Salvador

Nova Lapa ganha grafite inspirado no trabalho da Médicos Sem Fronteiras

Intervenção é assinada pelos artistas Éder Muniz e Raphael Ribeiro e tem inspiração no trabalho da organização humanitária

Nilson Marinho, do Correio 24h

"Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego", escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade, no célebre poema A Flor e a Náusea, de 1945. Na nova Estação da Lapa, a flor em questão é um painel em grafite de 14x4m assinado pelo artista plástico baiano Éder Muniz. Manter longe o tráfego da intervenção artística, no entanto, seria inevitável já que ali cerca de 325 ônibus circulam por hora.

Foto: Marina Silva/CORREIO
O grafite de cores vibrantes, marca do artista que coleciona cerca de mil trabalhos espalhados por diversos pontos da cidade, é inspirado no ofício da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), como parte da série de eventos do Conexões MSF, ação que reúne, entre 27 de maio a 4 de junho, exposições, filmes, seminários e conversas com o objetivo de conectar as pessoas à ajuda humanitária realizada pela MSF em cerca de 70 países.

O painel, que também é assinado pelo artista plástico Raphael Ribeiro, já pode ser visto desde o último domingo (5) por cerca de 430 mil usuários que transitam pela Nova Lapa. Para dar vida à obra, os dois precisaram de quatro dias de trabalho, 50 latas de tinta spray e duas de tinta acrílica. A intenção, segundo Muniz, é fazer uma conexão entre a medicina tradicional e a medicina indígena. A comparação é expressa por uma divindade sagrada que abençoa uma criatura terrestre.

"O grande lance é que, às vezes, a imagem pode informar muito mais do que os livros, já que a população em geral não tem o hábito da leitura. A arte ajuda nesse processo de resgate da medicina indígena baseada na cura por meio das folhas e raízes", explica Muniz.

"Conseguimos sintetizar essa ação do médicos que trabalham em situações conflituosas, comparando com a medicina natural, que é utilizada pelos nossos ancestrais para tratar o próximo de uma forma mais humana", completa Ribeiro.

Foto: Marina Silva/CORREIO

Na espera do ônibus que a levaria para o bairro de Cajazeiras X, a estudante Arlene Assunção, 32 anos, nem sequer percebeu o painel que dava vida às largas paredes cinzas da estação de transbordo utilizada por ela três vezes por semana. "E olha que eu sou bem atenta a essas coisas, viu? Todo esse concreto me deixa sufocada. Acredito que essas novas cores trazem um ar de vivacidade ao espaço", considerou. 

O motorista Valdemir dos Santos, 35, foi mais atento. Percebeu que alguma coisa estava diferente na estação. Reparou, então, no grande desenho que deixou o subsolo do terminal mais colorido - é o local onde ele descansa todos os dias por cerca de 20 minutos, entre uma viagem e outra. "Ficou muito lindo! Pena que o desenho não é maior. Na minha opinião, todas as paredes deveriam receber essas cores", avaliou ele, antes de embarcar os passageiros no ônibus Reguladora/Lapa.

Como parte da série de eventos em homenagem ao trabalho da MSF, uma exposição fotográfica ficará até 25 de junho no Salvador Shopping (Espaço Gourmet Piso L1). Na mostra, 72 imagens retratam o dia a dia do MSF, que atende pessoas em meio a conflitos armados, epidemias, desastres naturais ou sem nenhum acesso a cuidados de saúde.