Salvador

Experiência flagra assédios a repórter nas ruas do Centro de Salvador

Ao longo de todo esse período, gravamos — com três câmeras, simultaneamente — o percurso feito por Iasmin

Thais Borges (thais.borges@redebahia.com.br)
Para dar uma ideia (aos homens) do que as mulheres passam — e sentem — ao sofrer um assédio,     CORREIO fez um experimento por cerca de 40 minutos pelas ruas de Salvador. Já que a rua é o principal lugar onde as mulheres são assediadas, acompanhamos a repórter Iasmin Sobral em andanças pela Barroquinha e pelo Comércio.

A rua foi o resultado encontrado a partir dos relatos no mapa da campanha Chega de Fiu Fiu, quando identificamos os locais onde as mulheres mais são assediadas. Em dezembro, ainda como parte do especial O Silêncio das Inocentes, o CORREIO anunciou uma parceria com a Chega de Fiu Fiu, da ONG Think Olga.

Desde então, o mapa da campanha, que reúne cerca de 3 mil denúncias de assédio sexual no país, está também em nosso site. A rua aparece em 1.405 denúncias — fora aquelas que citam a “calçada” (243 casos), “esquinas” (160) ou “avenidas” (140).

Logo em seguida vem “casa” – 1.011 assédios envolvem esse local. No ônibus, foram 931 vezes. Por isso, quando recebe um assédio — uma cantada, um “fiu fiu” — enquanto anda na rua, a maior parte das mulheres sente medo e não vê como elogio.

“O que gera o medo do assédio é o medo do estupro. Existe uma relação muito próxima, porque é uma violência que nós nos sentimos sujeitas”, explica a gerente de conteúdo da campanha, Luíse Bello. Segundo uma pesquisa realizada pela Think Olga em 2013, 83% das mulheres não gostam de receber cantada.

Ao longo de todo esse período, gravamos — com três câmeras, simultaneamente — o percurso feito por Iasmin. Foram muitos olhares, viradas de pescoço e até homens que davam alguns passos para tentar acompanhar a repórter por mais tempo.

“Quando passei, dei três passos e todos os caras olharam para mim. Alguns fizeram uma gracinha, mas, no geral, olhavam feio. Parecia que estavam tirando sua roupa. Você se sente constrangida”, contou Iasmin.

Assista ao vídeo 'Um dia pelas ruas de Salvador'



Alguns chegaram a falar com ela, usando termos como “bonita”, “linda” e “princesa”. “Linda”, inclusive, é um dos  adjetivos mais utilizados nos assédios na rua, também segundo as denúncias ao Chega de Fiu Fiu. Ao todo, foram 128 ocorrências. Só perde para “gostosa”, que foi o que 341 mulheres escutaram. O terceiro lugar é ainda mais indigesto: “puta”, a palavra escutada em 62 situações de assédio.

Para a coordenadora do Observatório da Lei Maria da Penha, Márcia Tavares, o assédio sofrido pela repórter é um reflexo de uma cultura que não percebe a mulher como sujeito. “Ela é percebida como objeto. O corpo da mulher é visto como um objeto sem a possibilidade de dizer sim ou não”, explicou.

Colaboraram Amanda Palma, Iasmin Sobral e Giulia Marquezini
Correio24horas