Salvador

Festa de Iemanjá: história, fascínio e racismo religioso

iBahia conversou com devotos do orixá, historiadores e religiosos para contar sobre a tradição da festa e as polêmicas da atualidade

Naiá Braga (naia.braga@redebahia.com.br)
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"Quanto nome tem a Rainha do Mar? Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá". Os versos conhecidos na voz de Maria Bethânia exaltam as muitas representações de Iemanjá, divindade africana da nação Ketu, em diferentes correntes culturais do Brasil. Na Bahia, a festa para saudar a entidade é sempre realizada no dia 2 de fevereiro, no bairro do Rio Vermelho. O que poucas pessoas sabem é que a escolha da data tem origem conturbada."Existia um presente para Mãe D'Água, que surgiu após um dos pescadores consultar os búzios para entender a falta de peixes e na mesma época havia uma festa para Nossa Senhora de Santana no bairro. Os pescadores iam à igreja para abençoar a pescaria. Em um dado momento, cada um foi para o seu lado e a festa de Santana voltou a ser celebrada em julho, como prevê a Igreja Católica", explica o historiador Jaime Nascimento. 

Festa reúne milhares de pessoas nas ruas do Rio Vermelho
Foto: Reprodução/Secom

Marca cultural brasileira, o sincretismo religioso, que associa santos a orixás, desaparece nos festejos que saúdam Iemanjá, que datam do decorrer do século XIX e eram realizados em diversos lugares de Salvador. Diferente de outras festas religiosas populares da Bahia, a divindade africana é cultuada sem correspondes na Igreja Católica, como aparece com a festa do Senhor do Bonfim (associado a Oxalá) e de Nossa Senhora da Conceição da Praia (relacionada a Oxum). O historiador Rafael Dantas destaca que as celebrações do 2 de fevereiro ganharam popularidade nas décadas de 40 e 50 do século XX. "Além da força das tradições religiosas ligadas ao candomblé e seus seguidores, muitas personalidades, políticos, artistas, estudiosos e intelectuais, entre eles Pierre Verger, passaram a destacar a importância da festa", pontua.


'Sereísmo' e apropriação
A figura da mulher com rabo de peixe sempre exerceu fascínio e curiosidade entre muitas pessoas e é daí que o historiador Jaime Nascimento acredita que a festa tenha caído também no gosto popular. "Nas três culturas, temos a mulher que tem o rabo de peixe. Na cultura europeia, há a sereia como divindade que seduzia e provocava a morte dos marinheiros, há a Iara para os povos indígenas a Iemanjá para a cultura africana", pontua. A incorporação de elementos religiosos ligados ao orixá gera divergências.
Questionado se a prática, sobretudo pela moda, pode ser considerada profanação, Nascimento pondera. "Quando na moda usam a sereia, dentro da ideia europeia, de figura mítica, tudo bem. Ali não há relação com a religião. É diferente de Iemanjá que tem um viés religioso e as pessoas não podem ficar brincando com isso. Há uma culpa do povo do candomblé que permite que essas coisa aconteçam, desde as apresentações folclóricas, até pessoas vestidas como orixás recepcionando pessoas em portas de hotel. Não é um extremismo, mas a liberdade de expressão tem esse limite de não mexer com o sagrado do outro", alerta o especialista.
Para Marcos Rezende, Ogan e Ojuobá do Ilê Axé Oxumarê, a incorporação dos elementos deve ser feita de maneira responsável. "Um ponto é quando uma pessoa tem uma devoção tão grande, ao ponto de se sentir parte riqueza que são as águas de Iemanjá, pode significar, como é para a pessoa que é devota do catolicismo, que usa adereços, camisas, objetos de Jesus, de Maria, uma forma de devoção da sua fé. Outra coisa é quando esse comportamento pertence a um grupo, vira uma moda que pega esses elementos do sagrado e usa de forma irresponsável.Eu não sou fã da expressão 'apropriação cultural'.Todo mundo que é religião de matriz africana sabe que, independente da pessoa ser do candomblé, ela tem orixá, inquice, vodum. Vivemos num mundo onde tudo vira moda e as individualidades são impulsionadas a se aguçarem para que as pessoas percam o sentimento do que é coletivo", analisa o ativista do Coletivo de Entidades Negras (CEN). 

