Salvador

Ilhas de luz: os lugares de Salvador onde o apagão não chegou

Maioria era abastecida por geradores, mas também houve casos 'misteriosos'

Thais Borges, do Correio 24 horas (thais.borges@redebahia.com.br)
Em meio à escuridão, uma luz quase divina. Em plena Avenida ACM, nas imediações da Ligação Iguatemi-Paralela, um ponto de claridade se destacava em meio ao breu da noite desta quarta-feira (21): era a Igreja Universal do Reino de Deus, que mais parecia uma ilha de luz. Só que o motivo era mais técnico do que celestial: a fachada do templo estava sendo iluminada por um gerador. 
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)
Como a igreja, outros pontos da cidade serviram de refúgio para quem não tinha uma lanterna de celular à mão ou não dispunha de uma luminária de emergência ou mesmo de uma vela. Foi o caso da maioria dos mercados da capital e do interior, que garantiram que tanto quem precisava fazer compras de emergência quanto quem quisesse fazer a feira do mês, por exemplo, tivessem conforto. 
Todos as 82 lojas da rede Walmart (que inclui, além do próprio Walmart, o Bompreço, o TodoDia, o Sam’s Club e o Maxxi Atacado), estavam iluminados.
De acordo com a assessoria da rede, os mercados funcionaram normalmente, sem interrupções – todos também contam com geradores elétricos. Existe um custo adicional para manter as lojas funcionando com geradores, mas a rede Walmart não divulga os números.
A mesma coisa aconteceu com as unidades do grupo Cencosud – Perini, GBarbosa e Mercantil Rodrigues, segundo a assessoria do grupo. As unidades da Perini na Pituba e na Barra até chegaram a fechar meia hora mais cedo, mas foi uma decisão motivada pela segurança. Os mercados GBarbosa e Mercantil Rodrigues também continuaram com energia. 
Quem esteve em locais como a Ferreira Costa, na Paralela, e o sistema Ferry Boat, tanto em São Joaquim quanto em Bom Despacho, também não passou perrengue. As luzes continuaram devido a geradores dos estabelecimentos. 
De acordo com o presidente do Sindicato dos Lojistas, Paulo Motta, embora a maioria dos estabelecimentos comerciais não tenha conseguido o mesmo feito, não houve grandes perdas econômicas, em função do horário em que aconteceu o apagão. 
“A princípio, não houve (grande prejuízo) porque já estava perto do final do expediente. Nas lojas de rua, já tinha passado dois terços do dia. O balanço concreto foi ter que antecipar o fechamento para o comerciário voltar para casa. Houve até uma certa tolerância no início, mas, com o passar do tempo, viram que era melhor fechar ou encerrar”, comentou Motta.
A Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) afirmou que desconhece informações sobre prejuízos. 
Luz em casa
Outra 'ilha' ganhou destaque em meio ao escuro. Das Avenidas Garibaldi e Vasco da Gama – completamente sem luz – era possível ver algumas centenas de pontos luminosos no alto. Eram prédios no Horto Florestal. E, nesse cenário, muita gente que nem precisou sair de casa para encontrar luz. 
Moradores do residencial Chácara Suíça, por exemplo, tiveram energia durante todo o período do apagão. Nos dois edifícios – cada um com 20 andares e dois apartamentos por pavimento – os geradores foram acionados assim que a energia caiu. Logo, as cerca de 80 famílias que vivem ali tiveram luz durante todo o tempo. 
Ao CORREIO, o porteiro Paulo César dos Santos, 45 anos, que trabalha no local há nove anos, explicou que um gerador particular abastece a Chácara Suíça.
"É uma coisa que nós percebemos que é super necessária. Esse tipo de sinistro é ocasional, acontece de surpresa e assusta os moradores. Eles ligam imediatamente para saber o que houve porque, claro, o gerador tem capacidade para abastecer apenas um dos dois elevadores de cada prédio, todas as luzes de emergência dos andares e de todos os apartamentos, além das áreas externas", contou Paulo.
Para o porteiro, não há dúvidas de que os moradores se sentem mais seguros em prédios que têm energia. "Já trabalhei em outros lugares e posso dizer que, sim, isso traz sensação de segurança. É algo que leva pânico às pessoas. Acredito que pese até na hora de comprar um imóvel hoje em dia", completa ele. Atualmente, apenas dois apartamentos na Chácara Suíça estão desocupados.
