Salvador

Conheça gente que trabalha dia e noite para garantir o bem-estar de quem já foi ou perdeu alguém

Profissões como coveiro, segurança de cemitério, cerimonialista funerária e médico

Daniel Silveira* (daniel.silveira@redebahia.com.br)
A perda de alguém querido é momento delicado para qualquer um. Nessas horas, sempre tem um profissional por perto, responsável por tornar aquela ocasião o menos dolorosa possível. O BAZAR conversou com alguns deles: um coveiro, um segurança noturno de cemitério, uma cerimonialista de funeral e um médico cardiologista. A gente conta as histórias, como foram parar lá e a relação deles com o “único mal irremediável”.

Com 21 anos trabalhando como coveiro, Edson Silva comemorou prêmio soprado por morto
Foto: Angeluci Figueiredo/CORREIO




Pagode, fita amarela e cachaça

Jazigos, arte sacra e muitos gatos cercam a vida de Edson da Silva há 21 anos. Ele, que carrega um bigode alvinegro, é o coveiro responsável pela Quadra 8 e pela Galeria de Ossuário do Cemitério do Campo Santo, na Federação. Varrer, enterrar e exumar são as atividades que cumpre, mas de vez em quando surgem alguns bicos cemiteriais.

Foi numa dessas que Edson descobriu que sua relação com os mortos era mais estreita do que ele imaginava. Convidado a ajudar a colocar uma lápide, ele viu a pedra de mármore escorregar em direção a sua cabeça e indagou ao habitante do cova: “Seu Edvaldo, quer me dizer alguma coisa?”. Seu Edvaldo respondeu no mesmo dia. Com os 2 reais da gorjeta, Edson apostou no jogo do bicho o número 4095, inscrito no túmulo, e ganhou R$ 5.600. Não teve festa, mas, pelo menos, teve dívida paga. Comemoração ele quer no dia do seu enterro: “Pagode, fita amarela e cachaça”. É que Edson não teme a morte, nem lápides. O que realmente deixa o homem assustado é o mundo dos vivos. “Tenho medo é da porta pra fora”, disse enquanto direcionava os olhos para o portão esverdeado que fecha o cemitério.

Márcia Fernandez, cerimonialista, decora igreja e velório para grandes eventos
Foto: Angeluci Figueiredo/CORREIO





Maquiagem e música

Exceto pela playlist na qual não pode faltar Roberto Carlos, Márcia não quer no próprio enterro quase nada do que os seus clientes pedem: velas, pompas ou grandes arranjos. O que ela realmente deseja é o batom retocado, o cabelo alinhado e as bijuterias no lugar. Márcia Fernandez - que tem a sobrancelha pintada e carrega um pingente em homenagem às filhas e à neta, trabalha há cerca de um ano e meio com cerimônias fúnebres. A oportunidade de negócio surgiu quando uma mulher procurava na Funerária Campo Santo, empresa da família, um enterro diferenciado para o seu tutelado. Por que não? A ousadia de Márcia rendeu uma missa de corpo presente com tantos arranjos que mais parecia um casório. Enquanto isso, o morto repousava em um caixão luxuoso que custou o preço de um carro seminovo: R$ 25 mil.

A empresária conta que, depois de ter um câncer de mama, passou a ver a vida de outra forma. Isso a motivou a continuar enxergando lucro onde alguns nem imaginam: nas despedidas. Entre o trabalho na Paróquia Nossa Senhora da Vitória e na funerária, compartilha a vida com o marido Manolo, se mostra disposta a inovar e carrega o mantra: “A gente tem que se preparar para morrer”.

Nas rondas noturnas pelo Campo Santo, Alex só encontra gatos e baratas
Foto: Angeluci Figueiredo/CORREIO




Na companhia dos cães

Diariamente, Alex Pinheiro chega ao Cemitério do Campo Santo quando todo mundo já está indo embora. Para quem não tem costume, pode até parecer assustador, mas não para ele. “A gente tem que ter medo é dos vivos”. A responsabilidade dele é tomar conta dos jazigos e túmulos junto com outros colegas seguranças, há oito meses. “No início, fiquei assustado, mas hoje em dia é de boa”.

Entre 7h da noite e 7h da manhã, Alex é responsável por fazer ronda nas 21 quadras do cemitério. Mas ele não fica sozinho nessa empreitada. Além de outros dois colegas, tem a companhia de quatro cães: Lorde, Maradona, Marlo e Champ. “São os melhores amigos do homem, né?” De vez em quando rola um susto ou outro, ele conta. Mas nada além do vento nas árvores, que são muitas, folhas no chão, gatos caminhando entre os túmulos ou baratas e morcegos voando baixo. Nada que a luz da lanterna não afaste. Ocorrência, mesmo, só quando alguns menores invadiram o lugar correndo da polícia. “A gente soltou os cachorros, a polícia prendeu alguns e outro fugiu”.  Fora isso, tudo descansa em paz.

A perda da esposa faz o médico cardiologista  Mauricio Nunes falar sobre morte com saudade: “Foi minha esposa e amante” Foto: Angeluci Figueiredo/CORREIO
Saudade e amor

O trabalho do médico é salvar vidas, mas a única certeza da vida chega para qualquer um. Muitas dessas vezes é ele quem tem que dar a notícia para quem fica. O cardiologista Mauricio Nunes, do Hospital Português, já passou por essa situação algumas vezes. “Não é fácil, pessoas são insubstituíveis”. Mas quando o assunto é morte, ele prefere falar da saudade. Segundo ele, médicos precisam se ater a isso quando vão dar a notícia para quem perdeu um ente querido. Ele mesmo passou pela situação quando sua esposa faleceu. “Perdi quem mais amei na vida, minha esposa, minha amante, que me deu três belos filhos. Quando ela era viva, nossa relação era carnal, mas agora é espiritual”. A decisão de ser cardiologista, inclusive, veio depois de uma perda. O pai infartou e ele resolveu que não deixaria seus amigos também perderem os pais. “Desde então, já evitei a morte de alguns pais e mães”. Quanto a ele, diz não temer a morte, mas prefere que ela demore a chegar. Aos 70 anos, espera ainda poder se divertir com os dois netos e um terceiro que está a caminho. “Peço que Deus me dê um pouco mais de tempo pois  tenho uma missão que são meus netos”. *Colaborou Maryanna Nascimento, integrante da 11ª turma do Correio de Futuro
Correio24horas