Salvador

'Nadei por quatro horas', diz condutor de lancha sequestrada por bandidos

O marinheiro foi contratado pelos bandidos em Salvador; viagem era para Ilha de Itaparica

Milena Teixeira, do Correio 24 Horas (milena.teixeira@redebahia.com.br)
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A lancha Júlia II, apreendida com explosivos por policiais, no bairro da Ribeira, em Salvador, foi sequestrada de um marinheiro. De acordo com informações da vítima, que preferiu não se identificar, dois homens o abordaram na praça Cairu, na Calçada, e contrataram a embarcação para fazer uma viagem até a praia da Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica, na tarde do último domingo (29). 

O sequestro, segundo a vítima, ocorreu na segunda vez que ele foi buscar os suspeitos na Ilha. Ao chegar ao destino, por volta das 19h, o marinheiro foi abordado por mais quatro homens armados e com fardas da Polícia Civil. "No desembarque veio mais gente. Eles já foram me rendendo e eu só ouvi eles falarem: saia do comando. Nem quis olhar pra mais nada", contou o marinheiro.

De acordo com ele, após o anúncio do sequestro, os momentos foram de terror [veja relato completo abaixo]. Por volta das 21h de domingo (29), já em alto mar, os suspeitos jogaram o marinheiro na água. A vítima diz que precisou nadar por mais de quatro horas para chegar avistar a praia Canta Galo, já na capital baiana.

"Eles me jogaram sem colete, sem nada.  Eu nadei por mais quase cinco horas. Era muito onda alta. A única que coisa boa é que eu sei nadar, mas graças a Deus estou vivo. Agora, a luta continua", afirmou. Em cada viagem, o marinheiro iria ganhar R$ 1,5 mil. Segundo ele, a embarcação pertence a seu patrão, também não identificado pela reportagem do CORREIO.

Foto: Milena Teixeira/CORREIO

Ao chegar em Salvador, o marinheiro diz ter procurado a polícia local. Na manhã desta terça, ele esteve no local onde a embarcação foi pericíada, na Ribeira. E, na sequência, ele foi até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), na avenida San Martin. Lá, o marinheiro foi medicado e seguiu para prestar depoimento na Delegacia de Homícidios (DH) Central. Na tarde desta terça, ele deve ser ouvido pela Polícia Federal.

Moradores relataram que durante a madrugada houve troca de tiros no mar. Segundo a PF, a  lancha foi encontrada mais tarde, à deriva, sem nenhum ocupante, e foi rebocada até a praia, quando se constatou a presença de grande quantidade de explosivos, além de ferramentas, balaclavas, luvas e colete balístico.

"Peritos do Grupo de Bombas e Explosivos da PF estiveram no local e removeram o material. Acredita-se que o grupo planejava um ataque a caixas eletrônicos. Os dois presos foram encaminhados à Superintendência da Polícia Federal em Salvador, para adoção das medidas de polícia judiciária cabíveis, e os demais continuam sendo procurados", destacou a PF. 

Perícia

Uma equipe da Polícia Federal realizou perícia na embarcação, que ainda está na praia na Ribeira, durante toda a manhã desta terça. Na lancha, a polícia encontrou uma mochila com uma marreta, uma picareta e, além disso, dois coletes da Polícia Civil. A Julia II também está destruída na frente e no lado. Moradores do bairro acompanharam a perícia ao longo da manhã.

Relato 

Eu fui contratado por dois caras de tarde na praça Cairu, na Calçada. Eles pareciam clientes normais quando acertaram a viagem até a Ilha. Na segunda viagem, por volta das 19h, eles me renderam e me fizeram de refém. Na segunda vez, tinha  mais quatro homens lá . Todos estavam armados, mas eu não vi muita coisa, porque fiquei apavorado.


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Eles me pediram pra sair do comando e me guiaram no sentido Salvador. Nomar, eu contei que eu era pai de família e que precisava criar meu filho, de dois meses, mas mesmo assim me jogaram no meio da água, sem colete. O que salvou é que eu trabalho há muito tempo nessa aréa e, por isso, consegui nadar por quase quatro horas. Quando eu cheguei perto do Canta Galo procurei a polícia. Foi Jesus que me salvou foi meu filho, de dois meses,  que me motivou a nadar por mais de quatro horas.


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O mar estava ruim e as ondas estavam grandes. Também estava frio. F Passou tanta coisa na minha cabeça,inclusive, que não ia ver mais minha família. Agora, eu estou com dor na minha espinha e não sinto minha perna direito. Mas graças a Deus estou vivo. Tem coisa na vida que você acha que não vai passar, mas passa. 


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Eu sei que vai ter gente pra me criticar, mas eu sou um pai de família, que precisa sustentar a casa. Pra ganhar dinheiro a gente passa por cada uma. Meu coração precisa da minha família agora.