Salvador

Moradores ocupam as ruas e levam atividades gratuitas ao Rio Vermelho

Palhaços do Rio Vermelho, Grupo Musical Por que Choras e a pintura do muro ao redor do Fantasmão foram as atividades do projeto

Laura Fernandes (laura.fernandes@redebahia.com.br)
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Os moradores do Rio Vermelho fizeram um domingo diferente no bairro, que ontem amanheceu com astral revitalizado. Vizinhos que se conheciam e outros que nunca se viram saíram de casa para ocupar a Rua Feira de Santana, cada um de uma forma. Um levou as cadeiras, outros levaram o churrasco e os instrumentos musicais, enquanto vizinhos mediam a pressão arterial, pintavam as crianças, ou usavam seu talento para pintar um muro de 24 metros de largura em frente ao prédio abandonado da rua, apelidado de Fantasmão.

Moradores do Rio Vermelho ergueram muro de 24 metros de altura em torno de um prédio abandonado e artistas do bairro fizeram várias intervenções para revitalizar o espaço (Foto: Marina Silva/CORREIO)




O encontro fez parte do projeto Revivendo o Rio Vermelho, que reuniu uma série de atividades gratuitas na rua. Além da participação dos Palhaços do Rio Vermelho e do Grupo Musical Por que Choras, a principal atividade foi a pintura do muro ao redor do Fantasmão. Erguido pela própria vizinhança, o muro vai evitar que moradores de rua ocupem o imóvel em ruínas que, reza a lenda, foi comprado por um dono que vendeu os mesmos apartamentos para diferentes pessoas e acabou morto.


“Moro aqui há 58 anos e esse prédio está abandonado há mais de 50 anos e virou um problema. A rua ficava deserta... Além de chamar a atenção do poder público, queria fazer um domingo diferente, um domingo no Parque Cruz Aguiar, para criar uma socialização. As pessoas precisam voltar a colocar as cadeiras na porta de casa”, defendeu o artista plástico Ruy Santana, 58 anos, idealizador do projeto.


Ao lado de amigos, Ruy ficou responsável por revitalizar o muro com um painel artístico que inclui diferentes técnicas, da pintura à gravura no concreto. Entre os artistas  convidados, estavam Bel Borba, Zivé Giudice, Guache Marques e Hans Peter. “O Rio Vermelho é o meu bairro querido e estou pedindo licença, com a política da boa vizinhança, para participar. É assim que a comunidade se apropria do seu bairro”, garantiu Bel Borba, 59.


Ao observar o Fantasmão sendo pintado, da porta de casa, o auditor fiscal Maraca Marinho, 51, lembrou que quando chegou ao bairro, o prédio estava construindo e que escalava o imóvel para empinar pipa com os irmãos. “Depois virou favela. É massa essa iniciativa de hoje, porque o espaço se transformou em um ambiente cultural e isso mobiliza o bairro”.


Painel recebeu diferentes técnicas, da pintura à gravura no concreto
(Foto: Marina Silva/CORREIO)



Sobrinho do auditor, o estudante Ivan Marinho, 18, disse que o projeto torna o bairro mais bonito e agradável. “Moro aqui há sete anos e não conheço quase ninguém. Isso faz a gente se aproximar mais das pessoas, que vivem em bolhas. Faz a gente se aproximar da cidade”, elogia, ao citar o movimento de ocupação das ruas cujo pontapé se deu com a prefeitura de Salvador, através de iniciativas como a Feira da Cidade.


“Se a gente não ocupa nosso espaço com lazer e cultura, vem o quê? O crime. Não adianta ficar cada um no seu casulo, a gente quer é contribuir com o poder público que já tem feito sua revitalização no Rio Vermelho”, diz o empresário Mário Sérgio Marques, 61, um dos colaboradores do evento ao lado da esposa Graziela Bandeira, 53, diretora da Escola Baiana de Arte e Moda (EBAM).


Além da Ebam, outras empresas sediadas no bairro apoiaram o projeto Revivendo o Rio Vermelho, como Espaço Calli, Blog Rio Vermelho, Ebade, Villa Forma, DiFato Restaurante, Euzaria, Empório Occhiali, Tropos e Bar do Nando. “Pessoas que não se conheciam, estão se conhecendo, quem não se via, está se vendo. Há uma simbiose, uma interação. É bom para o bairro e  para os moradores que se aproximam com arte, música e conversa fiada”, resume o empresário Fernando Almeida, 57, proprietário do Bar do Nando e morador do Rio Vermelho há 54 anos.



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