, uma roupa ou um celular, a estudante de Letras Alice Santana, 27 anos, recorre à internet. O casaco novo chegou no começo do mês, após um clique em um site do Rio Grande do Sul. Ela acha mais prático e barato comprar assim, mas, a partir da próxima terça-feira (6), a praticidade vai custar mais caro. Os Correios anunciaram um aumento no valor do frete que está deixando consumidores, pequenos empreendedores e até um gigante do e-commerce, como o Mercado Livre (ML), preocupados.

Alice Santana, que está montando loja virtual, terá de recalcular custos (Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

Apesar de os Correios anunciarem um aumento médio de 8% nas tarifas, um levantamento do Mercado Livre indica um reajuste bem maior. Segundo o site de vendas, o reajuste médio no país é de 23%, chegando a 51% em determinadas localidades. Aqui na Bahia, o maior aumento é de 31,49%, no caso do PAC (encomendas simples), que passam de R$ 16,79 para R$ 22,06, em pacotes com até meio quilo.

O envio de sedex para cidades do interior, como Porto Seguro e Juazeiro, fica até 24,47%, passando de R$ 36,70 para R$ 45,68, em embalagens entre 300 gramas e meio quilo. O envio para Salvador ficará até 15,88%, passando dos atuais 27,27% para R$ 31,60.

O reajuste pegou algumas pessoas de surpresa, apesar de os Correios afirmarem que o mesmo acontece todos os anos. Em nota, os Correios informaram que o reajuste não é somente para o e-commerce (compra e venda pela internet), mas para os serviços de encomendas de forma geral, e que trata-se de uma revisão anual, prevista em contrato.  “A definição dos preços é sempre baseada no aumento dos custos relacionados à prestação dos serviços, que considera gastos com transporte, pagamento de pessoal, aluguéis de imóveis, combustível, contratação de recursos para segurança, entre outros”, diz.

Impacto negativo
O microempresário Daniel Bastos, 25, é dono da Akade Punch, uma loja virtual geek (especializada em venda de produtos ligados ao universo dos super-heróis e quadrinhos). Ele lembra que a maior parte dos fornecedores desse segmento estão em São Paulo.  Ele recebeu a notícia do reajuste com surpresa  e disse que já tem adotado algumas estratégias para tentar diminuir custos.
Consumidores criticam a qualidade do serviço (Foto: Arquivo CORREIO)

“Tenho um irmão que mora em São Paulo. Toda vez que ele vem para Salvador pedimos para trazer alguns produtos. O mesmo acontece quando vamos viajar, aproveitamos para trazer algumas mercadorias. A gente também tem procurado fornecedores mais próximos”, diz.

Ele usa os serviços dos Correios desde que a loja dele foi inaugurada, e que esse é um hábito que desenvolveu antes mesmo de ter um empreendimento, quando comprava produtos pessoais pela internet. Para os especialistas, o costume deve ser repensado.

O analista técnico do Sebrae Anderson Teixeira sugere que os empreendedores busquem alternativas. Ele recomenda a busca de empresas especializadas em logística e avaliem se é mais barato continuar usando o serviço dos Correios ou substituí-lo.

“Existem empresas especializadas em entregas, com diversos associados. São empresas que têm logística própria e, por isso, não são afetadas pelo reajuste dos Correios”, afirmou o consultor.
Especialistas orientam empreendedores a procurarem alternativa (Foto: Arquivo CORREIO)

E-commerce em alta
Anderson Teixeira lembra que o segmento de e-commerce está em crescimento na Bahia. Durante a Black Friday, o Nordeste é responsável por 12% das vendas no país. Apesar do aumento, os Correios ressaltam que a parceria com o e-commerce brasileiro é de extrema importância para a empresa, que essa relação permite a micro, pequenas e médias empresas, reduções de preço que chegam a mais de 30% no Sedex e 13% no PAC.

