Salvador

Motoristas sofrem com assaltos em sinaleiras perto do Parque da Cidade

Há três meses casos de assaltos em engarrafamentos e sinaleiras têm acontecido com maior frequência no entorno do Parque da Cidade

Anderson Sotero (anderson.sotero@redebahia.com.br)
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Primeiro ele bateu com a pedra no vidro do carro parado em uma sinaleira no Itaigara. Como não conseguiu quebrar, pegou distância e arremessou. Enquanto os estilhaços caíam em cima da motorista, a analista de sistemas Soraia Brito, 50 anos, ele rapidamente colocou o braço dentro do veículo e roubou a bolsa dela.


A cena aconteceu na última quarta-feira, quando a analista de sistemas voltava para casa, por volta das 20h.  “Fiquei apavorada. Foi tudo rápido demais. Eu podia ser assassinada. Ele deu distância e jogou a pedra de longe para me matar”, conta.


De acordo com o delegado Nilton Tormes, titular da 16ª Delegacia de Polícia, na Pituba, há três meses casos de assaltos em engarrafamentos e sinaleiras têm acontecido com maior frequência no entorno do Parque da Cidade.




“Eles se aproveitam do trânsito e costumam selecionar vítimas do sexo feminino. É mais fácil roubar mulheres porque dificilmente elas reagem e normalmente andam com bolsa”, destaca. Após praticar o roubo, segundo o delegado, os bandidos ainda fogem pelo parque e trocam o material roubado por drogas com traficantes do Nordeste de Amaralina.


“Eles se aproveitam da facilidade de transitar no parque por causa da extensão e ausência de fiscalização, além de fazer fronteira com o Boqueirão (localidade da Santa Cruz), Itaigara e Pituba”, diz.


Moradora do Alto do Itaigara, a analista de sistemas parou o carro diante do sinal vermelho, próximo ao parque, e foi atacada pelo assaltante. “Caiu vidro no meu olho e ainda tive cortes no corpo”, conta.


Ela diz ainda que o assaltante agiu mesmo havendo policiais por perto. “Eles não respeitam policiais. Isso acontece quase todos os dias. Não tem mais como viver nesta cidade”, reclama.


Na manhã seguinte ao crime, ela foi até o parque para mostrar à polícia o buraco na cerca por onde o assaltante fugiu. “Ele levou minha bolsa com documentos, cartões, dinheiro e celular. Nunca mais vou ter coragem de passar por aqui”, diz. Ela já tinha sido vítima antes. “Era a mesma pessoa. Ele não tinha conseguido quebrar o vidro da primeira vez, e agora conseguiu”, diz.


“Está acontecendo direto. O que eu não entendo é que isso acontece há muito tempo e ninguém faz nada. Policiais só ficam aqui à tarde”, reclama a administradora Mariana Knapp, 38, que trabalha no Itaigara e estaciona todos os dias em frente ao parque.


Na região, já teve até delegada assaltada. E não foi só uma. “Três delegadas amigas minhas já foram vítimas em frente ao Hospital Aliança”, conta a titular da 7ª DP, no Rio Vermelho, Jorvane Andrade.


Um PM que trabalha na área e pediu anonimato relata a dificuldade. “Às vezes a gente está cobrindo um local e eles estão agindo em outro. Acontece muito entre o final da tarde e o início da noite”, diz.


Ações
No dia 18 de junho, dois homens acusados de praticar assaltos na região do Parque da Cidade foram presos. Segundo o delegado Nilton Tormes, a Polícia Civil está articulando ações para combater os roubos. “O delegado-chefe (Hélio Jorge) está ciente dessa situação e pediu atenção especial. As estratégias estão sendo montadas para efetivar o combate, mas não podemos divulgar”, diz.


“No levantamento preliminar que fizemos, percebemos que são usuários de crack em grau realmente elevado. Estamos montando uma operação. Já temos alguns nomes e até mandados de prisão”, complementa o delegado José Nelis, plantonista da 28ª DP, do Nordeste de Amaralina.


Explicações
Na hora de explicar os motivos para o aumento, sobra até para os motoristas. “É questão de oportunismo, até mesmo por conta  da conduta dos motoristas que falam ao celular enquanto dirigem, deixando bolsas visíveis, o que tem favorecido muito esse aumento. A grande dificuldade é realmente o trânsito, no horário de pico”, pontua o delegado José Nelis.


Já o delegado Nilton Tormes acredita que o problema pode ter origem na própria estratégia de policiamento.  “A partir do momento que as bases de segurança (do Nordeste) foram instaladas, os índices de crimes contra o patrimônio no Nordeste caíram muito, porque está mais policiado. Mas o entorno não tem base e não está tendo o mesmo efetivo. Como eles estão impossibilitados de agir na região, foram para o entorno”, ressalta.


O subcomandante da 35ª CIPM, responsável pelo policiamento na área, capitão Gabriel Neto, destaca que a área é atrativa porque circulam pessoas “de relativo poder aquisitivo” e que, diante das ocorrências, a polícia mudou na sexta-feira as estratégias de policiamento no parque. “Várias viaturas passam pelo local, fazendo rondas. As mudanças e a quantidade de policiais não podemos divulgar, porque é uma informação estratégica”, ressalta.




Pedras quebram vidros e marretas abrem buracos
Enquanto a motorista está no engarrafamento, o assaltante se aproxima com uma pedra ou uma vela de carro na mão. Quebra o vidro do carona e sob fortes ameaças rouba a bolsa ou qualquer material que estiver sobre o banco. Na maioria das vezes, a vítima está sozinha. É assim que os criminosos dos roubos em marcha lenta agem, segundo a polícia.  No Parque da Cidade, ainda fazem com marretas buracos no muro que cerca a área para facilitar a fuga. “O traficante é o receptador e paga em droga. A moeda é a droga”, detalha o delegado Nilton Tormes, titular da 16ª DP. Segundo o delegado, em alguns casos, para levar o material roubado até traficantes do complexo do Nordeste de Amaralina, os bandidos usam menores.  Ainda de acordo com o delegado, alguns assaltantes moram no complexo do Nordeste. Já o major da 40ª CIPM (Nordeste) critica a generalização. “Dizer que quem pratica esse tipo de roubo na região do Parque da Cidade é do Nordeste é um exagero. Por ser um bairro de menor poder aquisitivo consideram que é do Nordeste. Já trabalhei na companhia do Iguatemi e vinha gente da Polêmica, na região da Comercial Ramos, e praticava o delito”, destaca.