Procurada pelo CORREIO, a Companhia de Eletricidade do Estado (Coelba) informou que, para colocar um gerador em imóveis residenciais é preciso, primeiro, procurar uma empresa que trabalhe com geradores para que esta faça uma avaliação e aponte as especificidades para o local.
Pequenas ilhas 
A secretária administrativa Mônica Maia, 35, sofreu com o apagão. Saiu cedo do trabalho, na Avenida Heitor Dias, e conseguiu pegar um ônibus para voltar para casa, mesmo diante de um ponto já lotado.
“O ônibus começou a ser invadido. As pessoas entrando pelo fundo, pela janela. Fiquei com medo até perceber que eram trabalhadores com medo de ficar na rua”, conta.
O motorista do coletivo, então, passou a não parar nos pontos, também temendo algum perigo. Só parou quando chegou na Rótula da Feirinha, em Cajazeiras. 
Lá, pouco mais de 17h, ainda havia luz do dia, mas praticamente todas as lojas estavam fechadas. “Pensei: tenho café, chocolate e suco. Preciso só da vela e do pão. Fui numa padaria que estava com a porta pela metade e consegui. Me tranquei em casa e ficou um breu”, relatou. Com o marido e o filho, Mônica ficou à luz de velas até que a energia voltasse, por volta de 8h. 
Só que, para sua surpresa, por algum motivo, a energia caiu novamente nos imóveis do entorno. E, de repente, o prédio de Mônica se tornou uma ilha no segundo momento de escuridão.
“O deles só voltou quase 10h da noite. Foi bom o nosso ter voltado porque já estávamos ficando sem bateria no celular. A gente ia perder contato com o mundo”, brinca a secretária. 
Para atender tanta gente num horário de pico imprevisto, a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) chegou a determinar que 100 ônibus fossem adicionados à operação de transporte entre o fim da tarde e a noite desta quarta. Só nesses veículos, o órgão estima que mais de 56 mil pessoas tenham sido transportadas. 
Mesmo assim, ainda teve gente com dificuldades para chegar em casa. O técnico em meio ambiente Luan Gonçalves, 22, conta que levou duas horas para conseguir embarcar em um veículo – que acabou sendo uma van. “Eu trabalho na Paralela e moro em Pau da Lima. Pego ônibus em 10 minutos, porque tem muita opção, e chego em casa em meia hora. Dessa vez, não tinha nada. Estava tudo lotado”, conta. 
Já na van lotada, encontrou ‘pequenas ilhas’ no caminho. Embora a escuridão dominasse, alguns postes no Trobody resistiam acesos. Ainda no percurso, percebeu que alguns mercados também funcionavam a todo vapor. E, para completar, encontrou gente que deu jeito de não deixar de curtir só pela falta de luz.
“Passei por um bar no Trobogy em que as pessoas estavam bebendo com a luz do celular ligada”, comentou. 
O estudante Daniel Brito, 20, também passou por alguns postes acesos na Avenida Paralela. Mesmo assim, garante que o breu dominou todo o percurso entre o CAB e a Rodoviária. Ao lado de dois amigos, Daniel fez todo o caminho a pé, durante o apagão. Ao todo, andou por seis quilômetros no escuro. 
“A gente tem uma página no Facebook para falar do transporte público em Salvador e foi fazer uma matéria sobre as passarelas do metrô, que estavam em reforma. Quando terminamos na passarela do CAB, notamos que o trânsito estava bem lento e vimos que não tinha metrô”. Com tanto engarrafamento, pegar um ônibus não era opção.
Perceberam que sua própria velocidade seria maior do que a dos carros. “Tivemos essa ideia e levamos cerca de 50 minutos para chegar na Rodoviária”, diz Daniel, que sequer faz exercícios físicos com regularidade. Durante o tempo, andaram sem lanterna. “Foi na cara e na coragem. A gente não pensou no medo. Naquele caos que estava imperando ali, a gente percebeu que não tinha alterativa para voltar para casa”, diz ele, que mora em Pirajá. 
A assessoria da Secretaria Municipal da Ordem Pública (Semop), responsável pela iluminação dos postes, não foi localizada pela reportagem para comentar a situação.