Mas o alerta do Mercado Livre, uma das maiores empresas do setor em operação no Brasil, mostra que há grande insatisfação com a operação dos Correios. Em nota, a empresa questiona: “Se a inflação do último ano foi em torno de 3%, como pode o aumento da taxa de entrega chegar a ser até dezessete vezes maior?”.

Segundo o ML, após o aumento, o frete brasileiro se tornará 42% mais caro do que o da Argentina, 160% mais caro do que do México e 282% mais caro do que o da Colômbia – para falar de outros países em que o Mercado Livre opera.

Outra bronca da empresa é com o cancelamento do e-sedex, que permitia a entrega de produtos do e-commerce com prazos mais curtos e a preços mais acessíveis. Para o Mercado Livre, o impacto do aumento anunciado pelos Correios será grande para os consumidores dos grandes centros urbanos, mas ainda maior para os que vivem fora dessas regiões.

A estudante Alice Santana, que além de cliente do e-commerce pretende montar uma loja virtual com o noivo, diz que precisará calcular novamente as despesas. “O serviço dos Correios já é caro e não é bom”, lamenta. “Não posso repassar esse reajuste para os clientes, pelo menos não os 8%. Vou ter que arcar com a maior parte desse valor”, afirma.

Pelas contas do Mercado Livre

    31,49% é o aumento nos custos para o envio de encomendas simples (PAC) pelos Correios.
    R$ 22,06 será o valor cobrado para o envio para as cidades baianas, como Feira de Santana, Vitória da Conquista, ou Salvador, por exemplo.
    51% será o reajuste máximo no valor das encomendas simples, praticado na chamada rota 16, o que inclui municípios nas regiões Norte e Nordeste do país, como Fortaleza (CE), Recife (PE) e Rio Branco (AC).
    23% será o reajuste médio praticado no Brasil, pelas contas do Mercado Livre. De acordo com nota enviada pelos Correios, o percentual de aumento praticado será menor, de 8% em média.

Taxa de violência
Outra novidade anunciada pelos Correios, depois do reajuste de 8% no valor das encomendas no país, foi a criação de uma taxa extra para cidades cujo índice de violência é considerado alto. Em nota, a empresa disse que os moradores do Rio de Janeiro terão que pagar R$ 3 a mais pelas encomendas, e que essa cobrança já é praticada por outras transportadoras brasileiras desde março de 2017.

“Conforme amplamente divulgado pelos veículos de comunicação, no Rio de Janeiro a situação de violência chegou a níveis extremos e o custo para entrega de mercadorias nessa localidade sofreu altíssimo impacto, dadas as medidas necessárias para manutenção da integridade dos empregados, das encomendas e até das unidades dos Correios”, diz a nota.

Ainda segundo os Correios, a cobrança extra poderá ser suspensa a qualquer momento, desde que a situação de violência seja controlada. Já o reajuste de 8% vale para os objetos postados entre capitais e nos âmbitos local e estadual, que representam a grande maioria das postagens realizadas nos Correios.

Os consumidores questionaram o valor. Para a fotógrafa Vanessa Ramos, 29 anos, o reajuste foi abusivo. “Sempre compro meus equipamentos pela internet porque existem poucas lojas especializadas em Salvador, e os valores são sempre absurdos. Pela internet é muito mais barato. O serviço dos correios é caro e demorado. Reajuste, pra mim, só se justifica se eu ver melhora no serviço ou nas condições de trabalho dos funcionários. Acho que não é o caso porque eles fazem greve direto”, afirmou.

O analistas técnico do Sebrae, Anderson Teixeira, acredita que que uma das consequências do reajuste será o aumento no número de empresas de entrega de encomendas no país. Para quem está em dúvida do que fazer uma alternativa é pesquisar na internet as chamadas e-marketplaces. "O mercado das empresas de logística deve crescer porque elas irão em busca dos empreendedores. Esse será o momento ideal para esse crescimento", afirmou.