'Dona do meu orí'
Foi ainda no ventre da mãe que começou a história de amor e devoção por Iemanjá da nutricionista Mariana Araújo dos Santos, de 31 anos. "Eu sempre fui desejada por minha mãe e ia nascer no dia 2 de fevereiro, mas por outros motivos, nasci no dia 21 de janeiro. Descobri que era filha de Iemanjá aos 27 anos e eu já sentia uma relação profunda com ela desde sempre, e eu não sabia explicar.Um amor e respeito inexplicável com o mar e com ela".Ela é dona do meu

Mariana é devota do orixá desde a infância
Foto: Reprodução/Vinicius Santana
orí, relembra. Criada no candomblé, filha de Iemanjá, Mariana frequenta o terreiro Ilê Axé Ajunssu, em Santiago do Iguape, em Cachoeira e revela que o orixá sempre aparece e conversa com ela."Somente ela me faz entender e compreender que as coisas acontecem no momento certo.Ela quem guia, me protege, limpa minhas lágrimas e que me acolhe nos seus braços", diz emocionada. Sem gostar dos festejos de largo, Mariana estreou na festa de Iemanjá somente em 2018, na companhia de uma prima. "Fui agradecer e pedir sempre. Coloquei o presente e fui embora com o dever cumprido", relembra.
Nascida e criada no Pelourinho, foi ainda na infância que a dançarina Dandara Amorim descobriu seu amor pelo orixá africano. "Eu sempre dizia que era de Iemanjá e ninguém acreditava. Eu acabei me iniciando no candomblé e tive a confirmação, a certeza que do que eu já sabia", revela. Na família, a influência do pai e da avó paterna na religião tornaram a devoção ainda mais forte. "Dizem que a gente renasce para o orixá, né? Depois que eu confirmei ser filha dela, minha vida é só de felicidades e realizações. Eu sempre converso com ela, mentalizo, acendo velas. Na minha casa não falta alfazema", conta empolgada. A dançarina decidiu tatuar o amor pela Rainha do Mar em março de 2018 e afirma que até no momento de fazer a tatuagem recebeu sinais do orixá. "Eu sempre quis fazer uma sereia. Depois ia fazer uma coisa super aleatória. Tentei fazer três vezes e não consegui. Na quarta, me veio uma frase na cabeça e consegui fazer. Eu acredito que tenha sido um sinal dela", revela.

 


Para Marcos Rezende, a relação entre o religioso e profano nos festejos Iemanjá devem ser vistos de uma forma integrada. "Se remontarmos a tradição do candomblé, essa ideia de religioso e profano, tanto na África, como no Brasil, se confunde, não porque é desrespeitoso, mas porque se mistura. O conceito de sagrado, para as religiões de matrizes africanas, é de um sagrado que que convive conosco, são planos sobrepostos. Diferente da ideia cristã em que terra, lugar em que estamos, é distante do céu, do paraíso. o profano sempre existiu e o importante é nós sabermos que tem que separar cada um dessas vivências, mas me preocupa mais as mudanças dadas pelos gestores públicos de normatização da festa", compara. 

Racismo ReligiosoDe acordo com a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, em 2018 foram registrados 47 casos de intolerância religiosa na Bahia.  Em novembro de 2018, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) lançou o aplicativo gratuito "Mapa do Racismo e Intolerância Religiosa" para que as pessoas possam registrar as denúncias. Para o historiador Jaime Nascimento, as práticas de discriminação devem ser consideradas como terrorismo. "Essa coisa de intolerância em Salvador é algo relativamente novo porque estamos falando de uma festa do século XX. Isso é

Devota do orixá saúda Rainha do Mar
Foto: Reprodução/Secom
preocupante. Esses ataques fundamentalistas devem ser tratados não mais como intolerância, mas como terrorismo. O poder público tem que agir porque se trata de cercear a liberdade de exercer sua fé", reflete Jaime. Manter o nome "Iemanjá" ao invés de "Festa do Rio Vermelho" e variantes é uma forma eficaz de manter viva os traços culturais do evento, para ativista do Coletivo de Entidades Negras (CEN), Marcos Rezende. " É importante reforçar que a nomenclatura da festa está conectada a uma tradição dos povos africanos As estruturas governamentais não podem se intimidar com essa onda moralista que quer destruir uma cultura que é oriunda daqueles que ajudaram a construir esse pais", afirma Rezende.