Salvador

Em entrevista, prefeito ACM Neto faz balanço de 2015 e revela planos para novo ano

Para o prefeito, o destaque de sua administração em 2015 foi o investimento no social

Oscar Valporto (oscar.valporto@redebahia.com.br)
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Em meio ao acompanhamento do Réveillon na cidade, o prefeito ACM Neto fez um balanço para o CORREIO dos três anos de gestão e, particularmente, sobre 2015. O sucesso do Réveillon, para Neto, tem um significado simbólico porque atesta a recuperação da cidade. "Salvador voltou a ser referência no país". Para o prefeito, o destaque de sua administração em 2015 foi o investimento no social: 19% do orçamento aplicado em saúde e quase 28% em educação, além de projetos na área de habitação e infraestrurua. ACM Neto prevê um 2016 difícil mas garante que a prefeitura está preparada. 




ACM Neto no seu gabinete: satisfação com a nova fase de Salvador e preocupação com o cenário político e econômico (Foto: Betto Jr/CORREIO)


No plano nacional, o democrata defende que - seja qual for o resultado do processo de impeachment - a oposição apresente uma agenda para o Brasil superar a crise, com medidas no Congresso e diálogo nas ruas. "A presidente Dilma não tem capacidade e liderança para conduzir a virada. A oposição precisa apresentar sua agenda para o Brasil". Após três anos, o que o senhor considera a principal marca de sua gestão?

A principal marca é a recuperação da cidade. Salvador voltou a ser uma cidade respeitada, referência no Brasil. Quando tomei posse, eu disse que o primeiro dever era botar ordem na casa, sanear as finanças do município. E depois faríamos um grande projeto de obras e investimentos em serviços públicos em Salvador. E isso aconteceu. Vemos isso pelo Réveillon que fizemos, com destaque no Brasil inteiro, com turistas de todas as partes do mundo. E quando a gente se lembra que, de 2012 para 2013, a cidade não teve nem festa de Réveillon, dá para se ter uma ideia, simbólica, de como Salvador realmente avançou.   No começo de 2015, o senhor fez mudanças na estrutura da administração e em peças da equipe: qual sua avaliação sobre as mudanças e o balanço sobre o trabalho em 2015?

As mudanças foram muito positivas. Conseguimos nestes três anos dar um corpo à nossa equipe. Ao contrário do passado, quando tinha-se um entra e sai absurdo de secretários, agora temos uma continuidade,  uma lógica de administração. O que fala mais alto é a equipe. Não são as pessoas nesta ou naquela área e, sim, o conjunto. Quais foram as prioridades?

Eu anunciei no começo de 2015 que nós íamos priorizar duas áreas. Uma era a educação e nós conseguimos dar um salto extraordinário com o projeto Combinado. E a área habitacional em que nós conseguimos implementar o Morar Melhor, uma marca da nossa gestão que, até o fim de 2016, terá atendido mais de 20 mil famílias. Eu destacaria que 2015 foi o ano do social. Os números são contundentes. Nós vamos fechar o ano com uma aplicação de 19% do orçamento na saúde. Na Educação, quase 28% do orçamento aplicado. Há alocação de recursos, há prioridade nos projetos e de obras. Na inauguração da Barra, fiz uma comparação: toda a despesa da prefeitura com recuperação da orla chegará perto de R$ 200 milhões. Só em 2015, nós colocamos a mais - acima da nossa obrigação legal - na saúde e na educação R$ 260 milhões. Somente em um ano. Isso mostra o peso do investimento social que a prefeitura vem fazendo. E o momento mais difícil de 2015?

O momento mais desafiador foi enfrentar a chuva histórica na cidade: há décadas não acontecia uma chuva tão intensa. Mas, se por um lado foi um momento complicado, por outro foi um momento de superação, de afirmação da capacidade da prefeitura de gerenciar e enfrentar situações críticas. Do ponto de vista financeiro, nós colocamos, naquele momento, R$ 100 milhões de em recursos próprios. Conseguimos dar uma resposta rápida e criamos uma rede de proteção e auxílio às famílias, inédita na história da cidade. No passado, o maior número de beneficiários do aluguel social da prefeitura chegou a 800. Em 2015, no período crítico, chegamos a 8.600 beneficiados com o aluguel social. Foi o momento mais crítico, mas foi também o momento de afirmação da capacidade de resposta da equipe.


2016 vai ser um ano de aperto econômico. Há projetos novos ou a prioridade é a conclusão do que está em andamento?

Nós estamos nos preparando para ter um ano de 2016 mais difícil do que foi 2015. As consequências da crise econômica são ainda imprevisíveis. Por isso mesmo, baixei aquele decreto com uma série de medidas de contenção de despesas. A minha lógica é gastar menos com a prefeitura e mais com a cidade. Asseguro que todas as obras que foram iniciadas até 2015 serão entregues e os recursos estão garantidos. No primeiro semestre, vamos entregar a ligação Cajazeiras/Valéria/BR-324, a Estação da Lapa, a reforma do Rio Vermelho, a ligação de Cajazeiras 10 e 8, a recuperação da Avenida Suburbana, quatro novas UPAs, além de escolas, creches e postos de saúde. E há projetos novos?

