Salvador

Mãe pede para reconhecer corpo do filho em tragédia de Pituaçu

Resgate do corpo de Arthur, de 1 ano e 3 meses, comoveu a comunidade

Gil Santos, do Correio 24h

"A gente sempre vê as tragédias nos jornais, mas nunca imagina que pode acontecer com a gente". A afirmação é de uma senhora que perdeu dois filhos e dois netos no desabamento de um prédio na comunidade de São João, em Pituaçu, na manhã desta terça-feira (13).

Iara vê o resgate dos corpos dos dois filhos e dois netos (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)
Com cerca de 1,5m de altura, Iara Maria de Jesus, a Dona Iara, parecia perdida no meio da multidão que se aglomerava na entrada da viela onde ficava a casa da família. Emocionada, ela pediu para acompanhar o trabalho das equipes de resgate, foi acolhida em uma casa que fica ao lado da tragédia, e passou a manhã na janela observando, com aflição, a retirada de cada um dos corpos.

O primeiro a ser encontrado foi o pequeno Robert Pereira, 12 anos. O menino era estudante do 7º ano na Escola Municipal de Pituaçu, mas ainda não havia saído para a aula quando o acidente aconteceu, pouco antes das 6h. O jovem fazia parte da turma C e os colegas o descreveram como um adolescente bem humorado e divertido.

O segundo corpo encontrado foi o do irmão do adolescente, portanto, o segundo neto de dona Iara. O pequeno Arthur tinha apenas 1 anos e três meses de vida. Os bombeiros retiraram ele dos braços da mãe, Rosemary Pereira de Jesus. Os dois morreram abraçados, embaixo de uma escada.

A retirada do corpo de Arthur comoveu a comunidade. Enquanto os peritos subiam a ladeira carregando a gaveta com o corpo da criança, muitos moradores acompanharam com um olhar triste a cena. Alguns ficaram bastante emocionados. "São nesses momentos que a gente vê como os nossos governantes são miseráveis. O povo deveria ter moradia digna para que tragédias como essas não acontecessem", disse uma mulher, indignada.
Foto: Reprodução/TV Bahia
Não identificado
A tragédia atraiu a atenção de tantos moradores que a Polícia Militar e a Guarda Municipal precisaram interditar o acesso ao local da tragédia para não atrapalhar o trabalho das equipes de resgate. Por volta das 10h20 começou um alvoroço quando começou a se espalhar a notícia de que um corpo retirado dos escombros não havia sido identificado.

Os peritos carregaram a vítima até a saída da viela e colocaram dentro do carro do Instituto Médico Legal (IML). Dona Iara apareceu logo depois, pedindo para ver o corpo. "O rapaz (perito) disse que os vizinhos não reconheceram, mas eu quero ver se é mesmo meu filho. Preciso ter certeza", disse, ainda emocionada.

Alguns moradores saíram em defesa dela e pediram para que os policiais permitissem que a mulher fizesse a identificação do corpo. Sensibilizados, os peritos atenderam a solicitação. Dona Iara se posicionou na parte traseira do rabecão, e foi amparada por dois familiares, enquanto o pano que cobria o rosto da vítima foi retirado. Mais uma vez, a comunidade se emocionou.

"É ele, é meu Allan. Oh, meu Deus! É meu filho", disse Dona Iara, recebendo um abraço apertado de um dos familiares.

Um dos peritos perguntou se eles tinham certeza. "Esse é o Allan, vocês reconhecem?", e os três responderam que sim. "É ele sim, é o Allan". O policial fez algumas anotações e o corpo foi novamente recolhido.

Rosemary foi retirada dos escombros alguns minutos depois, e os bombeiros deram as buscas por encerradas no final da manhã.
Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO
No total, quatro pessoas morreram: Allan, Rosemary, e os dois filhos dela Robert e Arthur. Todos estavam no subsolo do prédio. Outras três pessoas sobreviveram: Alex, 29, Beatriz, 35, e Sabrina, 11 meses. Eles estavam no andar térreo. Alex, Allan e Rosemary são irmãos e filhos de Dona Iara. O prédio foi construído por Alex e tinha, além do subsolo e do térreo, outro andar e a cobertura. Segundo a Codesal, a estrutura foi erguida de local irregular.

Emoção
A tragédia que atingiu a família Pereira também paralisou o bairro. Muitos vizinhos que haviam saído para trabalhar no início da manhã retornaram para casa depois que souberam da notícia.

O rodoviário Rodrigo Santos, 33, conhece a família há muitos anos. "Fomos criados juntos, brincando desde pequenos. Hoje, eu saí para trabalhar às 4h30 e estava tudo normal. Estava chovendo, mas não notei nada de diferente. Levei um susto quando o pessoal ligou para me avisar do que tinha acontecido", contou.

Segundo os moradores, a rua tem movimento tranquilo durante a semana, bem diferente da manhã desta terça-feira. Uma multidão se aglomerou na entrada da viela, e alguns transformaram as janelas das próprias casas em observatório para acompanhar o trabalho das equipes de resgate.

Dois carros dos bombeiros, duas ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), viaturas da Polícia Militar e diversos carros dos agentes da prefeitura e do governo do estado davam o sinal de que essa manhã era atípica na comunidade de São João.

A Secretaria Municipal da Educação (Smed) informou que as aulas foram suspensas na Escola Municipal de Pituaçu, nesta terça, por conta da tragédia. Nesta quarta, os alunos também estão dispensados para ir ao sepultamento do corpo de Robert.

O acidente fez algumas pessoas recordarem das tragédias do Barro Branco e Marotinho, ocorrida em abril de 2015 e que deixaram 15 mortos após um deslizamento de terra provocado pelas chuvas. Além da dor, uma das lembranças daquele dia é da solidariedade de alguns soteropolitanos após o ocorrido.

Esse desejo de ajudar o próximo voltou a se manifestar nesta terça. Dezenas de homens trabalharam a manhã inteira ajudando as equipes de resgate a retirar os entulhos. Enquanto isso, algumas mulheres fizeram café e levaram biscoitos para alimentar os profissionais e voluntários. Um destes, um pedreiro, resumiu a ação em uma frase: "Estamos todos de luto".