Salvador

'Não tive a oportunidade de abraçá-lo e beijá-lo', diz pai de bebê morto em desabamento

Arthur foi um dos quatro mortos em queda de imóvel

Bruno Wendel, do Correio 24h
- Atualizada em

"Infelizmente não tive a oportunidade de abraçá-lo e beijá-lo", disse o promotor de vendas  Roberto da Silva Bento, 32 anos, pai do pequeno Arthur, de 1 ano, uma das quatro pessoas que morreu na manhã de terça-feira (14) no desabamento de imóvel no bairro de Pituaçu.

Foto: Nilson Marinho/CORREIO
 A última vez que ele viu o filho foi há três meses, em uma clínica. "Foi quando fui fazer o exame de DNA que logo depois apontou que a criança era meu filho. Desde então, passei a ajudar nas despesas dele, mas nunca tive muita aproximação por que não tinha uma boa convivência com a mãe. Arthur nasceu de uma noite que eu e a mãe dele tivemos", declarou Roberto, pai também de um outro filho fruto de uma outra relação.

Ele mora na Caixa D'Água e no dia da tragédia estava em Itapuã, onde trabalha. "Soube através dos noticiários e logo depois um amigo me disse que tinha gente soterrada e fui para o local. Tinha esperança que meu filho saísse vivo, mas Deus quis assim", disse ele cabisbaixo.

Além de Roberto, o padeiro Valter Cruz dos Santos, 32, estava logo cedo no Instituto Médico Legal na manhã desta quarta-feira (14). Os dois sequer se conheciam, mas estavam  no local pela mesma dor. Valter é o pai do adolescente Robert, irmão de Arthur, que também morreu na tragédia junto com a mãe, Rosemary Pereira de Jesus. e o tio Allan Pereira.

Robert era o único de Valter.  "No final de semana, chamei para morar comigo, mas ele disse: 'Não, pai. Tenho que tomar conta de minha mãe e do meu irmão", contou Valter que não mora em Pituaçu.

Apesar de não conviver com a mãe de Robert, Valter disse que sempre via o filho. "Uma tragédia. Quando vi as imagens dos escombros, sabia que dificilmente alguém sairia vivo dali. Já o dava como morto. Fui até lá e acompanhei de perto o resgate de cada corpo. Estou destruído", declarou.
Foto: Carol Aquino/CORREIO
Ele disse ainda que Alex, irmão de Rosemary e de Allan e um dos sobreviventes, tinha o sonho de ver a família morando junto. "Por isso que construiu a casa. A obra estava finalizada há dois meses. Ele não teve culpa. Foi a chuva", declarou Valter.

Relembre o caso
Era início da manhã e havia chovido mais da metade do previsto para todo o mês de março na última terça-feira (13). Em um imóvel de quatro pavimentos construído de forma irregular na Rua Alto de São João, bairro de Pituaçu, em Salvador, sete pessoas da mesma família dormiam.

Um forte barulho vindo do local, já por volta das 5h30, chamou a atenção de vizinhos, que logo perceberam a tragédia que estava para acontecer. A edificação, erguida com muito suor pela família Pereira, de acordo com vizinhos, veio abaixo às 5h50 soterrando e matando quatro pessoas.

Rosemary Pereira, 34 anos, seus filhos Arthur, de apenas um ano, e Robert, de 12, além do irmão Allan Pereira, 31, estavam no térreo quando a construção desabou. Os quatro morreram depois de ficarem soterrados. No andar superior estavam Alex Pereira, 29, e a esposa Beatriz com a filha Sabrina, de apenas 11 meses, os únicos sobreviventes da tragédia.

Minutos antes do imóvel cair, segundo relataram familiares das vítimas ao CORREIO, um dos vizinhos escutou um forte barulho vindo da casa. Preocupado, ele tentou avisar aos moradores que algo estranho estava acontecendo. Mas foi em vão, ninguém o escutou. Minutos depois, um outro barulho mais forte pode ser ouvido, dessa vez também por outros vizinhos. A casa tinha caído.

A partir daí, iniciava-se uma luta contra o tempo. Vizinhos e amigos se uniram para buscar possíveis sobreviventes. Todos se ajudaram tirando parte do que restou. Alex foi o primeiro a sair dos destroços. As equipes do Corpo de Bombeiros ainda nem tinham chegado no local.

Foi Alex também que ajudou na busca da mulher, da filha, dos irmãos e dos sobrinhos. Permaneceu, mesmo com arranhões no rosto, em meio ao que restou, tentando salvar os que ficaram soterrados.

Alex (camisa preta), que construiu imóvel há dois anos, observa desolado o resgate de vítimas (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Cunhado de duas das vítimas, Jonas Lima, 40, mora a poucos metros da residência e acordou com o barulho de um trovão. Foi até a janela de onde era possível ver a casa das vítimas. Avistou lá embaixo o vizinho tentanto avisar à família sobre o barulho estranho.   

"Eu olhei para a casa antes de cair, só deu tempo de deitar na cama de volta e a casa desabou. O vizinho tentou avisar, bateu na porta, gritou 'Leco (Alex), Leco! Allan', mas ninguém atendeu. Ele foi em casa calçar um sapato para retornar e avisar novamente, mas não deu tempo", conta o cunhado.

Alex, de acordo com o cunhado, tinha trabalhado e economizado para erguer o prédio, construído há 7 anos. A residência foi feita para tirar os irmãos, Rosemary e Allan, do aluguel.

Encontro
Alex foi forte. Permaneceu no local até as 8h, antes de ser atendido por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e ser encaminhado para o Hospital Geral do Estado (HGE), onde já estavam a sua esposa Beatriz e a filha Sabrina, ambas resgatadas dos escombros com vida por moradores e por ele.

Durante o tempo que permaneceu no local do desabamento, era de Alex que o restante da família queria escutar a confirmação de que as outras vítimas estavam vivas. Antes de seguir para a ambulância do Samu, ele se encontrou com a mãe, Iara Pereira, 58, que da janela de uma das casas próximas ao desabamento acompanhava toda a operação de resgate.   

"Cadê os meninos, Alex? Estão lá embaixo?", perguntava Iara enquanto era abraçada pelo filho. "Estão sim, mainha, mas eles vão sair com vida. Deus está com a gente. Temos que ter esperança até o último minuto", tentava consolar a mãe, que ainda não sabia que o neto, Robert, já havia sido resgatado sem vida.

Tensão
"Silêncio, silêncio", gritavam os bombeiros quando algum ruído surgia em meio aos escombros. Eles queriam escutar se as vítimas soterradas ainda estavam vivas gritando por socorro. Mas ninguém escutou nada. Àquela altura todos já estavam mortos.

O silêncio só foi quebrado quatro vezes. Eles usavam um apito para aletar que as vítimas foram encontradas. Foi assim no resgate de Arthur, de Allan e de Rosemeire.  

A princípio, no resgate de Allan, dois familiares foram fazer o reconhecimento do corpo no local. Todos afirmaram às autoridades que o corpo não era dele. A dúvida só acabou quando a mãe, Iara, foi até o rabecão pedir para fazer o reconhecimento do filho. Ela teve certeza de que se tratava de Allan.