Temos projetos engatilhados que a prefeitura já decidiu que vai fazer em 2016. Temos o hospital municipal, que é o maior de todos, o conjunto habitacional do Barro Branco, o projeto da Cidade de Plástico, a duplicação do número de vagas em creches e pré-escolas e os centros de educação integrada, que as obras já começaram mas vão tomar corpo agora em 2016.


Esse aperto financeiro pode comprometer eventos como o aniversário de Salvador?

De maneira nenhuma. Mas, por exemplo, nós limitamos os gastos em 2016 com todos esses eventos ao que foi gasto em 2015. Cada um terá que cortar o que pode ser cortado, sem comprometer o evento, para garantir isso. A gente tem conseguido, graças à consolidação dos eventos e ao porte que eles ganharam, patrocínios privados. Três grandes empresas nacionais patrocinaram o Réveillon. No Carnaval, vamos ter quatro grandes patrocinadores. No Festival da Cidade, também vamos correr atrás de patrocínio. O PDDU já está na Câmara e a nova Louos está a caminho...

Vamos mandar o projeto da Louos no começo de fevereiro junto com a mensagem de início de ano para o Legislativo. O senhor acha que esses novos instrumentos terão impacto imediato?

Terão impacto logo que forem aprovados. Eles vão trazer novos contornos conceituais, com a descentralização das oportunidades econômicas e aproximação do trabalho da moradia. E no mercado imobiliário, quando cheguei à prefeitura, havia um estoque de 14 mil imóveis na cidade; o estoque hoje é de aproximadamente 3 mil. Isso tem um significado ruim e um significado bom. O negativo é que nós vivemos a maior crise do mercado imobiliário de todos os tempos. O lado positivo é que, com o novo PDDU e a nova Louos, Salvador pode sair na frente: ser pioneira no pós-crise. Espero que, com a aprovação dos projetos pela Câmara ainda no primeiro semestre, os entes econômicos possam se preparar para, em 2017, Salvador se beneficiar desse pioneirismo para termos muitos novos empreendimentos na cidade. Quais as preocupações para um  ano eleitoral?

Felizmente, o Congresso aprovou a diminuição das campanhas eleitorais, que agora só começam em agosto. A gente ganha mais tempo para pensar só na cidade sem se contaminar pelo calendário eleitoral. Eu não tenho tratado de eleição nem com meus colaboradores mais próximos. A regra aqui é trabalho, trabalho, trabalho. Eleição é consequência do trabalho. Na minha equipe, existem dois candidatos naturais - os vereadores Tiago Correa (presidente da Limburb) e Heber Santana. Eles dois e mais qualquer outro secretário ou dirigente que queira disputar eleição devem sair até o fim de março. Essa é a nossa regra. E, para mim, quanto mais demorar para começar a eleição, mais feliz eu vou ficar.


Mas o senhor é candidato à reeleição naturalmente?

Eu não assumi isso ainda. Se estabeleci como regra não se falar em eleição na prefeitura, não posso assumir uma candidatura. Isso vai acontecer no momento adequado. Comenta-se muito sobre possíveis candidatos a vice na sua chapa em 2016: como o senhor está vendo isso?

A composição da chapa, caso eu decida ser candidato, vai ser decidida em colegiado, com os aliados políticos e partidários. É natural que a imprensa especule nomes, mas eu não posso especular mesmo porque Salvador tem uma vice-prefeita, minha parceira Célia Sacramento, que é um dos nomes que poderão ser examinados para a chapa.


E, do ponto de vista nacional, quais as suas expectativas para 2016 como liderança política?

É um ano que começa com muita turbulência na política e na economia, turbulência essa que pode aumentar ou diminuir a depender da agenda do Brasil pós-discussão do impeachment. Espero que no fim de março o Congresso tenha terminado esse processo. Superado esse momento, nós precisamos construir uma agenda para o Brasil menos focada na disputa política e mais voltada para a superação das dificuldades econômicas. Eu tenho dito a outras lideranças da oposição: qualquer que seja o resultado do impeachment, a oposição precisa construir a sua agenda para o país. Se eventualmente  o PT ou outros partidos governistas concordarem com a nossa agenda, nós não temos que deixar de apoiar tais medidas. Nós estaremos sendo coerentes. O preço da coerência quem está pagando - e vai continuar pagando - é o PT, que cometeu em 2014 o maior estelionato eleitoral da história do Brasil. O que será preciso para isso?

Eu espero que os políticos tenham muita maturidade neste ano porque vem um calendário eleitoral. O Brasil pagará um preço altíssimo se a gente não vencer esse processo do impeachment com uma agenda de retomada do país, da economia, da normalidade institucional. Se a agenda pós-impeachment for crise e mais crise, amplificada pela disputa eleitoral, nós podemos perder o ano de 2016 todo como perdemos 2015.


Como seria essa agenda para o Brasil?

Vou advogar que, superado esse debate do impeachment, a gente construa essa agenda. Isso passa pela aprovação de um conjunto de medidas no Congresso que, eventualmente, possam unificar governo e oposição. Isso passa pela movimentação dos líderes nacionais da oposição pelo Brasil porque a realidade do Congresso é muito diferente da realidade das ruas. E se a presidente Dilma for mantida no cargo pelo Congresso?

A oposição não deve jogar no quanto pior melhor.  Dilma não tem capacidade nem liderança para promover essa virada no país. A oposição precisa construir uma agenda para o país para que o governo possa aderir a essa agenda e votar essas medidas no Congresso.

Correio24horas