Salvador

Festa de Iemanjá: fiéis escolhem datas alternativas para celebrar a Rainha do Mar

Na praia do MAM e em Itapuã, moradores optaram por momentos diferentes do 2 de fevereiro para demonstrar fé e devoção

Naiá Braga (naia.braga@redebahia.com.br)
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Para muitas pessoas, o momento de presentear a Rainha do Mar nem sempre será no tradicional 2 de fevereiro e nas águas das praias do Rio Vermelho. Para moradores e frequentadores da comunidade do Solar do Unhão, as oferendas para o orixá acontecem no último domingo antes do 2 de fevereiro e com pré-requisito especial: a escolha de presentes sustentáveis. Com o nome de 'Oferendas Ecológicas para Iemanjá', a ação é uma parceria entre moradores e pescadores da comunidade do Solar do Unhão, o Coletivo de Entidades Negras (CEN) e o Museu Street Art de Salvador (MUSA). Este ano, o presente foi entregue no dia 27 de janeiro.

Presente ecológico é feito há seis anos na localidade
Foto: Reprodução/Ivanildo Viana 

Júlio Costa, grafiteiro e cenógrafo do Museu Street Art de Salvador (MUSAS), que integra o movimento, revela que o presente foi criado de maneira despretensiosa há seis anos." A gente (grafiteiros estava pintando uns barcos e começamos a nos aproximar dos pescadores, fizemos até um café da manhã para eles. E um dia vimos um manequim boiando na praia do Solar do Unhão, demos uma fibra e, Marcos Rezende, que é do candomblé, e tinha uma casa na comunidade sugeriu que a gente sacralizasse a peça", relembra.

A ideia de oferecer presentes que não agredissem o meio ambiente veio a partir de uma reflexão sobre poluição e a inspiração ganhou força com a declaração de Mãe de Stella de Oxóssi, em 2015, de oferecer cânticos ao invés de oferendas materiais."A ideia do balaio ecológico foi se ampliando e os pescadores participam, a comunidade participa, fazemos café da manhã. Todo mundo se ajuda. Queríamos oferecer um presente que não poluísse o mar mais ainda.", afirma Júlio. A organização religiosa dos eventos fica sob o cuidado de Nóelia Pires, equede do terreiro Omi Tolá e coordenadora estadual do Setorial de Religiões de Matriz Africana do  Coletivo de Entidades Negras (CEN), que explica a escolha do que vai nos balaios. "Colocaram em minhas mãos, eu sempre coloco aquilo que é dado pelo orixá e aquilo que os peixes podem comer e que não vai agredir a natureza", esclarece Noélia. 

Moradores e pescadores entregaram o presente em janeiro
Foto: Reprodução/Ivanildo Viana 

Para Marcos Rezende, ativista do Coletivo de Entidades Negras (CEN), optar por presentes ecológicos nas oferendas para Iemanjá tem relação direta com os princípios das religiões de matrizes africanas. "O candomblé é o equilíbrio entre a energia do meio ambiente e das demais energias visíveis e invisíveis. É preciso lembrar o quanto meio ambiente impacta nas decisões cotidianas. Se Iemanjá, que são as águas, que é minha mãe, como eu vou tratá-la? Com presentes, mas também com canções, com os pés na água, contemplando o mar", reflete o Ogan do Terreiro Ogan e Ojuobá do Ilê Axé Oxumarê.

Águas de Caymmi
Quem já não ouviu sobre as belezas do mar através das letras de Dorival Caymmi? O bairro de Itapuã, presente também nas letras do compositor, ainda guarda as tradições de saudar a Rainha do Mar. O convite de um amigo pescador transformou a rotina da dona de casa, Gildete Santana Mendes dos Santos. "Garão disse que só confiava a mim para fazer o presente. Eu questionei, disse que não era mãe de santo, não era nada. Ele ia colocar graxas(flores) numa caixa de sapato e então, eu aceitei fazer. Um pequeno balaio, mas com muito amor", relembra. 

 Presente é realizado na segunda-feira após Lavagem de Itapuã
Foto: Reprodução/Albenisio Fonseca

Desde 2001, o presente a Iemanjá organizado por dona Gildete, conta com a participação de moradores do bairro e é realizado sempre na segunda-feira após a Lavagem de Itapuã. Mesmo sem o mesmo apoio de pescadores, ela conta que a organização do evento tornou-se um compromisso pessoal. "Fomos aumentando o presente, fizemos uma associação, apareceram mais pescadores e fizemos um presente maior. Só que um ano, eles deixaram de mão.E eu sou muito agradecida ao orixá, se veio para mim, eu vou continuar", conta emocionada. Mesmo com

Foto: Reprodução/Albenisio Fonseca
a situação financeira comprometida por dois anos, dona Gildete diz ainda a dedicação e o carinho pelas oferendas não muda. "Eu tiro do meu salário. Fiquei dois anos sem fazer o presente, mas sempre busco correr atrás de realizar o presente e esse ano farei um arrastão e um baile para arrecadar dinheiro para fazer a festa", conta animada.