Salvador

Grafiteiros apostam no empreendedorismo e faturam alto

Na arte das ruas grafiteiros encontram reconhecimento internacional e geração de renda

Aline Damazio (aline.damazio@redebahia.com.br)

Cores, traços, ilustrações, grafite, negócio, lucro e empreendedorismo são palavras que estão na cabeça de muitos grafiteiros de Salvador. E, acredite, as contas desses profissionais da street art estão fechando, e não só, estão se tornando folha de pagamento e com sobra folgada de lucro.

Fábio Rocha, o Limpo, trabalha com grafite há cerca de 20 anos

A arte que não precisa de museus, que é impressa nos muros com uma despretensiosa intenção de transgredir, se torna silenciosamente a forma com que homens e mulheres de mentes inquietas tiram seu sustento. Exemplo dessa nova geração de grafiteiros  bem-sucedidos é Fábio da Rocha, 34 anos, conhecido como Limpo.

O artista não queria nada com a informalidade, almejava transformar a arte que expressava em um negócio rentável. Por isso, sua visão ia além dos traços coloridos e multiformes do grafite. Ele queria mais, buscava com cada desenho transfigurar a arte urbana em estilo de vida rentável. O desejo se tornou realidade e foi além do que ele imaginava. A arte de Limpo se tornou um negócio lucrativo,  com nota fiscal, CNPJ,  gerador de lucros e de postos de trabalho.

De Cajazeiras para o mundo
Nascido em Cajazeiras, bairro popular de Salvador, Limpo trabalha com grafite há aproximadamente 20 anos. Desde 2007, Limpo está morando  na Suécia, onde mantém o Limpo’s Atelier de Arte. " A minha assinatura é motivada por ter que voltar para casa limpo. Saia de casa todo arrumado dizendo que ia para uma festa , mas passava a noite toda grafitando", relembra o artista.

Começou expressando sua arte nos muros de Salvador, para demarcar território. Logo já desenhava em bolos, estampava  ilustrações  em  camisas, muros, telas e quadros que vendia por valores de R$ 50 até R$ 200. Esse ano, Limpo foi o único grafiteiro do Brasil a criar  ilustrações exclusivas para jogos virtuais do Play Station, trabalho que lhe rendeu R$ 15 mil. Hoje, o grafiteiro tem obras expostas nos muros da Dinamarca, Espanha, Sérvia e Suécia.

Pega a visão
O olhar atento por trás de pesados óculos de grau “pega a visão” de fatos que poderiam ser irrelevantes, pois até quando está se distraindo em festas esse artista de rua encontra uma nova forma de empreender e gerar mais renda. Em um evento, ele começou a escrever mensagens e grafites em um pequeno projetor e projeta nas paredes. “As pessoas me pagam para passar recados para outras, fazer ilustrações ao vivo, eu não paro ", diz, rindo.

Expressar emoção com sua arte, diz Limpo, é uma das chaves do negócio. “Procuro retratar com minha arte expressões de pessoas que carregam o peso da melancolia. Quem vê se comove e ao mesmo tempo se conscientiza de que precisa ajudar as crianças de rua sofridas, meninas  que são  exploradas, os discriminados. Quem não tem um pouco de melancolia em si? Quem não quer ajudar?”, explica.

Como faz para multiplicar a grana
“As  possibilidades são inúmeras, compartilho meus grafites em blogs,  com os contatos de outras cidades, posso grafitar tênis, sacadas de camarotes no Carnaval,  estabelecimentos,  escolas, desenhos para tatuagem, quadros, atualmente não faço um trabalho por menos de R$ 1 mil ", conta Limpo.

Para o empreendedor, a migração de idealismo para empresário é uma somatória simples. “O lucro vem de uma característica minha, sou muito motivado, acho que tudo é local para imprimir minha arte, isso me gera renda certa”, revela.

De acordo com o economista Armando Avena, esse é um novo processo de produção que vem para um mercado  jovem que migra para redes sócias em busca do novo e de mais criatividade. "Os artistas mostram sua arte nas redes sociais e praticam o e-commerce focado em vender sua própria produção, sem intermediários nas redes".

Grafiteiro patrão
Para dar vazão a essa intensa criatividade, Limpo seguiu o caminho de um  empreendedor que busca a formalidade, a organização que lhe rendeu   a abertura  de uma empresa, o que lhe incentivou a  montar um atelier na Suécia, com duas funcionárias,  além de  adquirir  um apartamento no país europeu e já  conquistou visto permanente de cidadão sueco.

Com a mente de um negociante, ele calcula e explica o motivo que o fez sair momentaneamente do Brasil. “É simples, a arte de rua fora do Brasil é mais valorizada e a moeda é mais forte. Sempre busquei a formalidade, através do micronegócio encontrei. Só quem é sabe.”

Limpo diz que hoje vive exclusivamente do lucro de sua arte. “De tanto buscar novos lugares e formas de divulgar minha arte, em 2013, cheguei a faturar R$ 500 mil, com a venda de quadros, grafites e palestras”.  

“O mais importante é poder, através da minha empresa, mostrar o grafite nos mais variados lugares, como consequência, lucro e conhecimento. Isso me faz querer investir, ampliar e atualizar meu negócio sempre. Alcançar mais espaços, gerar emprego com uma arte que ainda fica à margem”.

Grafite formalizado
Quem passa pelo bairro do Cabula, facilmente encontra os traços e assinatura de Denis Sena Rocha, nos muros, nas paredes, nos orelhões... Para os íntimos somente a imagem de espinhas de um peixe já gera assimilação imediata.

Denis Sena mudou sua vida profissional depois que formalizou seu negócio

O grafiteiro parece uma celebridade no bairro, são apertos de mão, abraço, cobrança  que ele visite o vizinho. A arte do grafiteiro  fez com que ele fosse acolhido pelos moradores do bairro. " O grafite é minha diversão. Com ele alcanço lugares e as mais diversas pessoas", explica. 

A diversão de Denis lhe rendeu uma profissão. " Percebi que  o meu prazer poderia me gera renda. E ao mesmo tempo tentar quebrar a discriminação religiosa com as imagens que eu reproduzo ", conta. O grafiteiro que transforma as tintas e sprays em já realizou intervenções urbanas, que lhe renderam R$ 13 mil; já grafitou em espaço em Luanda, em Nova York e atualmente  agrega ao seu trabalho ao ser palestrante para passar arte de rua para crianças e adolescentes .

Denis a dica para quem quer se profissionalizar. “Tenho 19 anos  como grafiteiro, e artista visual mas o que mudou totalmente o ritmo do meu trabalho e a geração de lucro foi a profissionalização, fui no Sebrae , tirei o CNPJ, pago meu INSS. Essa visão empreendedora somada a uma rede de contatos  faz com que eu não sobreviva e sim viva de arte”.

Se você ficou com vontade de formalizar sua arte, veja o que é preciso fazer, segundo dicas do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e de grafiteiros ouvidos pela reportagem. 


Veja mais sobre o trabalho de Limpo


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