Salvador

Falta de iluminação em obras da Via Expressa facilita ação de bandidos

Pedestres que são obrigados a passar pelo local relatam muitos casos de assalto na região

Rafael Rodrigues (rafael.rodrigues@redebahia.com.br)


Escondido no escuro, sozinho, o repórter por um momento tornou-se uma ameaça para a jovem que passava com a mochila nas costas. Irriquieta, com passos acelerados e olhando para trás e para os lados quase que simultaneamente, ela apertou ainda mais o passo quando percebeu que o rapaz agora a seguia. A intenção era tentar entrevistá-la, saber o porquê de tanto medo, mas o chamamento em voz alta, a tentativa de identificar-se como jornalista já não fez efeito.


A cena ocorreu à noite, na avenida Glauber Rocha, que liga a Heitor Dias à Cidade Nova, Baixa de Quintas, Caixa D’Água e IAPI. Debaixo dos viadutos da inconclusa obra da Via Expressa, apenas um refletor ilumina um trecho. Outro pedaço, com cerca de cem metros, fica no completo breu. Nas frestas entre as colunas de sustentação dos viadutos não é possível ver se há alguém. E por elas há rotas de fuga para um pequeno campo de futebol.


"Aqui há muitos assaltos, não dá para passar tranquilo. A gente só passa aqui em grupos. Ela tava sozinha, não ia ficar para ver, né?", disse o balconista de farmácia Michel Aragão Machado, 22, que mora na Cidade Nova e viu a cena.


Ele explica que os assaltantes preferem pessoas que passam desacompanhadas, de preferência mulheres. "Tem esse espaço vazio aí dentro (entre as vigas) e é aí que eles ficam", disse, antes de seguir caminho.


Sozinho novamente, foi o repórter quem se  assustou com uma abordagem inesperada de alguém que apareceu do nada.


"Meu velho, você é da imprensa?”, perguntou o morador Fábio Zuanes, 33, auxiliar de almoxarifado. “Não sei por qual milagre você não foi assaltado ainda. Saia daí!", aconselhou.


Em seguida, próximo a uma barraquinha iluminada, ele disparou a relatar problemas decorrentes da obra: "Além de deixar escuro, tiraram o ponto daqui. É também  sujo. Quando chove, faz lama, ninguém consegue sair de casa", disse.


Lama
No início da Ladeira do Paiva, na Estrada da Rainha, escuridão e lama também são os desafios da manicure Fabiana Lemos, 35. "Todos os dias ouvimos gente contando de assalto", reclamou. "Eu e minha filha de 8 anos estamos com doenças respiratórias. É muita poeira que entra em casa e quando saímos é esse ambiente. Parece  guerra", disse ela, que mora na Baixa de Quintas.


Do outro lado da rua, Carlos Henrique Dias, 31, decorador, lembra que o problema é antigo. "A falta de respeito de quem faz a obra com quem mora por aqui é antiga, tem mais de dois anos, somos tratados feito bicho", disse.


O CORREIO solicitou à Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado (Conder) uma entrevista com o responsável pela obra. O órgão, todavia, respondeu só por e-mail e atribuiu a falta de iluminação à "ação de vândalos, responsáveis pelo furto de equipamentos, como cabos, fios e lâmpadas".


Isso foi há uma semana. Ontem, nossa equipe voltou ao local, no mesmo horário, e o problema continua. Em nota, a PM respondeu apenas que o policiamento na área é realizado pela 37ª CIPM, "que diuturnamente emprega quatro viaturas em rondas ostensivas e abordagens na localidade, contando ainda com apoio da Rondesp, da Gêmeos e da Operação Apolo".


Obra
Com 95% das estruturas físicas prontas, a previsão da Conder é de que a Via Expressa seja entregue completa no final de setembro, ligando o Acesso Norte ao Porto. Serão abertos os trechos finais da Estrada da Rainha e os túneis de acesso ao Comércio, na altura da Soledade. Quando foi lançada, em junho de 2009, tinha prazo para entrega em 26 meses, ou seja, 2011.


Segundo a Conder, o atraso  se deveu a "interferências externas, como as greves ocorridas no setor da construção, períodos intensos de chuvas, bem como o alongamento do processo de desapropriação de alguns imóveis".Matéria original: Correio 24 horas

Falta de iluminação em obras da Via Expressa facilita ação de bandidos