Salvador

Feira de atrasos: em São Joaquim, reforma da área de boxes está um ano atrasada

Remodelação de São Joaquim, um espaço de 40 mil m², terá investimento aproximado de R$ 60 milhões

Victor Uchôa (victor.uchoa@redebahia.com.br)
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Junto com o pai, Anderson Madureira tem duas bancas de legumes na Feira de São Joaquim. Em tese, deveria estar trabalhando no Galpão Água de Meninos, espaço provisório montado para abrigar os trabalhadores enquanto a feira é gradualmente reformada pelo governo estadual.
Primeira fase de boxes era para estar pronta há um ano, mas a Conder agora promete para novembro (Foto: Robson Mendes)


Mas, alegando “prejuízo total”, Anderson optou por voltar para a área de São Joaquim que ainda não fechou para obras. Sua queixa acompanha o calendário. Iniciada em janeiro de 2012, a reforma já está um ano atrasada.  
“Tivemos que alugar uma banca aqui na feira mesmo. No galpão, não vai ninguém, a gente não vende nada”, afirma ele, sem saber quando retorna ao p


A cargo da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Bahia (Conder), a remodelação de São Joaquim, um espaço de 40 mil m², terá investimento aproximado de R$ 60 milhões e foi dividida em três etapas. Duas foram cumpridas, mas a terceira emperrou no caminho.
A primeira etapa foi a adequação de um espaço para receber os feirantes provisoriamente. Então, em dezembro de 2011, ficou pronto o Galpão Água de Meninos, cedido pela Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba). Ao lado, fica o Pátio dos Grossistas, área de carga e descarga onde agora há feirantes.  
A segunda etapa do projeto, também já concluída, previa dragagem e reestruturação da enseada da feira, onde aportam embarcações com mercadorias. Ali, também foi instalado um píer flutuante.     
Problemas 
Já a última etapa, de maior interesse dos feirantes e apontada pelo próprio governo como a mais importante, prevê a remodelação de todo o “miolo” de São Joaquim – a área de comércio. 
Essa etapa foi dividida em sete fases. O projeto executivo prevê que em cada fase um espaço da feira seja fechado para obras e os trabalhadores passem para o galpão, num esq
Insatisfeito no galpão, Anderson resolveu alugar banca na ‘velha’ feira (Foto: Robson Mendes)
 Os primeiros 500 feirantes a migrar, que originalmente atuavam perto da enseada, chegaram ao galpão em janeiro de 2012. Na época, ouviram a promessa de que retornariam a seus postos num prazo de seis a oito meses, ou seja, até agosto do ano passado. Um ano depois, ainda esperam. 
“O governador Jaques Wagner esteve aqui e disse que esta obra era uma prioridade, mas não é isso que nós vemos”, reclama Marcílio Costa, presidente do Sindicato de Feirantes e Ambulantes de Salvador (Sindifeira).  
O CORREIO esteve duas vezes na obra durante a última  semana e encontrou boxes ainda sem acabamento e piso sem pavimentação. Os mercados de peixes e animais vivos sequer saíram do papel. No espaço onde eles serão construídos há apenas o buraco da fundação. 
Há cerca de um mês, o presidente da Conder, José Lúcio Machado, chegou a afirmar que a primeira fase ficaria pronta em setembro. 
Mas, na quarta-feira passada, o coordenador institucional da Conder na obra, Francisco Sampaio, admitiu que não é possível cumprir tal prazo. “A obra ainda não está no ritmo que nós gostaríamos, mas agora melhorou. Acredito que entre final de novembro e início de dezembro deste ano entregamos a primeira fase”, avaliou Sampaio. 


Junto à enseada ainda será erguido um mercado de animais vivos (Foto: Robson Mendes)

Segundo ele, a obra sofreu com a falta de recursos, pois somente este mês a Caixa Econômica Federal liberou os R$ 29 milhões disponibilizados pelo Ministério do Turismo para a reforma.

“Tivemos problema de fluxo de caixa. O dinheiro demorou de sair por problemas no projeto. É uma obra complexa, realizada sem que a feira feche. Compreendo a queixa dos feirantes, mas pedimos um pouco mais de paciência”, disse.  
Angústia
Em visita à obra, na quarta-feira, o secretário estadual de Turismo, Domingos Leonelli, revelou que a Cesta do Povo em frente à feira será esvaziada para ser criado mais um espaço provisório para os feirantes. Assim, será possível tocar duas fases da reforma ao mesmo tempo, deslocando os feirantes para a Cesta e para o galpão. 
“A demora é mesmo angustiante, mas agora temos o dinheiro em caixa para acelerar. As dificuldades estão sendo superadas”, argumentou Leonelli, sem, no entanto, apontar se a Cesta do Povo será deslocada ou ficará fechada durante a obra de São Joaquim.
O projeto prevê que a feira terá novas redes de esgotamento, água, energia e gás, além de um sistema de prevenção e combate a incêndio. O objetivo é construir 923 boxes e reformar 416. Segundo a assessoria da Conder, todas as fases da obra serão concluídas até dezembro de 2014.

Feirantes apontam prejuízo
Pascoal da Farinha diz que, no galpão, só vende dez sacos por semana (Foto: Robson Mendes)





Eles alegam que os compradores não vão até o espaço provisório, pois já encontram o que desejam na parte da feira que ainda não foi fechada. “No meu ponto, vendia entre 35 e 40 sacos de farinha por semana. Aqui, é uma média de 10 sacos. E só porque sou antigo, já tenho meus clientes certos que vêm sabendo que estou aqui”, conta Pascoal Antônio da Silva, o Pascoal da Farinha, 75 anos.

Com 61 anos de feira, somando a extinta Água de Meninos e São Joaquim, ele não esconde o descontentamento. “Ninguém é contra a obra, mas essa demora está acabando com a gente”, lamenta. “Já estou com a mão na cabeça. A venda aqui (no galpão) caiu muito”, emenda Gabriel de Oliveira, que aponta um decréscimo de 70% nos ganhos do seu boxe, o Tend Tudo, após a migração.

Entretanto, há muito protesto também nas áreas da feira onde as obras ainda não chegaram e a desordem é total. “A gente quer que ajeite logo. Está tudo sujo, uma bagunça, mas se a primeira parte não acabou, imagine pra chegar aqui!”, vislumbra José João Santana, que vende verduras na Rua da Linha da Máquina.

O feirante Manoel da Conceição é ainda mais pessimista. “Agora, tem duas feiras (a velha e o galpão). Vai ser pior quando tiver três”, opina, lembrando que, quando a primeira fase ficar pronta, os feirantes serão divididos entre o galpão provisório, a parte nova e a velha - com a obra no meio.

Mudança de empreiteira e falta de recursos causaram demora
O atraso na reforma da Feira de São Joaquim foi causado por falta de recursos e também porque a empreteira foi trocada no meio do caminho, de acordo com a Conder. Após o primeiro processo de licitação, a contrutora NM, que ganhou o direito de realizar o serviço, desistiu da obra. “Alegaram que não tinham condições de fazer”, lembra Francisco Sampaio, coordenador da obra pela Conder.
Feirantes reclamam do fraco movimento no Galpão Água de Meninos (Foto: Robson Mendes)


Como a Caixa Econômica Federal só liberou os R$ 29 milhões do governo federal este mês, os serviços já realizados foram custeados pelo estado. Para a adaptação do Galpão Água de Meninos e do Pátio dos Grossistas e a remodelação da enseada foram investidos cerca de R$ 20 milhões, segundo a Conder.

Os serviços na primeira fase do “miolo”, porém, contaram com poucos recursos. Em dezembro de 2011, um material de divulgação da Conder previa que a reforma completa da feira seria finalizada no primeiro semestre de 2014.

Em janeiro deste ano, também num material de divulgação da autarquia, o prazo já é dezembro de 2014. No mesmo material, a entrega da primeira fase é prometida para junho último, o que, como se vê, não ocorreu.

Matéria original: Jornal Correio
Feira de atrasos: em São Joaquim, reforma da área de boxes está um ano atrasada